Ed. 151 – Revista Caros Amigos

  • ano XIII nmero 151 outubro 2009R$ 9,90ano XIII ano XIII ano nmero 151 nmero 151 nmero outubro2009outubro 2009outubroR$ 9,90Novo stio: www.carosamigos.com.brANA MIRANDA CAROLINA CORAL CESAR CARDOSO CLAUDIUS EDUARDOSUPLICY EMIR SADER FANIA RODRIGUES FERRZ FIDEL CASTRO FREI BETTOGERSHON KNISPEL GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS GLAUCO MATTOSOGUILHERME SCALZILLI GUTO LACAZ JOO ZINCLAR JOEL RUFINO DOS SANTOSJOS ARBEX JR. LCIA RODRIGUES MARCELO SALLES MARCOS BAGNO MCLEONARDO RENATO POMPEU TATIANA MERLINO WAGNER NABUCOENTREVISTA EXCLUSIVAFerrzPERIFERIA DE SO PAULO RECRIA A CULTURA POPULARAUTO DE RESISTNCIA LICENA PARA MATARDIO DA FAVELA VAI EXPLODIRO que muda na APOSENTADORIACHILE A LUTA CENTENRIA DOS NDIOS MAPUCHEHONDURAS CRISE ABALA ADOUTRINA MONROEURUGUAI A GRANDE PROVA DE FOGO DA ESQUERDARIO DE JANEIRO-01-capa_151.indd 3 01.10.09 18:57:07
  • guto_151.indd 44 30.09.09 16:53:44
  • 45-Anuncio_bahia1_151.indd 44 30.09.09 17:58:41
  • 45-Anuncio_bahia2_151.indd 44 30.09.09 17:59:21
  • 45-Anuncio_bahia2_151.indd 45 30.09.09 17:59:26
  • 7setembro 2009 caros amigosfale conosco redaoComentrios sobreo Contedo editorial, sugestese CrtiCas a matrias.emeio: [email protected]: (11) 2594-0351servio de atendimento ao assinantePara registrar mudana de endereo; esClareCer dvidassobre os Prazos de reCebimento da revista; reClamaes;venCimento e renovaes da assinaturaemeio: [email protected]novo tel.: (11) 2594-0376assinatUrasAssine A revistAstio: www.carosamigos.com.brtel.: (11) 2594-0376(de segunda a sexta-Feira, das 9 s 18h)preciso prestar ateno ao que est acontecendo nas periferias. Amudana real, concreta, e s no v quem no quer ou quem, por opoideolgica e algum interesse particular, se recusa a encarar arealidade.Falamos das periferias em geral, tanto aquelas que se encontramnas beiradas das cidades brasileiras, apinhadas das classessubalternas, quanto quelas que por obra do processo histrico setornaram satlites do poderoso imprio estadunidense.A entrevista com Ferrz, escritor do Capo Redondo, joga luz sobrea ebulio da periferia paulistana, onde milhes de moradores dasfavelas so criminalizados e vtimas da violncia do Estado. O alertaest dado: o dio acumulado est na iminncia de uma explosoincontrolvel.Reportagem de Marcelo Salles denuncia que, no Rio de Janeiro, apo-ltica de extermnio executada pela polcia, eliminou quase dez milpes-soas na ltima dcada, a maior parte favelados. Os protestos dosmora-dores da periferia carioca so cada vez mais freqentes emassivos.No outro lado da mesma moeda, reportagem de Tatiana Merlinomos-tra que a populao perifrica de So Paulo resiste bravamente aolixo da indstria cultural dominante e recria, com vitalidade, suasprprias manifestaes culturais. A juventude se organiza em torno desaraus de msica, poesia e literatura, das bibliotecas comunitrias,mostras de ci-nema e oficinas de hip hop.A reao praticamente unnime dos pases latino-americanos contra ogolpe de Estado em Honduras revela que a periferia do imprio tomainiciativa indita e se move sem a tutela dos Estados Unidos. JosAr-bex Jr. analisa a crise de Honduras. Mais duas reportagensreforam esse quadro de rebeldia nas periferias: Carolina Coral falasobre a luta cente-nria e atual dos ndios mapuche no Chile; e FaniaRodrigues relata o processo eleitoral no Uruguai, onde oex-Tupamaro Jos Pepe Muji-ca lidera a disputa pela Presidncia daRepblica.Vale a pena conferir. Boa leitura!CAROS AMIGOS ANO XIII 151 OutubRO 2009EDITORA CASA AMARELARevistasLivRosseRvioseditoRiaisfundadoR:sRgiodesouza(1934-2008)diRetoRgeRaL:WagneRnabucodeaRajoEDITOR: hamilton Octavio de souza EDITORa aDjunTa: TatianaMerlino EDITOREs EsPECIaIs: jos arbex jr e Renato Pompeu EDITORa DEaRTE: Lucia Tavares assIsTEnTE DE aRTE: henrique Koblitz EssingerEDITOR DE FOTOGRaFIa: Walter Firmo REPRTER EsPECIaL: Marcos ZibordiREPRTEREs: Felipe Larsen e Lcia Rodrigues CORREsPOnDEnTEs: Marcelosalles (Rio de janeiro) e anelise sanchez (Roma) sECRETRIa DaREDaO: simone alves REvIsOR: Ruy Luduvice DIRETOR DE MaRKETInG:andr herrmann PuBLICIDaDE: Melissa Rigo CIRCuLaO: Pedro nabuco dearajo RELaEs InsTITuCIOnaIs: Ceclia Figueira de MelloaDMInIsTRaTIvO E FInanCEIRO: Ingrid hentschel, Elisngela santanaCOnTROLE E PROCEssOs: Wanderley alves LIvROs Casa aMaRELa: Claricealvon sTIO: Lcia Rodrigues aPOIO: Maura Carvalho, Douglas jernimo eneidivaldo dos anjos aTEnDIMEnTO aO LEITOR: Llia Martins alves,Zlia Coelho assEssORIa juRDICa: Marco Tlio Bottino, aton Fon Filho,juvelino strozake, Luis F. X. soares de Mello, Eduardo Gutierrez esusana Paim Figueiredo REPREsEnTanTE DE PuBLICIDaDE: BRasLIa:joaquim Barroncas (61) 9972-0741.jORnaLIsTa REsPOnsvEL: haMILTOn OCTavIO DE sOuZa (MTB11.242)DIRETOR GERaL: WaGnER naBuCO DE aRajOCaROs aMIGOs, ano XIII, n 151, uma publicao mensal da EditoraCasa amarela Ltda. Registro n 7372, no 8 Cartrio de Registro deTtulos e Documentos da Comarca de so Paulo, de acordo com a Lei deImprensa. Distribuda com exclusividade no Brasil pela DInaP s/a -Distribuidora nacional de Publicaes, so Paulo. IMPREssO:BangrafREDaO E aDMInIsTRaO: rua Paris, 856, CEP 01257-040, so Paulo,sP02 Guto Lacaz.07 Jos Arbex Jr. aponta a crise de Honduras como aprimavera da Amrica Latina.08 Joel Rufino dos Santos chama a atenopara as mensagens das telenovelas. Guilherme Scalzilli conclama amobilizao dos petistas para a eleio de 2010.09 Caros Amigos apia o manifesto em defesa da democracia e doMST.10 Marcos Bagno Falar Brasileiro. Mc Leonardo comemora a leique descriminaliza o funk no Rio de Janeiro.11 Gershon Knispel lembra que as razes das famlias rabes estosendo arrancadas.12 Entrevista com Ferrz O dio da favela podeexplodir a qualquer momento.17 Wagner Nabuco associa o discurso dogoverno com o projeto nacional. Cesar Cardoso fala sobre a ltimamanifestao de Deus para a humanidade.18 Lcia Rodrigues Governo mantm perdas para 38% dosaposentados.24 Ensaio Fotogrfico Joo Zinclar O contraste das guasno Nordeste.26 Renato Pompeu e suas memrias de um jornalista noinvestigativo. Ana Miranda presta homenagem aos msicos Alexandre eEgberto Gismonti.28 Marcelo Salles Polcia do Rio de Janeiro mata mais hoje do quena ditadura.32 Emir Sader analisa o desespero que tomou conta dostucanos fracassomanacos.33 Glauco Mattoso Porca Misria. EduardoMatarazzo Suplicy defende a transparncia nas doaes eleitorais.34 Fania Rodrigues conta que a esquerda uruguaia tem prova defogo nas eleies.37 Frei Betto fala da tragdia colombiana nopanorama da Amrica do Sul. Fidel Castro alerta sobre o perigo deextino do homem da face da Terra.38 Carolina Coral relata a luta centenria do povo mapuche noChile.40 Tatiana Merlino mostra como a periferia de So Paulo recriaa cultura popular. 44 Gilberto Felisberto Vasconcellos O governodeveria ouvir Bautista Vidal.45 Claudius 46 Renato Pompeu Idias deBotequim.sumrioFoto de capa JESuS CARLOSA rebelio das periferias-sumario_151.indd 7 30.09.09 18:01:32
  • 7outubro 2009 caros amigosJos Arbex Jr.A crise de Honduras sintetiza e ilumi-na um momento histricompar na histria mundial. Pela primeira vez desde 1823, quando JamesMonroe formulou a doutrina que leva o seu nome (a Amrica para osamericanos – quanto, de fato, tinha em men-te a Amrica para osestadunidenses), Washington, nitidamente, perdeu o controle e ainiciativa sobre os desenvolvimentos polticos e sociais na AmricaLati-na e no Caribe.O papel assumido pelo Brasil, nesse quadro, tem di-mensoexplosiva: em nome dos princpios democr-ticos que devem nortear arelao entre os Estados, o governo brasileiro no se limitou acondenar o re-gime golpista, nem se contentou com sanes limita-das.Isso pode inaugurar uma nova etapa na relao do Brasil com acomunidade mundial das naes, e abrir o caminho para novosdesdobramentos democrticos na Amrica Latina.Exagero? Excesso de otimismo? Precipitao na anlise poltica?Dificilmente. Vamos aos fatos:1. A Amrica Latina e o Caribe tornaram-se mais importantes doque nunca para os Estados Unidos, aps o fiasco no Iraque e noAfeganisto. No apenas por-que as reservas estratgicas de petrleoestadunidenses esto esgotadas, mas tambm por tudo o que represen-taa Amaznia em termos de reservas de petrleo, bio-diversidade,minerais e gua.2. Apesar disso, Washington fracassou em todas as suastentativas recentes de eliminar os obstculos ao seu controle daregio. No conseguiu tirar Hugo Ch-vez do poder, no golpe desferidoem abril de 2002; fra-cassou ao tentar fabricar uma guerra civilpara elimi-nar o governo de Evo Morales, em 2008; e, talvez maishumilhante ainda: ao tentar prolongar o acordo que permitia ofuncionamento da base militar de Manta, no Equador, teve queaceitar o tapa na cara desferido por Rafael Correa (o presidenteequatoriano respondeu que, sim, toparia renovar o contrato, se osEstados Uni-dos admitissem a instalao de uma base militarequa-toriana na Flrida!).3. O golpe em Honduras se inscreve nesse quadro geral. Osgolpistas hondurenhos conseguiram, momen-taneamente, aquilo que osdemais tentaram sem suces-so. Acreditar que as oligarquias hondurenhas arquite-taram ogolpe sem o conhecimento da embaixada dos Estados Unidos provasuprema de ingenuidade ou m f (ou uma mistura dos dois). Oembaixador estaduni-dense em Tegucigalpa foi colocado no cargo pelaturma de George Bush filho. partidrio incondicional da Dou-trinaMonroe. at possvel que Barack Obama tenha sido pego de surpresa,mas jamais os servios secretos dos Estados Unidos. Em qualquerhiptese, bastante bvio que Washington, por mais que tenha condenadoo golpe, no ficou nada feliz com a adeso do presidente depostoManuel Zelaya Alba e ao Petrocaribe.4. Barack Obama emite sinais contraditrios e in-coerentes, o queuma prova de falta de um plano es-tratgico para enfrentar a situao.Ou falta de fora para aplicar de forma coerente e decidida umaestra-tgia qualquer. De um lado, Obama proclama o fim da era em queos Estados Unidos davam as cartas na Amrica Latina. De outro lado,prolonga o boicote eco-nmico a Cuba, mantm o Plano Mrida para oMxi-co e para a Amrica Central, e o de instalaes de ba-sesmilitares na Colmbia.5. Mas Obama enfrenta uma indita demonstrao de resistncia ereprovao por parte da imensa maio-ria dos governoslatino-americanos.nesse ponto que ganha grande relevncia o papel assumido peloBrasil. Nos ltimos meses, o presiden-te Lus Incio Lula da Silvaemitiu claros sinais de uma virada esquerda na poltica externa. Aoanunciar a descoberta do pr-sal, por exemplo, denunciouimedia-tamente os movimentos da Quarta Frota dos Estados Unidos(encarregada de vigiar os mares da Amrica Latina e do Caribe),estabelecendo um nexo entre as coi-sas. Depois, Lula demonstroupreferncia pelos avies de guerra da Frana, sob alegao de que aestadunidense Boeing no transfere tecnologia. Em seguida, Lulacon-denou o prolongamento do bloqueio a Cuba e declarou a inteno deinterpelar Barack Obama sobre o assunto. Finalmente, o Brasilacolheu Manuel Zelaya como pre-sidente legtimo de Honduras.No interessam as razes que levam Lula a assumir tais atitudes.No se trata, aqui, de alimen-tar iluses num suposto neoLula, nem deacreditarque os demais governos latino-americanos que desa-fiam Obamatenham aderido ao Partido Bolchevique. Lula, provavelmente, fazisso por estar de olho nas ur-nas em 2010, e por saber que apenasuma mensagem de esquerda, que se descole completamente do PSDB,pode incendiar as multides e carrear votos para Dil-ma Rousseff(tecnicamente empatada com Ciro Gomes e bem atrs de Jos NosferatuSerra). Lula tambm sabe que a campanha o petrleo nosso tem umimenso potencial explosivo, e por isso trata o debate sobre opr-sal como uma reedio dos tempos de Getlio Var-gas. No planointernacional, Lula forado a alimen-tar uma relao de amor e dio comHugo Chvez, que acabou se impondo como uma referncia para aes-querda no hemisfrio.No importam as intenes de Lula ou de quem quer que seja. Importaque esse processo tem tudo para dar um novo mpeto ao movimento demassas, num mo-mento em que eclodem e se articulam greves no ABC,em So Jos dos Campos e de importantes categorias nacionais(carteiros, bancrios etc.). Importa o fato de que, no planointernacional, a Casa Branca no tem a ltima palavra em Honduras, eo governo brasileiro as-sumiu a posio que deveria mesmo terassumido (e por isso desperta a ira dos especialistas ecomenta-ristas de sempre).Desde 1823, o jogo entre as naes do pla-neta tinha na DoutrinaMonroe um de seus parmetros. Nenhuma outra potncia mundial sequertentou, seria-mente, disputar a hegemonia dos Estados Unidos nare-gio (exceto no famoso episdio dos msseis de 1962, quando a UnioSovitica tentou transformar Cuba em plataforma de lanamento demsseis nucleares). Hoje, a Doutrina Monroe, pela primeira vez,comea a fazer gua, mas no num quadro qualquer, e sim no da maiorcrise enfrentada pelo capitalismo desde 1929.Somos tentados a concluir esse artigo com a sen-tena a primaverada Amrica Latina comeou em Honduras, nem que seja por um meroexerccio pro-vocador de imaginao histrica. Mas melhor no. Pode darazar.Jos Arbex Jr. jornalista.Honduras abala a doutrina Monroenovo stio: www.carosamigos.com.br-Arbex_151.indd 7 30.09.09 16:23:15
  • caros amigos outubro 2009 8Guilherme ScalzilliQuando o obsessivo Colombo chegou Amrica, chamou a gente queencontrou de ndios. O conhecido eram as ndias. Ele de-finiu o novopelo antigo, a experincia nova pela tradio. Aquela gente no podiaser se-no ndios.mais ou menos como pensam os que se encontram com ETs, emestradas desertas e serras remotas, os escritores de ficocient-fica e os roteiristas de Guerras nas estrelas. Menos do queignorantes, so criaturas medie-vais, no sentido em que foi Colombo,apesar de fundador dos tempos modernos: s podem conceber mais domesmo, reproduo sem fim da quantidade.Talvez o leitor no veja a telenovela das oito (que hoje snove).H nesse folhetim eletrnico, padro Glo-bo de qualidade, umaalienao explcita: a concepo da vida humana como satlite dodinheiro. Pobre nunca feliz, as relaes amo-rosas no passam devariantes do golpe do ba. H cinquenta anos (como voa o tempo!), omaldito Dbord chamava esse lixo de vida inautntica.Caminho das ndias j no me irritou. Te-ria eu, finalmente, medeixado embriagar pela carpintaria fantasiosa do gnero? Fiqueivi-ciado em novela? possvel, mas quero resis-tir. No verei aprxima, nem por descuido. Milhares de livros me esperam parareleitura Andr Malraux, Ciro Alegra…Caminho das ndias de Glria Perez, que h trs dcadas, pelo menos,tenta infun-dir contedo crtico ao gnero. dificlimo, pois a forma datelenovela , em si mesma, bestificante. Herdeira de Janete Clair(1925-83), que viera da radionovela para a tela, Gl-ria tem osentimento do social e do poltico. Sei tambm que consciente dopapel alie-nante da telenovela e busca sempre compen-s-la commensagens antissistmicas (diga-mos assim).Em Caminhos da ndia anotei diversas dessas mensagens sutis:Para comear, o preconceito de casta. O ce-nrio a ndia extica,danante e luxuosa. No final, acossada pelo amor, a casta seestre-pa. Est dentro do figurino romntico, ver-dade. S que a castaaparece como forma de garantir um amor no individualista, que seconstri a partir de um casamento arranjadopela famlia, no por escolha livre do corao. Numa palavra: vitriado amor construdo so-bre o amor romntico. A mensagem de Glria Perezdialtica.Outra mensagem, menos sutil, a dos di-reitos dos loucos.Nos anos 1960, se acirrou o debate psiquia-tria/antipsiquiatria.Nenhum dos lados ven-ceu. Como tantas vezes se viu, odesdobra-mento da vida aproveitou o que h de certo num e noutrolado.Em Caminho das ndias, a loucura de Tar-so deflagrada (nocausada) pelas relaes familiares estressantes. A me, a peruaMelis-sa, no suporta sequer a palavra esquizofrni-co. No final,aceita que Tarso tome remdios e faa socioterapia, comacompanhamento de um clnico. Tarso quer casar, ama uma garota que ocontrrio de sua me.A garota aceita, happy end.amigos de papelJoel Rufino dos SantosGuilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do romanceCrislida (editora Casa Amarela).www.gui-lhermescalzilli.blogspot.com Ilustrao:HKE>>>/subis.blogspot.comMensagensSe quiser manter alguma esperana de eleger Dilma Rousseff em2010, o PT precisa mobilizar-se imediatamente. A supervalorizao dapopularidade do presidente Lula mergulhou o partido numa apatiacondescendente, agravada por conflitos internos vazios edesagregadores.A visibilidade miditica de crticos e deser-tores, sob o silnciodos governistas, fortalece o mito da desiluso do petismo histrico.Urge conclamar intelectuais, artistas e demais celebri-dades aposicionamentos pblicos sobre a cam-panha presidencial,demonstrando comprometi-mentos pessoais inequvocos.militncia cabe posicionar-se imedia-tamente acerca de umaeventual coligao com o PMDB. Ela ser decisiva para as chanceseleito-rais de qualquer candidato, e no apenas graas aosimportantes minutos nos horrios eleitorais. Alianas de envergaduranacional costumam ser indigestas e exigem condescendncias; seusli-mites merecem discusses pragmticas, livres de purismosideolgicos.Um pedido aos senadores e deputados do PT: abandonem a pantomimada indignao tardia. Se o fardo insuportvel, tenham a honradez deentregar os cargos de seus correligionrios em to-dos os escales dogoverno e iniciem um novo projeto poltico. Mas, em nome datransparncia, ou por simples esprito republicano, parem de agircomo se no soubessem o que est em jogo.Apropriando-se das conquistas da ad-ministrao atual, com avitrine da Copa do Mun-do, Jos Serra seria facilmente eleitopresidente. Depois, as fortunas advindas do pr-sal financia-riamtambm seus sucessores, perpetuados num perodo inimaginvel decontinusmo. Mesmo que ento surgisse uma nova liderana progressistavivel, os danos da hegemonia tucana j estariam irremediavelmenteconsolidados.Essa uma forma indigna de desperdiar to-dos os esforos gastos emquase trinta anos de lutas e sacrifcios.Carta aos petistas: momento dereagirJoel Rufino historiador e escritor.-Joel+Scalzilli_151.indd 8 30.09.09 16:27:41
  • 9outubro 2009 caros amigosA reconstruo da democracia no Brasil tem exigido, h trinta anos,enormes sacrifcios dos trabalhadores. Desde a reconstruo de suasorganizaes, destru-das por duas dcadas de represso da ditaduramilitar, at a inveno de novas for-mas de movimentos e de lutascapazes de responder ao desafio de enfrentar uma das sociedadesmais desiguais do mundo. Isto tem implicado, tambm, apresentar aosherdeiros da cultura escravocrata de cinco sculos, os trabalhadoresda cidade e do campo como cidados e como participantes legtimos noapenas da produ-o da riqueza do Pas (como ocorreu desde sempre),mas igualmente como bene-ficirios da partilha da riquezaproduzida.O dio das oligarquias rurais e urbanas no perde de vista, umnico dia, um des-ses novos instrumentos de organizao e luta criadospelos trabalhadores brasilei-ros a partir de 1984: o Movimento dosTrabalhadores Rurais sem Terra MST. E esse Movimento pagadiariamente com suor e sangue como ocorreu h pouco no Rio Grande doSul por sua ousadia de questionar um dos pilares da desigualdadeso-cial no Brasil: o monoplio da terra. O gesto de levantar suabandeira numa ocupa-o se traduz numa frase simples de entender e,por isso, intolervel aos ouvidos dos senhores da terra e doagronegcio. Um Pas, onde 1% da populao tem a proprie-dade de 46% doterritrio, defendida por cercas, agentes do Estado e matadores dealuguel, no podemos considerar uma Repblica. Menos ainda, umademocracia.A Constituio de 1988 determina que os latifndios improdutivos eterras usa-das para a plantao de matrias primas para a produo dedrogas, devem ser des-tinados Reforma Agrria. Mas, desde aassinatura da nova Carta, os sucessivos Governos tm negligenciado oseu cumprimento. ousadia do MST de garantir es-ses direitosconquistados na Constituio, pressionando as autoridades atravs deocupaes pacficas, soma-se outra ousadia, igualmente intolervel paraos senho-res do grande capital do campo e das cidades: a disputalegtima e legal do Ora-mento Pblico.Em quarenta anos, desde a criao do INCRA (1970), cerca de um 1de famlias rurais foram assentadas. Mais da metade, entre 2003 e2008. Para viabilizar a ati-vidade econmica dessas famlias, paraintegr-las ao processo produtivo de ali-mentos e divisas no novociclo de desenvolvimento, necessrio travar a disputa diria pelosrecursos pblicos. Da resulta o dio dos ruralistas e outros setoresdo grande capital, habituados desde sempre ao acesso exclusivo aoscrditos, subs-dios e ao perdo peridico de suas dvidas.O compromisso do Governo de rever os critrios de produtividadepara a agricul-tura brasileira, responde a uma bandeira de quatrodcadas de lutas dos movimen-tos dos trabalhadores do campo. Aoexigir a atualizao desses ndices, os traba-lhadores do campo estoapenas exigindo o cumprimento da Constituio Federal, e que osavanos cientficos e tecnolgicos ocorridos nas ltimas quatro dcadas,sejam incorporados aos mtodos de medir a produtividade agrcola donosso Pas.contra essa bandeira que a bancada ruralista do CongressoNacional reage, eataca o MST. Como represlia, buscam, mais uma vez, articular aformao de uma CPI (Comisso Parlamentar de Inqurito) contra o MST.Seria a terceira em cinco anos. Se a agricultura brasileira tomoderna e produtiva como alardeia o agro-negcio, por que tememtanto a atualizao desses ndices?E, por que no criada uma nica CPI para analisar os recursospblicos des-tinados s organizaes da classe patronal rural? Uma CPIque desse conta, por exemplo, de responder a algumas perguntas, tosimples como: O que ocorreu ao longo desses quarenta anos no campobrasileiro em termos de ganho de produti-vidade? Quanto a sociedadebrasileira investiu para que uma verdadeira revoluo do ponto devista de incorporao de novas tecnologias tornasse a agriculturabrasileira capaz de alimentar nosso povo e se afirmar como uma dasmaiores ex-portadoras de alimentos? Quantos perdes da dvida agrcolaforam oferecidos pe-los cofres pblicos aos grandes proprietrios deterra, nesse perodo?O ataque ao MST extrapola a luta pela Reforma Agrria. um ataquecontra os avanos democrticos conquistados na Constituio de 1988como o que estabe-lece a funo social da propriedade agrcola econtra os direitos imprescindveis para a reconstruo democrtica donosso Pas. , portanto, contra essa recons-truo democrtica que selevantam as lideranas do agronegcio e seus aliados no campo e nascidades. E isso grave. E isso uma ameaa no apenas contra osmovimentos dos trabalhadores rurais e urbanos, como para toda asociedade. a prpria reconstruo democrtica do Brasil, que custou osesforos e mesmo a vida de muitos brasileiros, que est sendo postaem xeque. a prpria reconstru-o democrtica do Brasil, que est sendoviolentada.por essa razo que se arma, hoje, uma nova ofensiva dos setoresmais conser-vadores da sociedade contra o Movimento dos Sem Terraseja no Congresso Na-cional, seja nos monoplios de comunicao, sejanos lobbies de presso em todas as esferas de Poder. Trata-se,assim, ainda uma vez, de criminalizar um movimento que se mantmcomo uma bandeira acesa, inquietando a conscincia democrtica dopas: a nossa democracia s ser digna desse nome, quando incorporartodos os brasileiros e lhes conferir, como cidados e cidads, odireito a participar da parti-lha da riqueza que produzem ao longode suas vidas, com suas mos, o seu talento, o seu amor pela ptriade todos ns.CONTRA A CRIMINALIZACO DO MOVIMENTO DOS SEM TERRA. PELOCUMPRIMENTO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS QUE DEFINEM ASTERRAS DESTINADAS REFORMA AGRRIA. PELA ADOCO IMEDIATA DOS NOVOSCRITRIOS DE PRODUTIVIDADE PARAFINS DE REFORMA AGRRIA. Braslia, 21 de setembro de 2009.Caros Amigos apia o Manifesto em defesa dademocracia e do mSTPedro Tierra, Antonio Candido, Plnio Arruda Sampaio, EduardoGaleano, Heloisa Fernandes, Alpio Freire. Seguem-se outras centenasde adeses de dirigentes par-tidrios, intelectuais, artistas eativistas do movimento sindical….Legitimam-se no pela propriedade, mas pelo trabalho,nessemundo em que o trabalho est em extino.Legitimam-se porque fazemHistria,num mundo que j proclamou o fim da Histria.Esses homens emulheres so um contra sensoporque restituem vida um sentido que seperdeu…(Notcias dos sobreviventes, Eldorado dos Carajs,1996).Novo stio: www.carosamigos.com.brManifesto_151.indd 9 30.09.09 16:56:01
  • caros amigos outubro 2009 10Mc LeonardoDia desses, uma gacha veio me contar, en-tusiasmada, que tinhaaberto uma escola de ln-guas em Porto Alegre, que no queria selimitar ao ensino das lnguas europeias (ingls, francs, espanhol,italiano, alemo) mas pensava em ofe-recer tambm o iorub, para seruma escola po-liticamente correta, que contemple as lnguas queinfluenciaram o portugus brasileiro. Pen-sei com meus botes: Maisuma iludida.O desconhecimento, por parte da maioria dos brasileiros,inclusive linguistas profissionais, da histria lingustica do nossopas impressionan-te. Quando, com base nos excelentes estudos deYeda Pessoa de Castro, digo s pessoas que, das lnguas africanastrazidas para c com o trfico de escravos, a que menos impactoexerceu sobre o portugus brasileiro foi o iorub, as reaes costumamir da surpresa indignao.O iorub uma lngua oeste-africana. Seus falantes s comearam a sertrazidos para o Bra-sil no final do sculo XVIII, com a destruio doreino de Queto, e tambm depois de 1830, quan-do foi arrasado oimprio de Oi. Ficaram con-centrados nas zonas litorneas, comespecial des-taque para a regio do Recncavo baiano. Com os falantesde iorub e de outras lnguas oeste-africanas vieram os cultosreligiosos que se tor-naram conhecidos como candombl. Por causa doprestgio cultural que essas manifestaes re-ligiosas alcanaram quese fixou, entre ns, o mito de que o iorub a principal (quando no anica!) lngua africana que exerceu influn-cia sobre o portugusbrasileiro. Desse mito de-correm inmeras distores como, porexemplo, a do filme Quilombo, de Cac Diegues (1984), em que Zumbidos Palmares e demais quilombo-las falam iorub, em pleno sculoXVII, quando ainda no tinham chegado ao Brasil os falantes dessalngua. O mesmo se pode dizer dos inme-ros cursos de ioruboferecidos Brasil afora e que muitas pessoas vo frequentar na crenade que, assim, se aproximariam mais das razes africanas da nossapopulao e da nossa cultura.Ora, as lnguas que de fato mais confluram para a formao doportugus brasileiro so de uma outra famlia, chamada Banto. So deln-guas bantas (quicongo, quimbundo, umbundo) a maioria dosescravos trazidos a partir do sculo XVII e que sero distribudos portodo o territrio brasileiro. A antiguidade da presena dos bantosque explica a grande quantidade de vocbulos plenamente integradosao falar brasileiro do diaa dia e referentes aos mais diversos campos da vida humana. Aspalavras do iorub que empre-gamos, por outro lado, se referem quaseexclusi-vamente ao universo religioso e tm uma difuso muito maisrestrita geograficamente. Com isso, se quisermos de fato nosaproximar das nossas ra-zes africanas mais profundas, nas lnguas dogrupo banto que devemos procur-las. delas que vm, entre tantasoutras, as j brasileirssi-mas caula, carimbo, cachaa, dengo, samba,sa-cana, biboca, maconha, baguna, jil, cachimbo, cafungar, fungar,cabular, catinga, catimba, gin-ga, lambada, cangao, mocambo,moleque, mi-anga, moqueca, muamba, olel-olal, tutu, ti-tica,xingar, quiabo, quitanda, quitute, muxoxo, cochilo, banguela,belelu, zanzar, ziquizira, son-gamonga, moringa, camundongo,babaca, sen-zala, mucama, macaco, babau, caxumba, capan-ga, canga,tanga, lengalenga, mandinga, coroca, cot, fub, cafun, jaguno,meganha… sem fa-lar, claro, da grande unanimidade nacional abunda!falar brasileiroMarcos BagnoCaros amigos, muito obrigado!Ilustrao: Debora borba/deborabo[email protected]gmail.comBrasileirofala banto? Fundei a APAFUNK (Associao dosProfissionais e Amigos do Funk), para exigir do Esta-do do Rioum olhar cultural e no policial do movi-mento que tanto conheo hdezessete anos.Participamos de fruns, debates, palestras, en-contros commovimentos sociais e no nos negamos a entrar nos gabinetes dosdeputados na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pra exigiruma poltica cultural para nosso movimento.A 1 de setembro de 2009, foram votados dois Projetos de Lei quevo ajudar – e muito – nesse pro-cesso de descriminalizao.Um revoga uma Lei que dificultava os bai-les em nosso Estado e ooutro faz o Estado reconhe-cer o Funk como cultura popular.Agradecemos a todos os deputados, mesmo sa-bendo que elescumpriram com suas obrigaes, sa-bemos que isso muito difcil deacontecer nas as-sembleias legislativas do nosso Brasil.Sei que no teramos conseguido ser compreen-didos nessa luta deconvencimento a um ritmo to massacrado pela mdia nos ltimos anos,se no fos-se a mdia magra.Mdia alternativa, nunca duvide do seu poder: quero dizer quealguns sites, jornais e revistas fizeram nosso grito ecoar Brasilafora.Primeiramente agradeo aos sites www.funkde-raiz.com.br, que foio primeiro a publicar nossa ba-talha, ao www.fazendomedia, aoObservatrio da In-dstria Cultural (oicult.blogspot.com.br), Agenciade Notcias da Favela (www.anf.org.br), ao www.fo-que.com.br, e atodos os outros sites que eu no me lembro agora.Ao Jornal Cidado, ao Jornal Brasil de Fato, aos jornaissindicais, universitrios e dos movimen-tos sociais.revista Vrus Planetrio, ao Ncleo Piratininga de Comunicao, aRadio Muda de Campinas e, claro que eu no podia esquecer, darevista Caros Amigos, que me convidou para ocupar o espao destacoluna.Obrigado a todos vocs que no s nos ajudaram a divulgar nossabatalha, como nos ensina-ram que a mdia somos ns que fazemos.Mas uma vez, MUITO OBRIGADO A TODOS!MC Leonardo compositor, autor, com seu ir-mo MC Junior, de funksde protesto, como o Rap das Armas. [email protected] -http://mcjunioreleonardo.wordpress.comMarcos Bagno linguista e escritor. www.marcosbagno.com.br-Bagno+McLeo_151.indd 10 30.09.09 16:58:44
  • 11outubro 2009 caros amigosfotoGershonKnispelA fundio da famliaOmarija, em Ibtin,na GalileiaMeu velho amigo Abdallah Omarija, da aldeia beduna de Ibtin, quese acomoda aos ps das montanhas da Galileia, na periferia ao nortede Hai-fa, eu o conheci imediatamente depois de meu retor-no paraIsrael, perseguido pelo Dops, no dia seguinte ao golpe militar de1964 no Brasil. O nico fundidor da regio que estava de acordo emadotar o sistema que inventei, de fundir os moldes de isopor, queeco-nomizava tempo de trabalho e custos.Mais de quarenta anos se passaram e nossas re-laes de amizadesempre se aprofundaram mais e mais. Nos acostumamos a trocarvisitas; no faltaram ocasies. No incio, em pocas de festividadesreli-giosas, cuja quantidade vinha em dobro, porque Ab-dallah, comoos outros rabes, no podia ignorar as festas judaicas, em que no erapermitido trabalhar.De repente, as ocasies se multiplicaram. Nasceram treze filhosde Abdallah, dos quais s uma menina. Cada nascimento era mais umaoportunida-de de sacrificar um cabrito no grande espeto, bemtemperado com pprica, cebola etc., com o fantsti-co caf comfolhagens aromticas da erva hell, cujo cheiro ainda me acompanha.Sabemos que, entre os sentidos, a memria do olfato a maisforte.A casa de pedra de Abdallah sempre ficava cres-cendo, ignorandoas leis que no permitiam constru-o sem autorizao nas terrasagrcolas em volta. Quando no havia mais para onde estender a casa,ele comeou a construir um andar superior. Segundo os costumes,quando a me est com a barriga cres-cendo, todos os vizinhos vinhamajudar a construir o novo cmodo. Isso era decorrncia da leiotomana, do tempo da ocupao turca de centenas de anos, com muitomaior generosidade do que as proibies im-postas sobre os rabespelos britnicos e, ainda mais rudemente, pelos israelenses.A lei turca dizia: uma construo sem auto-rizao, se a construocomeou antes do nascer do sol e o teto vai se completar antes dopor-do-sol do dia seguinte, no pode mais ser demolida. Foi essa leique virou hbito quando todos os cidados da aldeia ou vi-zinhos dacidade chegavam para o mutiro de constru-o, para termin-la dentrodo prazo quase impossvel. Essa lei contribuiu para o reforo dacultura tribal tosemelhante cultura dos tempos bblicos.Durante essas dcadas quese passaram, am-pliou-se a empresa de fundio de Abdallah, enquan-to oprimognito, Jamil, e o segundo filho, Lutfi, fo-ram os primeiros aacompanhar o pai na firma depois de terminarem os oito anos deensino fundamental. O terceiro filho, Latif, entrou para afaculdade de conta-bilidade; Chasan, o quarto filho, estudouengenharia, e assim por diante. Todos ficaram dentro da empresa eassim Abdallah no precisava depender de estranhos e seus negciosnavegavam em guas calmas.Quando as autoridades israelenses descobriram essas infraes leide construes, comearam a chegar as ordens de destruio da casa. Afamlia ex-tensa Omarija, composta de dez famlias nucleares na mesmacasa, ia ter o mesmo destino das populaes rabes expulsas de suascidades e aldeias, como em Nazar, a capital da Galileia.Ali, desde os anos 1950, as autoridades israelen-ses vinhamassentando judeus nas elevaes em tor-no da cidade, no que se chamoude Nazar de Cima. Com o desenvolvimento dessa cidade judaica, asau-toridades israelenses julgaram necessrio desapro-priar terrenosda antiga Nazar rabe e das aldeias rabes da regio. Os jovens rabestinham de encon-trar alternativas de moradia.Os imigrantes judeus de Nazar de Cima receberam os apartamentosquase de graa, mas mesmo assim sua situao econmica foi ficando cadavez mais apertada, de modo que tenderam a aceitar as propostas dosjovens rabes de pagarem aluguel pelas moradias, o que irritou osmoradores judeus que podiam manter suas casas. Isso porque o valordos apartamentos foi reduzido a um tero do valor de mercado, porcausa da vizinhana rabe.Para os judeus que alugaram suas residncias a rabes foramenviadas cartas com ameaas de mor-te, e o veneno da frustraoatingiu os judeus e os rabes conjuntamente. Os desacordos tnicos setor-naram assunto do dia, e o pior que a estrutura fa-miliar tofirme e to tradicional dos rabes, reunida em torno do chefe, pai eav, comeou a ficar irre-mediavelmente abalada.O aluguel foi subindo, para obrigar os rabes airem embora, que sofreram ameaas constantes para no tentaremcomprar os apartamentos. As grandes distncias entre as casas e asescolas, e as distncias ainda maiores at o local de trabalho, osengarrafa-mentos nos picos da manh e do fim de tarde tudo issovirou para os rabes um inferno.Meu caro amigo Abdallah Omarija no aguentou mais essa situao emorreu h alguns me-ses. Se essa a via dolorosa por que passam essesrabes cidados de Israel, imagine-se o que aconte-ce com ospalestinos das regies ocupadas. Tudo isso veio minha mente, quandovi, na Folha de S. Pau-lo do domingo, 13 de setembro, a notcia dojornal britnico Financial Times, Construo de assenta-mentos tambmprovoca expulso; rabes recorrem Justia, que dizia:Desde o incio de agosto, quando duas famlias do bairro SheikhJarrah, em Jerusalm Oriental, foram despejadas fora de suas casas,Muhammad Saba-gh no tem conseguido dormir muito. O encanadoraposentado de 61 anos teme que ele, seus cinco ir-mos e mulheres efilhos deles possam ir para a rua em pouco tempo. A famlia Sabaghpode se tornar a prxima vtima da batalha que j dura quase quatrodcadas, travadas por dois grupos judaicos, para re-aver imveis emSheikh Jarrah, distrito rabe ao nor-te da Cidade Velha de Jerusalm,que dizem que lhes pertenciam antes de 1948. Despejos de casas depa-lestinos erguidas sem alvars e a construo de casas novas paracolonos em Jerusalm Oriental vm cau-sando a maior diviso sobre osassentamentos entre Israel e os EUA em pelo menos uma dcada. Oaliado mais incansvel de Israel tem exortado o pas a con-gelar aconstruo de casas para judeus, para ajudar na retomada dasconversas de paz com palestino.Para o leitor brasileiro no fica claro que no se trata de duasfamlias que foram despejadas. Segundo os costumes palestinos dereunir a paren-tela numa propriedade s, apenas na casa da fam-liaSabagh moram seis famlias no sentido brasileiro do termo. As razesdas famlias rabes esto sendo arrancadas.Gershon KnispelA casa, uma crnica que se repeteGershon Knispel artista plstico.Novo stio: www.carosamigos.com.br-gershon_151.indd 11 30.09.09 17:34:59
  • caros amigos outubro 2009 12ferrz tem 33 anos, escritor, comerciante e au-tnticorepresentante dos sentimentos e das lu-tas da imensa populao quevive na perife-ria de So Paulo. Ficou conhecido porque expressa comrealismo a dureza das relaes entre povo e Es-tado, entre pobres ericos, entre as precrias condi-es de vida nas favelas e a repressopolicial.Nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos ele conta como oprocesso de criminalizao da populao pobre da periferia temcontribudo para acumular dio e faz um alerta: Vai chegar um dia queuma agresso a um menino ou a uma menina vai virar uma revoluo em SoPaulo inteira. Fala tambm de sua vida e de seu amor pelaliteratura. Fiquem com Ferrz.Hamilton Octvio de Souza – Fale um pouco da sua vida, ondenasceu, estudou, o que faz hoje.Ferrz – Meu nome Ferrz, eu no usomeu nome de batismo por que eu no acredito no batismo, no acreditona Igreja Catlica. Prefiro um pseudni-mo, por que uma coisa que euinventei tambm, como a minha carreira. Eu sou vendedor ambulan-te,eu s vivo com coisa debaixo do brao para cima e para baixo paravender s editoras, sou datilgra-fo tambm, por que escrevo etrabalho com muita coisa para poder ter o bsico, ento vivo demui-ta coisa, trabalho de muita coisa. A minha infn-cia foi normalcomo a de todo moleque de favela, t ligado? S no soltava tanto pipaporque meu pai no deixava.Tatiana Merlino – Nasceu onde?Nasci no Valo Velho, na verdade eunasci numlugar chamado Cantinho do Cu, que antes um pouco, ali no JardimCapelinha, na zona sul de So Paulo. Nasci ali, fui para o ValoVelho, mas eu sem-pre falo do Valo Velho porque pra mim o comeo daminha infncia foi no Valo Velho, na casa de alu-guel do meu pai.Depois eu mudei para o Capo Re-dondo, na verdade Valo Velho rea doCapo tam-entrevista ferrzParticiparam: Andr Herrmann, Brbara Mengardo, Felipe Larsen,Hamilton Octavio de Souza, Jlio Delmanto, Lcia Rodrigues, LukaAmorim, Marcelo Salles, Marcos Zibordi, Otvio Nagoya, RenatoPompeu, Tatiana Merlino. Fotos Jesus CarlosexplodirA periferia de So Paulo podebm, para o Jardim Comercial e estou l at hoje.Tatiana Merlino – E os teus pais faziam o que?Meu pai motoristade nibus aposentado, de-pois foi motorista da Sabesp, se aposentou e ago-ra cuida de umbar. Minha me domstica, traba-lha em casa de famlia e at hoje amesma coisa, ela faz uns bicos e tal, tem um bazarzinho, mas vivede bico tambm.Tatiana Merlino – E voc filho nico?Sou o irmo mais velho de umafamlia de trs,tenho uma irm que enfermeira e um irmo de 18 anos.Renato Pompeu – Que idade voc tem?Tenho 33. Estou pronto paraser crucificado.Marco Zibordi – Ento comea a falar da escola, que a primeiracrucificao, para vocque no acredita em igreja, a primeira a escola…. Na escola eu tive bastante dificuldade, por-que eu no prestavaateno na aula, mas ao mes-mo tempo eu sabia a lio. Ento eu tiravaboas notas, prestava ateno no professor, e at hoje os professoresperguntam como que pode esse cara nunca prestou ateno, e esse carasabia as mat-rias. Eu achava que 20 minutos do que o professorfalava eu j entendia, o resto era discurso meio no vazio. Eu repetia primeira srie do primeiro ano no Euclides da Cunha, eu no gostavado ensino, no gostava da escola, no odiava ir para a escola, eu sia para conversar mesmo e eu achava que no ti-nha nada a ver o queeu estava aprendendo. Eu no aprendi porcentagem na escola,entendeu? No me ensinaram porcentagem e no comrcio que eu abri euprecisava saber porcentagem. A escola me ensi-nou pouco, mas eutive muitas pessoas boas na es-cola, muitos professores bons, queeram professo-a qualquer momento-Entrevista_Ferrez_151.indd 12 30.09.09 17:01:09
  • 13outubro 2009 caros amigos Novo stio:www.carosamigos.com.brres que no davam lio nem de matemtica e nem de portugus, masdavam lio de vida. Essas pes-soas fizeram a diferena.Marco Zibordi – A literatura no te ligava em nada na escola?No, eu lembro bem da passagem que eu desco-bri da quarta para aquinta srie, que tinha os drui-das. Eu gostava muito de histria e aeu perguntava para o professor, eu lembro muito de ter chegado eperguntado para o professor o que eram os druidas e o professor nosabia e a ele falava: eu no estou dando aula sobre isso. Eu faziafanzine, j criava uns logos com o fanzine e a eu fui estudar acultu-ra dos druidas para poder puxar para o fanzine os logos etal, a eu tinha uns interesses que na esco-la no tinha; eu gostavade quadrinhos e na escola no tinha. Eu lembro bem na oitava srie deter um livro de portugus e ter l um texto do Arnaldo An-tunes e aeu falei: puta finalmente na oitava srie eu vou ver um cara que eugosto dentro de um livro de portugus. Por que no resto no tinhanada.Jlio Delmanto – E agora voc est nos livros de portugus…parece que agora sou eu, pelo menos o mole-que olha e diz temalgum aqui.Lcia Rodrigues – Voc acha que a escola est distante darealidade?Eu acho que a escola perdeu o foco total de qual-quer senso derealidade. Eu acho que a escola e a realidade no tm mais nada a vere eu acho que uma gerao inteira est errando de ir para a es-cola eos professores serem educados do jeito que so tambm. Por que osprofessores tambm es-to ferrados.Tatiana Merlino – Quando e como voc comeou a gostar deliteratura?Meu, no tem uma data assim. Tipo, eu no sei as-sim um dia euacordei e falei agora eu gosto de lite-ratura, sabe? Mas eu liasempre quadrinhos e gosta-va de Robert E. Howard que o autor doConan e a eu buscava saber sobre o cara, e a biografia dos au-toressempre me interessou mais e ento eu comecei a buscar saber maissobre os caras. Eu sempre tive um ensino paralelo ao da escola,ento se eu gostava de Conan eu lia Conan no servio e ia paraescola, ti-nha que ler Alusio de Azevedo ou tinha que ler Car-losDrummond de Andrade l, mas o Carlos Drum-mond de Andrade l no meinteressava…Lcia Rodrigues O que acha dos rappers tipo Gog, Racionais, FacoCentral?O Gog, o Racionais, o Faco Central, o Cons-cincia Humana, so aminha escola tambm, eu no existiria e toda uma legio de caras queexis-te hoje que gosta de literatura e rap, no existiria se nofosse eles. O rap, pra mim, junto com os caras uma injeo, t ligado?Que na verdade pra quem t com dor, quando eu vou em faculdade fazerpa-lestra tem um monte de gente que reclama, mas eu acho violentoFaco Central, Racionais… Por que no para eles, eles no precisamouvir aquilo, eles no to na cadeia, eles no to usando droga,entono precisa. bem claro pra mim, as letras de rap no Brasil so asmelhores letras do mundo, no existe um tipo de letra de rap nomundo igual as que exis-tem no Brasil. Um rap que o cara fala: Norio em que Jesus andou, o homem navegou e matou pela cor. No existeem nenhum lugar no mundo um verso como o homem nasceu com defeitode fabricao, invs do corao uma granada de mo dentro do peito. otipo de letra que os caras fazem.Lcia Rodrigues – O que voc acha dos partidos polticos, hoje?Eu no tenho mais pensamento poltico nenhum. Eu acho que absteve,sabe quando voc est can-sado de sexo que vira abstinente? Ainda bemque voc no sabe. Voc no nem um sexo de o ou-tro, voc um sermorfolgico que no tem sexo? a mesma coisa eu na poltica, eu jtrabalhei para deputado, j trabalhei para vereador e eu me sentimuito mal depois, quando os caras so eleitos, por-que eu vejo queeu no consegui alcanar os objeti-vos dos caras da quebrada que tavacom ns.Lcia Rodrigues – Para que partido especificamente?Era para o PT. Eu sempre trabalhei de graa para o PT, muitosanos. Sempre vendi broche, sempre andei com bandeira na rua, semprefoi de graa, eu nunca ganhei um real, mas teve algumas pessoas doPT com quem eu trabalhei mesmo recebendo e que depois medecepcionou, decepcionou meus amigos e hoje eu tenho algumaspessoas dentro da poltica que eu valorizaria assim, mas que eu achoque tem dilogo, pelo menos comigo assim como amigo. O EduardoSuplicy, que meu amigo assim pessoal, tambm independente depoltica, o nico que eleito para 8 anos e t l ainda, volta eu ligopara ele, ele vai, os moleques da quebrada ligam, ele vai. o nicopresente, na verdade o Suplicy no po-ltico, ele um ser humano.Tatiana Merlino – Mas e o PT em si? O que voc se decepcionou como PT?Ah! Eu no sei, eu votei num partido que prome-teu outras coisas,entendeu? No prometeu escn-dalo, no prometeu virar as costas nahora em um julgamento, no prometeu… O PT virou outra coi-sa, no oque eu acreditava no. No estou falan-do que tinha que serrevolucionrio, que tinha que mudar tudo, que todo mundo sair devermelho, mas era uma coisa que eu acreditava como moleque defavela que a favela ia mudar, entendeu? Mas eu tive que esperar oPCC chegar para mudar a favela, no foi o PT… A sigla foi outra,no foi o PT que mu-dou a favela, ento nessas partes no um gover-noautoritrio ruim, mas tambm no o governo dos sonhos que eu lutei,que eu vendi show, que o Gis morreu na estrada tentando lutar pelopartido, que eu vi muito amigo meu morrendo lutando pelo PT eficando velho pelo PT, no era isso que a gen-te queria no poder eeu no t falando s do Lula, t falando de todo o partido.Lcia Rodrigues – O PCC mudou a favela em que maneira?De toda a maneira possvel que voc pensa.Lcia Rodrigues – Positivamente?Depende da viso. Tem gente quepensa quepositivo, tem gente que pensa que negativo. Mas mudou.Tatiana Merlino – Voc pode falar um pouco dos dois lados, dolado positivo e do lado negativo?O lado positivo que a elite no sabe mais o que a favela, no temnem noo. O governo no tem noo do que a favela mais, porque outrafave-la, outra coisa… E o lado negativo que a popu-lao sempre vaiser oprimida.Tatiana Merlino – O lado positivo outra coisa como?No tem como explicar, assim… Mas mudou, eu, por exemplo,quando eu escrevi o Manual Prtico do dio a favela era aqui, agorase eu for escrever sobre a favela agora outra coisa. Por isso eu noescrevo mais sobre a favela, o meu prximo roman-ce no mais sobre afavela, por que eu no fao mais questo da elite saber o que a favelano, no me interessa mais…Lcia Rodrigues – Mas mudou exatamente o qu? Explica um poucomelhor.Mudou tudo. Mudou a vida criminal, tem regra, mudou tudo o quevoc imagina na vida cotidiana da periferia mudou.Lcia Rodrigues – um estado paralelo dentro da favela?Poder paralelo? No, o poder. Esse negcio de dizer que o poderparalelo, no existe o poder pa-ralelo, o Estado no manda na favela,quem disse que o Estado manda na favela? A PM vai l manda o carapor a mo da cabea e tudo, repudia o cara, mas depois o cara volta aser da favela, entendeu? Por mais que os caras cerquem um motoboy,cer-quem o cara que est dentro do nibus, bata geral em todo mundoeles vo embora e a favela conti-nua. Ento mudou tudo e vai mudarmais ainda, t em processo de mudana.Lcia Rodrigues – Mas houve regras fixadas claras? O queaconteceu?H regras fixadas claras e toda uma norma de conduta e derespeito que o Estado nunca conse-guiu impor.Renato Pompeu – Quem impe?O crime.Otvio Nagoya Para os moleques de dentro voc acha que melhor oupior?Por um lado melhor, por outro lado no. Voc imagina que a gentedeixou de viver num estado em que voc pisava no meu p e voc podialevar uma comigo e eu podia te matar; voc podia pisar no meu p elevar uma comigo e eu ter que me segurar e a gente ter que sesegurar, mas ao mesmo tempo ns dois estamos regidos por uma foramaior que pode no se segurar, entendeu? Ento voc pensa o quemelhor: voc estourar o seu dio ali na hora ou voc viver sobconstante ameaa de um dio maior.A periferia de So Paulo podea qualquer momento-Entrevista_Ferrez_151.indd 13 30.09.09 17:01:10
  • caros amigos outubro 2009 14Tatiana Merlino – Mas morre menos gente?Morre menos gente,porque tem mais tenso.Jlio Delmanto – Existe um papel do crime como mediao nosconflitos cotidianos?Existe. O crime est em tudo em que o Esta-do nunca teve, oEstado deixou uma lacuna muito grande que o crime cobriu, voc vaina delegacia prestar queixa de um carro roubado voc fica 4 ho-rassentado, sendo humilhado pelo policial, parece que voc no foiroubado, parece que voc roubou, entendeu? E o crime no. Voc procurao crime ou ele resolve, ou no. Voc no mnimo no fica 4 ho-rassentado, voc no fica na palavra de ningum, entendeu? Ento, onde nochegou o poder pblico o crime chegou, quando o poder pblico estcui-dando da elite, o crime est cuidando de outra par-te da cidadeque dele.Hamilton Octvio de Souza – Esse distanciamento j vem de muitosanos, n?Para mim a posio bem clara, a mdia tem uma parte de criminalizartoda a periferia, ento a periferia fez um protesto porque morreuuma jovem o trfico que mandou, sendo que no foi o tr-fico quemandou. A elite tem mais medo do povo do que do crime, ento porisso que ela atemoriza todo mundo falando que o crime, por que paraela um jogo.Hamilton Octvio de Souza Como voc v essa separao que existe nasociedade brasileira?Eu acho que a gente tem toda uma classe que-rendo se inserir eque no vai poder se inserir, no tem espao, no tem organizao. Ento ocara tem acesso agora a comprar um carro importado parce-lado, eletem acesso. S que ele no tem onde por, no tem garagem, no temestrutura para por o car-ro. O Governo Lula deu estabilidade paratodo mun-do poder comprar um carro parcelado, uma casa parcelada,uma roupa parcelada, mas voc no tem aonde por tudo isso, voc no temestrutura na que-brada para por tanto carro, os carros ficam nomeio da rua, os aougues esto lotados, entendeu? No tem comida boa,todo mundo come na mesma pi-zzaria. No tem estrutura para se vivermelhor. No tem estrutura fsica para abranger gente que temdi-nheiro e o que se est dando iluso de que se tem dinheiro,iluso.Hamilton Octvio de Souza – E qual a sada para este tipo decoisa?A sada clara. A sada … J comeou a sa-da h algum tempo. A sadat na cara das pesso-as, s no v quem no quer. A sada que o povo j tse mexendo, isso no utopia minha, reali-dade, quando voc v umafavela reagindo, quando voc v um nibus queimando, no o crime, pormais que a mdia queira, quando voc v as pesso-as que estolegitimadas como embaixadores da pe-riferia tendo acesso a darentrevista, tendo acesso a falar, entendeu? A que a coisa tdifcil… Quan-do a gente tem que ser ouvido, que nem eu souou-vido, que nem os outros caras do Hip Hop so ou-vidos, os carasda literatura marginal so ouvidos,quando a gente ouvido, a voc comea a perce-ber que a gente temuma importncia e alguma coi-sa t acontecendo, entendeu?Lcia Rodrigues – Mas tem alguma articulao? Vocs tem uma integraoentre vocs? Como que se d isso?a que a gente tem que ter medo, porque no tem articulao pensada.E quando no tem nada pensado muito mais fcil fazer funcionar.Porque se num organismo por clula eu converso com tal e talquebrada e organizo um manifesto uma coisa que eu criei, certo? Oua pessoa de outra quebrada l da Leste criou. Agora quandoautomtico, quando eu ponho uma notcia de abordagem policial comi-goe todas as favelas mandam email dizendo: isso mesmo, se precisar nstamos juntos. Voc pega e fala: Opa! Pera, pera! Eu no organizeinada disso mano! E tem gente de todos os lugares tambm, por qu?Porque o cara tambm tomou tapa na cara, o outro tambm foi baleado,ento eu vejo medo na no organizao, entendeu? Por que quando no temorganizao, a a elite tem que ter medo.Lcia Rodrigues – Vocs no se sentem representados pela polticainstitucional?Eu falo tranqilamente em nome da populao, que a populao no temum ou outro que pode at falar: no, eu voto em tal cara a quepresiden-te da cmara, eu voto no tal deputado, eu voto. Por que?Porque ele ganhou. Voc pode chegar nele, trocar idia e ele falar:no, porque este telhado a quem deu foi o cara. Ento tem umapadrinhamen-to. Mas a grande populao revoltadssima com apoltica.Tatiana Merlino O que tem de luta? Como que a luta e aresistncia na periferia hoje?A luta pelos meios intelectuais e pelos meios de produtos, n?Que lana independente, de fa-zer toda aquela corrente, sabe? Detentar galgar, de aprender a trampar, de aprender a pegar um pa-drocapitalista e mudar ele um pouco para no ser to perverso, tem todoesse lado empresarial que a periferia t pegando e vai pegar porquequando se tem um lder que empresarial a gente vai seguin-do tambm etem tambm toda uma outra luta que eu te falei, que da populaomesmo, a populao est se conscientizando. O cara sofre, leva tapa, achuva derruba o barraco dele, a mulher dele aban-donou ele, mas eleno acredita em Deus, entendeu? Ele tinha tudo para se apoiar, ento,de todo tipo ideolgico na periferia se tem: O movimento Punk, omovimento Rock, todo mundo est se organizan-do da sua forma, mano.Entendeu?Lcia Rodrigues Como a truculncia da polcia dentro da favela?Atingem indiscriminadamente mes, pais de famlia, crianas,adolescentes?Na verdade atinge… Tem vrios tipos de opera-o, depende daoperao que tiver. Por exemplo, em Paraispolis o choque, ento maisviolen-to, mais forte, na verdade atinge quem suspei-to, se eutiver cara de suspeito eu t aqui de tou-ca, p, agasalho…Lcia Rodrigues – Mas o que ser suspeito?Suspeito ter cara desuspeito. ter cara de fa-vela…Tatiana Merlino Ento todo mundo suspeito, n?No, vocs aqui no, vocs passam batido l. Se ps uma touca maissuspeito… Ou seja, todo mo-rador suspeito, voc t andando ali, ocara te para: voc t indo aonde? Mas qu, que o qu? Voc do trfico.Tipo um amigo meu tava andando com um caderno que a gente tavaescrevendo um conto junto e ele foi parado esses dias e o caraperguntou: Esse caderno o do trfico? Entendeu? Ele falou: P! Merespeita mano, eu t escrevendo, eu sou es-critor, mas o caderno odo trfico. Entendeu?Jlio Delmanto – uma violncia cotidiana que voc, que os seusamigos sentem. O que isso gera na vida de uma pessoa?Isso vai gerando. O dia que os caras enquadra-ram a gente, eu etodos os lderes do hip hop ao mesmo tempo, vai gerando que apopulao toda se juntou e falou: Ei que isso a? Vai tumultu-ar osmoleques? Os moleques to s conversando. E a gerou que os prpriospolcias ficaram baten-do rdio um pro outro dizendo: Meu, esto tudojunto aqui e alguma coisa eles vo fazer. E a gera que fica todomundo com medo, cara. Eles tam-bm tm medo.Otvio Nagoya – Voc acha que o que aconteceu em Helipolisprocesso de que o povo no vai aguentar mais ser agredido assim?, eu tenho certeza absoluta do que eu vou te fa-lar, vai chegarum dia que uma agresso a um me-nino ou a uma menina vai virar umarevoluo em So Paulo inteira e So Paulo no vai se controlar vaipegar fogo So Paulo inteira. Uma agresso. Vai chegar num momentoque um cara vai tomar um tapa na cara que vai despertar o dio detodo mun-do de todas as quebradas e a haja mentira para a mdiamentir. Porque eu quero ver o que ela vai fa-lar. Isso no criminal,estou falando de populao, a populao no aguenta mais, quando sechega a um nvel que a me fala pro filho: vai filho, corre seno apolcia vai te pegar, corre l para dentro, a voc v que a criana jest crescendo j em esta-do de, entendeu?Barbara Mengardo – E voc acha que est chegando essa hora?Eu acho que a gente no vai saber o timing dela no. Quem t nafavela vai sentir, eu senti os aten-tados 3, 4 meses antes, fiz atum artigo para a Ca-ros, porque voc sente o clima. T muito tranqilomano, t muito na moral, t muito… Muito… En-tendeu? Meu, pensavoc morar em um lugar e do nada chega uma fora tarefa, todo mundode pre-to, com fuzil na mo, xingando criana, xingando dona de casa,revirando tudo as casas, revirando tudo e no explica nada e vaiembora. Treinamen-to, cara, sabe, o cara pega o batalho dele e vaitrei-nar na sua favela, mano.Lcia Rodrigues – Voc disse que de repente-Entrevista_Ferrez_151.indd 14 30.09.09 17:01:10
  • 15outubro 2009 caros amigosum tapa na cara vai gerar uma insatisfao to grande que aspessoas vo se levantar, o que isso? Uma inressurreio, uma revoluo,o que vem depois?No, incalculvel, no d para responder. A eu ia ser profeta se eufalasse para voc. Isso no tem como responder porque impensvel, apopulao, a massa ela pensante de uma forma totalmente diferente daminha, eu sou intelectualide demais para a massa. Eu t dentro daquebrada, eu respiro a quebrada, mas ao mesmo tempo eu leioDostoie-vski na minha casa, ento outro pensamento, en-tendeu? Eufaria queimar as lanchonetes america-nas, o povo vai onde primeiroachar, vai nos postos de sade, no bar mais pobre e quebra tudo,enten-deu? outro ponto de vista, no tenho legitimida-de para ter opensamento certo sobre esta respos-ta, tendeu?Tatiana Merlino O povo vai esperar morrer uma menina? Quando?Como?Pelo que eu acho, as pessoas vo ativar quan-do tiverem que serativadas, s vai acontecer quan-do tiver que ativar, se tiver quemorrer 100 pesso-as no vai ser ativado, mas se tiver que morrer umvai. mais problema do que uma simples resposta, entendeu? maisproblemtico resolver isso, que uma simples resposta.Lcia Rodrigues – O PCC funciona de que maneira? por a que vaivir a articulao ou no?Tem nada a ver com criminal, chega uma po-ca na nossa vida que opovo povo e crime crime,entendeu? Por mais que o crime seja dopovo, povo povo e crime crime, trabalhador traba-lhador e criminosocriminoso. Ento a articula-o vem do povo, muito mais perigoso doque o crime.Lcia Rodrigues A populao respeita mais o PCC ou a polcia?A populao tem medo da polcia, entendeu? Respeita mais o PCC ouadmite mais o PCC, tem mais medo da polcia. De uma certa forma apol-cia causa mais medo.Hamilton Octvio de Souza O que se faz para vencer o medo?Medo no se vence. Medo vira dio, as pessoas esto odiando tudopor causa de medo, medo vira dio. Todo mundo t com dio, j apanhoudemais, j sofreu demais, muita coisa contra, entendeu? No tem muitasemente de esperana no para o cara, vira s dio, e dio se faz devrias formas, quando voc v um cara estourando com a mulher dele emcasa, aprisionando ela, ela refm dele, no cime no, dio. Quando vocv um assal-to a uma lotao virar uma chacina, dio. Quan-do voc v ospoliciais chegando na quebrada ma-tando um monte de gente porque nosabe quem comando e quem no , dio… Tudo explo-so de dio, aesperana no sobrevive a nada dis-so no, entendeu?Jlio Delmanto – Voc falou do papel dapolcia e o papel do sistema prisional a nessa histria?Se acha que ser preso d medo? Dava medo, mano, dava medo. Se eufor preso hoje vou ser ben-quisto aonde eu for. O cara a que t l naquebrada, j foi motivo de medo, por mais que a cadeia seja cruel,ou no tenha comida decente, tendeu? ou-tra coisa a cadeia, mudou. Anica arma do Estado de pnico ela foi neutralizada j, h muitotempo.Marcelo Sales – Voc escreveu em um dos seus textos que vocbuscador de autoestima e incentivador de dio. Por que incentivar odio?Porque as pessoas tm que odiar da forma odio-samente correta.Tem que odiar o certo, para gente parar de pisar no p do outro agente precisa pisar no p do cara certo. Eu falo que souincentivador do dio do caos moderno.Tatiana Merlino – Para transformar?Para transformar tambm, paradestruir, paracrescer, para regenerar, para nascer de novo. Para mim levantaruma bandeira de paz de um lado eu tenho que levantar uma bandeirade dio do outro, a Bblia ensinou isso para gente. O senhor dasba-talhas que foi Jesus Cristo ensinou isso para gente voc levantauma espada na mo para poder coor-denar a massa para um certo tipode guerra.Lcia Rodrigues – Que tipo de dio?dio que volta, que no s vem.Tem que terdio que volta, o cara tem que pegar um nibus e na hora quetrombar com um boy desses a e o boy falar: T, toma, estaciona meucarro. P! Cara euNovo stio: www.carosamigos.com.brno sou manobrista no, pega a sua chave e enfia naquele lugar. Eno abaixar a cabea e falar: No senhor, eu no sou manobrista. dioque volta, eu t cansado de dio que vem, entendeu? T cansado deentrar em um lugar e o cara falar: O qu o senhor deseja? Mas voc noparou ningum, numa livra-ria voc vem parar logo eu, ningum vocparou. No, mas eu t perguntando o qu o senhor dese-ja. A o caracomea a te seguir pela loja, mas no segue ningum, isso enche osaco… Uma hora isso enche o saco, entendeu?Renato Pompeu – Quando voc escreve fico tem em mente o pblico daperiferia ou o pblico de fora da periferia?Eu escrevo para periferia mano, quem l de fora bastardo. Eu sescrevo para a periferia, toda vez que eu escrevo um conto eupenso: O moleque vai entender? Vai. Ento…Tatiana Merlino – E como popularizar a literatura na periferia?Quanto custa um livro seu?Ento, meus livros custavam o preo de edito-ra normal at esseano. Eu sempre busquei acordo com as editoras para sair maisbarato, nunca teve resposta, no tem jeito. O mercado no aceita,ento eu montei um selo chamado selo povo que a par-tir desse ms jsai um dvd e vai sair um livro ago-ra a cinco reais. Por enquanto tcinco reais esse novo livro meu, e a todo mundo pergunta: Como quevoc vai fazer a cinco reais? Meu, o autor j no ganha nada, ento pramim no ganhar nada a mesma coisa. Ento eu fao por convico e no-Entrevista_Ferrez_151.indd 15 30.09.09 17:01:12
  • caros amigos outubro 2009 16fao por dinheiro, ento eu t pagando do meu bol-so essa edio e aeditora vai lanar vrios autores tambm a cinco reais.Renato Pompeu – Voc sente que a sua fico repercute de formadiferente na periferia do que repercute fora da periferia?Totalmente diferente, totalmente. O cara de fora como se fosseuma coisa extica, ento cara fala assim: Porra, mas naquele contodos crentes, muito loco, dei risada demais, mano. Aquela parte lque o cara troca idia na igreja, tal. Para voc v como queinteressante como que o crente pode falar gria? Ento voc tem umaintrospeco fora, den-tro no, os moleques falam: Nossa, Frrez,aquela parte que o crente fala gria com o outro muito louco, porque eu tava na igreja e a mesma coisa o demnio no saiu, ele t ldentro o demnio e a gente fala que o demnio nessa igreja no sai,essa igreja m pilantra. Ento voc v que outro tipo de entrar,entendeu?Renato Pompeu – Quando voc cria fico que peso voc d para a formae contedo?Eu sempre tento achar que aquele conto ele tem um sentido nomundo, por que se ele no tiver um corpo no basta escrever ele. Entoeu j escrevi his-tria que ela era vazia de alma, a histria tinha umputa dilogo e tal, mas vai chegar aonde? Entendeu? Eu tenho muitavontade de escrever sobre ser huma-no, entendeu? Favela, clausura,regime semiaber-to, fechado. Eu gosto muito de focar o ser-humanotambm, os sonhos e a vida de ser-humano.Marco Zibordi – Queria que voc dissesse o que a literaturamarginal.Literatura marginal, meu muita coisa, mas o rap da literatura,literatura marginal os mole-ques escrevendo direto. Literaturamarginal os mo-leques fizeram dia desses, bateram o rdio pra mim: Amano, tem um amigo meu que t escrevendo uns bagulho e quer sabercomo ele te manda, uns ba-gulho escrito para ti, que ele t fazendoumas para-das escritas, uns textos, uns bagulhos velho l e ele querte mandar. A quando voc vai ler voc fala: Caralho meu! Bom paracaralho! Literatura margi-nal um cara chegar pra ti e falar: O tio,eu t es-crevendo uns contos a, p, uns textos e eu queria ver comoque faz para lanar. Literatura marginal a gente trocar idia commoleque, literatura mar-ginal a minha paixo de onde eu tiver euconven-cer algum pela literatura, eu nunca deixei de ser apaixonadopelo que eu fao.Lcia Rodrigues – Voc j pensou em ser poltico? Por que estetrabalho que voc faz de um vereador, de um deputado que vaiacompanhar a rea que ele tem atuao. Voc j pensou alguma vez em secandidatar?Meu, pra mim o poltico ele que nem um cara andando armado, eleest mal intencionado. No tem jeito, se eu virar poltico vo me darum car-ro com placa preta, vai me dar o conforto de umas passagensde avio, vai me dar uns bagulhos que para anestesiar. Prefiro ficarna literatura, na ver-dade esse bagulho poltico quando eu comeo afa-lar muita gente fala, eu acredito que eu sou poltico desde queeu nasci, eu fao poltica tambm, mas de certa forma a minhahombridade no patenteada pelo Estado, o Estado no me d nada.Felipe Larsen – Mas j te convidaram alguma vez?J me convidaram, j teve reunies que j me chamaram, que falaramque meu nome foi cotado. Tambm, mas outros partidos tambm deesquerda e um partido de direita tambm chegou a me convi-dar.Chegaram a me convidar e na reunio eu falei no tambm, e falei queno tinha interesse.Lcia Rodrigues – Voc no acha que partido de direita inimigodessa populao que mora na periferia?Acho que todo poltico inimigo, mano, j vi-rou uma coisa. medidaque um cara v uma desa-propriao dessa, o cara no cola, o cara noajuda, ele v uma polcia dessa ostensiva que ele no aju-da, no temPT, inimigo, entendeu? Quando sur-giu uma emergncia no Rio eu noesqueci o que o Lula falou, o Lula falou que tem que ter umarepres-so maior a esse pessoal a, ele falou isso, morreram quantaspessoas no morro? As pessoas que tinham votado nele morreram nomorro, quando um diri-gente fala em pblico que tem que ter umarepres-so maior nisso, ele sendo de esquerda ou de direi-ta, essecara responsvel pelas mortes das pessoas que vo morrer ali.Andr Hermann – A igreja evanglica tambm um tipo de droga naperiferia?A igreja evanglica uma coisa maravilhosa, os pastores tm umtrabalho comunitrio que umapiada, o cara est vendo o caos ali, mas o cara uma criatura, masele est sofrendo pastor, acabou de levar um tiro, no deixa ele, queele criatura, ele est no mundo das drogas, no vamos nos in-trometercom esse povo, com essa raa, porque ns somos de Deus. Eu vejo essadistncia, eu vejo que a igreja evanglica podia fazer um trabalhomuito maior e no faz, e quando faz, faz show.Andr Hermann – E as igrejas catlicas?As igrejas catlicas tm umtrabalho comunit-rio mais forte, ela faz um mapa do cara que t sem uma comida emanda, o padre organiza uma quer-messe. Eu vejo muito o trabalho daigreja catlica em lugares que no chega nada, eu no estoude-fendendo a igreja catlica, por que ela deve pra ns a vida todatambm, mas tem um trabalho ali que mais conciso com a comunidade,como o padre est sempre dentro da comunidade, no est via-jando dejatinho que nem os pastores, o padre est ali fazendo um trampinhoou outro. A diocese fun-ciona, entendeu?Tatiana Merlino – Voc ateu?Eu no sou ateu por que eu no li abblia dosateus, eu estou procurando essa bblia faz um tem-po, entendeu?Mas eu no sou ateu, no sou agns-tico, no sou nada disso, eu sou sum ser-huma-no que escreve.Tatiana Merlino – Voc acredita em Deus?Eu queria que eleacreditasse em mim, verda-de. Como eu ainda no sei se ele acredita em mim, eu ainda noposso dizer que acredito nele. Mas se ele acreditar em mim eu comeoa acreditar nele, porque a a gente vai se entender.-Entrevista_Ferrez_151.indd 16 30.09.09 17:01:14
  • 17outubro 2009 caros amigosEst provado: Deus existe.E no foi preciso discusso mstica nempro-va cientfica, nada. Um belo dia o cu se cobriu de nuvens escurase quando todos pensavam que mais um temporal ia parar So Paulo, ummon-te de anjos com espadas de fogo e outros ape-trechos bblicosdesceu do cu, interrompeu o William Bonner e anunciou: , Deus vem afa-lar com vocs.E Ele veio. E falou pras tevs do mundo todo, pra no dizerem queestava privilegiando essa ou aquela emissora. E recordou os seisdias em que criou o universo. semaninha agitada! E se lem-brou dasconversas com Ado e Eva (evitem coi-sas com M: ma, maconha…). Erememorou sua fase minimalista, quando escreveu os mandamen-tos. Eainda os conselhos que deu a Jesus (se be-ber na ceia, no dirija!),a Santa Inquisio… No, esse pedao Ele pulou. E foi logo pro motivode sua vinda.E Deus disse com todas as letras que est de saco cheio dahumanidade. J enviara dicas, in-diretas, sinais, mas nem com otsunami que man-dou h cinco anos a gente se tocou. Agora, outo-mamos jeito ou Ele vai levar todas as formas de vida pra Marte erecomear por l, sem a gente por perto pra atrapalhar.Nem a morte de Jesus repercutiu to fundo na humanidade. Todosquerem se converter. Deus gostou, mas surgiu um problema: para qualreli-gio? E os lderes religiosos correram pra falar pes-soalmentecom Ele. Mas na porta do Hilton onde Deus e sua comitiva sehospedaram, j estavam polticos de todo o planeta fazendo fila pratirar foto com o Todo Poderoso. E corria o boato que na sute divinarepresentantes da Disney, da Micro-soft, da Coca-Cola e da Nokiaapresentavam suas ofertas para patrocinar Deus.Mas um anjo que saa pelos fundos do hotel teria dito ao WilliamBonner que Deus no est mais entre ns e foi visto se reunindo comcastores, golfinhos e outros animais e mandando eles construrem umaarca.Era dezembro de 2001 e entrevistvamos, aqui na Caros Amigos,Luiz Marinho, ento presiden-te do Sindicato dos Metalrgicos do ABC,ex minis-tro da Previdncia do governo Lula e atual prefeito de SoBernardo do Campo, no ABC paulista. A entrevista foi boa (CarosAmigos, edio 57) e confirmou o bom preparo poltico e intelectualque tm os sindicalis-tas formados nos embates sindicais dessa regioal-tamente industrializada.Como bem conhecido, Marinho um pupilo di-leto do presidente Lulae um discpulo de trajetria parecida. Comeou no sindicalismo epassou para a poltica.Certa altura, perguntei ao entrevistado o que achava da frase dosenador Fernando Henrique Car-doso em seu discurso de despedida doSenado, afir-mando que sua principal tarefa como futuro presi-denteseria desmontar o estado Varguista. Marinho respondeu: eu tambm soucontra o estado Varguis-ta. Assim de chofre fiquei um tantosurpreso, mas logo me dei conta que essa resposta era coerente coma formao dessa gerao de sindicalistas, bem como com a formao tericae poltica no PT.Ressalvo que Marinho deveria estar se referindo principalmenteestrutura sindical montada por Var-gas, em particular a contribuiosindical obrigatria e a unicidade na base territorial.Feita a ressalva, retorno ao meu tema. O pri-meiro programa doPT foi muito influenciado pela esco-la uspiana de sociologia, comseu representante mais vistoso, o socilogo Francisco Weffort, quepor anos presidiu o PT e se bandeou para o PSDB, assumindo oMinistrio da Cultura no primeiro governo de FHC.Quando fiz histria na USP, final dos anos 70, os alunos dascincias humanas aprendiam que Vargas foi um ditador populista queaparelhou os sindicatos, criou a pelegagem, outorgou uma constituiofascista ba-seada na Carta del Lavoro, do fascista Benito Mussolinie por a vai. Tambm aprendamos que qualquer refe-rncia defesa dosinteresses nacionais, de um proje-to de pas independente e de lutaanti-imperialista era um discurso atrasado, j que a luta de classesera entre patro e empregado e defender os interesses nacionais era,no fundo, escamotear a luta de classes.Bem, fato que de 1937 a 1945, no Estado Novo, Vargas governoucomo ditador, aparelhou os sindica-tos, vicejaram os grandespelegos, e, com a polcia de Filinto Mller, prendeu e torturoumilitantes polti-cos. Tudo isso foi execrvel. Mas esquecer que oBra-sil e o Estado tal qual hoje o conhecemos foram uma criao doVargas, e que, para milhes de trabalhado-Nacionalista, euWagner NabucoWagner Nabuco historiador.res e pobres, houve avanos reais, isso sim uma mis-tificaohistrica. As realizaes foram muitas, cito as mais importantes: acriao da Petrobras e a lei do monoplio do petrleo, a Eletrobrs, aconsolidao das leis trabalhistas (a sonhada carteira de trabalho),a siderurgia nacional, a Vale do Rio Doce, a taxao dos lucros dasmultinacionais, o salrio mnimo nacio-nal com aumentos reais e muitomais.Mas em So Paulo , ncleo duro do conservado-rismo nacional, nadadisso vale. Os paulistas, influen-ciados por sua elite retrgrada,at hoje no se refi-zeram da derrota de 1932. Alis a famliaMesquita, representante dessa elite, dona do Estado e funda-dora daUSP foi uma das mais importantes articula-doras do levantederrotado de 1932.Relembro tudo isso guisa do discurso do presidente Lula, quandodo lanamento do novo mo-delo de explorao do petrleo na camada dopr-sal. No esperava tanto. certo que nos ltimos dois anos, c eacol, apareceram falas do presidente que se aproximam do discursodo trabalhismo histrico, teorizado por gente do naipe de DarcyRibeiro e Al-berto Pasqualini.Parece que os embates do dia a dia do governo que Lulapresenciou e, como brasileiro que veio l dos fundes, apaixonadopela nossa gente, mas acima de tudo um homem pragmtico, o levaram arepensar suas originais influncias tericas (surgimento do PT) e aaproxim-lo de um discurso e aes que ressaltam a necessidade de umprojeto nacional independente. A palavra soberania no causa tantaestranheza nas fa-las do presidente e de petistas histricos.Alvssaras. Aos demotucanos e pendurica-lhos, herdeiros domoralismo cabotino udenista, as vi-vas chorosas de Carlos Lacerda,Bilac Pinto, Eduardo Gomes, Roberto Campos, Sandra Cavalcanti,defenso-res do nosso alinhamento aos Estados Unidos e para sempreprodutores de commodities, resta apresen-tar e disputar no voto umprojeto alternativo de go-verno, Estado e nao. Se continuarem navelha can-tilena moralista, antiga desde 1945, sero atropelados noprocesso de desenvolvimento do nosso pas. Ou, para repetir umclichezo: seu destino poltico ser a lata de lixo da histria.PS: Depois de escrito esse artigo, o acordo estrat-gico entreBrasil e Frana para defesa nacional, com transferncia ilimitada detecnologia e a recente en-trevista que Lula deu ao jornal ValorEconmico refor-aram minha impresso aqui descrita.Cesar CardosoCesar Cardoso escritor e tem o blog PATAVINAS(www.cesarcar.blogspot.com)Ei, voc viu DEUS por a?Cesar Cardoso escritor e tem o blog PATAVINAS(www.cesarcar.blogspot.com)Novo stio: www.carosamigos.com.brNabuco+Cesar_151.indd 17 30.09.09 17:09:30
  • caros amigos outubro 2009 18Lcia Rodrigueso acordo firmado entre a CUT, Fora Sindi-cal, CGTB, UGT e ogoverno federal, e que deve ser aprovado em breve na Cmara dosDeputados, ficou aqum das expectativas dos apo-sentadosbrasileiros. A deciso contestada pela Cobap (Confederao Brasileirade Aposentados e Pensionistas), que no reconhece nas centraissindi-cais legitimidade para fechar acordos em nome dostrabalhadores aposentados com o Executivo. Que-remos que osprojetos do senador Paulo Paim (PT-RS) que vo votao, destaca opresidente da Cobap, Varley Gonalves.O senador petista tem sido o principal aliado dos aposentados noCongresso Nacional. So de autoriadele os projetos de lei que preveem o mesmo percen-tual dereajuste para os beneficirios que recebem acima do salrio mnimo eos que ganham o piso. Paim tambm quer extinguir o fatorprevidencirio, mecanismo que achata o salrio do trabalhador em at40% no momento em ele que sai da ativa. O par-lamentar tambm estempenhado em aprovar uma emenda Constituio que veta o bloqueio oucon-tingenciamento das dotaes oramentrias desti-nadas seguridadesocial pelo Executivo.Os trs mecanismos que penalizam milhares de aposentados foramintroduzidos no cenrio nacio-nal pelo governo do ex presidenteFernando Hen-rique Cardoso, na dcada de 90. A proposta acor-dada entre as quatro centrais sindicais e o governo Lula atenuaas perdas causadas ao longo dos anos pela administrao tucana, masmantm distores ao no garantir a isonomia no percentual de rea-justedos vencimentos entre os aposentados que re-cebem acima do salriomnimo e os que ganham o piso salarial.O teto das aposentadorias pagas pelo Ministrio da PrevidnciaSocial aos segurados do INSS de R$ 3.218, 90. Em julho, o Ministriopagou benefcios previdencirios a 23.213.354 segurados, dos quais14.401.629 (62%) receberam o salrio mnimo.Pelo acordo, a partir de 2010 os aposentados que recebem at umsalrio mnimo tero o benef-cio corrigido pela variao de 100% docrescimen-to do PIB (Produto Interno Bruto) de 2009, alm da reposioda inflao. J para os aposentados que ganham acima do piso, o ndicede reajuste em re-lao ao PIB cai pela metade.O dirigente da Confederao um dos inmeros brasileiros que teve osbenefcios previdencirios reduzidos ao se aposentar em funo do fatorprevi-dencirio. Era para eu ganhar o teto, mas s rece-bo R$ 1.400,lamenta. Varley se aposentou h seis anos aps ter trabalhado por trsdcadas na mesma empresa. As condies de insalubridade permitiram queele se aposentasse pela legislao especial.Acordo firmado entre centrais sindicais e governo Lula atenuaprejuzos, mas mantm distores. Proposta deve ser votada ainda esteano na Cmara dos Deputados. Novas regras devem entrar em vigor em2010. Ilustrao Aldo GamaPREVIDNCIAGoverno mantm perdas para 38% dos aposentados-Previdencia_151.indd 18 30.09.09 17:39:06
  • 19outubro 2009 caros amigosEle teme que a manuteno de um ndice dife-renciado de reajusteentre os segurados provoque, em alguns anos, uma forte concentraode apo-sentados na faixa de um salrio mnimo. A ten-dncia que daquia algum tempo todos passem a ganhar o salrio mnimo, endossa otemor, o se-nador Paim.A deciso acordada entre as quatro centrais sin-dicais e osrepresentantes do Executivo, alm de perpetuar a distoro no reajustedos vencimentos desses aposentados em funo da manuteno depercentuais diferenciados, tambm estabelece clu-sulas de barreiraque condicionam o acesso dos tra-balhadores aposentadoria. Aoextinguir o fator previdencirio, fixa novas regras que criam ofa-tor 95/85.Se aprovada a proposta pela Cmara, os traba-lhadores quequiserem se aposentar vo ter de cum-prir uma clausula de barreiraespecificada por uma frmula que associa idade a tempo de contribuioprevidenciria. A nova regra fixa que para se apo-sentar com o valorintegral do salrio, o homem de-ver ter completado 60 anos de idadee contribudo por 35 anos com a previdncia social. Para asmu-lheres, o tempo de contribuio fixado fica em 30 anos conjugadoidade mnima de 55 anos.A atual regra vigente do fator previdencirio ba-liza o clculopara se chegar ao valor do benefcio a que o segurado ter direito,em uma frmula mate-mtica que leva em considerao a idade, alquota eo tempo de contribuio no momento da aposen-tadoria, associadaexpectativa de vida, prevista na tabela do IBGE (InstitutoBrasileiro de Geografia e Estatstica). As mulheres so as maiorespenaliza-das pela regra atual, em funo da expectativa de vida delasser superior a dos homens.Quintino Severo, secretrio geral da CUT, uma das quatro centraissignatrias do acordo, justifica a deciso argumentando que o governofederal ve-taria a proposta de reajuste isonmico para todos osaposentados. Defendemos que o reajuste dos apo-sentados no podeimobilizar a reposio do sal-rio mnimo. O governo disse que eraimpossvel dar o mesmo ndice de reajuste para todos os aposen-tados,argumenta.A tese defendida pela Central contestada pelo senador Paim. ACUT nesse caso foi mais conser-vadora que o Senado, que consideradouma Casa conservadora, alfineta. O petista considera que ascentrais deveriam centrar fogo na presso em cima dos parlamentares,com mobilizaes populares, pela aprovao dos projetos de sua autoriaque j foram chancelados no Senado.Outra crtica que o senador tece em relao manuteno da DRU(Desvinculao de Receita da Unio) pelo Executivo para a dotaoorament-ria da seguridade social, onde esto abrigados, alm dosrecursos destinados previdncia social, tam-bm os das reas deassistncia social e da sade. O mecanismo admite o desvio de at 20%das recei-tas da dotao destinadas ao pagamento dos bene-fciosprevidencirios, para qualquer tipo de gasto que o governo venha ater. O pagamento de juros um dos itens para os quais os recursos daprevi-dncia tm sido direcionados.O ministro da Previdncia Social, Jos Pimentel,foi procurado pela reportagem da Caros Amigos, por intermdio desua assessoria de imprensa, para comentar as questes, mas no sepronunciou.O desvio de recursos previsto pela DRU foi pos-svel devidolegislao aprovada na gesto do tu-cano e mantida intacta na dopresidente Luiz Incio Lula da Silva. O governo Lula chegou acogitar do-brar o seu percentual. Em 2005, quando se discu-tia atese do dficit nominal zero defendida por An-tonio Palocci e DelfimNetto, o governo pensou em elevar o percentual para 40%, relembra oprofessor da Economia da Unicamp, Eduardo Fagnani.O docente especialista em polticas pblicas e em particular emprevidncia social. Defensor da Constituio de 1988, ele explica queas conquis-tas asseguradas pela Carta Magna na rea da segu-ridadesocial representaram avanos importantes e que, por isso, sempreestiveram na mira do pensa-mento conservador.O texto constitucional brasileiro seguiu o mo-delo previdenciriodos pases da OCDE (Organiza-o para Cooperao e DesenvolvimentoEconmi-co) que rene as naes mais industrializadas do mundo. Omodelo desenhado pelos constituintes baseou-se no princpio dasolidariedade. Por isso, foi possvel garantir, por exemplo, que ostraba-lhadores rurais tivessem assegurado o direito ao re-cebimentode aposentadoria, apesar de no terem contribudo com o fundo.MItos NEolIbERAIsAo contrrio do que tentam fazer crer os neo-liberais, aopropagar a falsa ideia de que a Consti-tuio de 1988 criou direitossem prever fontes de arrecadao para o seu sustento, o artigo 195 daConstituio Federal derruba essa falcia, ao dis-por sobre oestabelecimento de uma cesta de re-cursos para financiamento daseguridade e conse-quentemente para o pagamento dos benefcios aaposentados e pensionistas. A afirmao dos ne-oliberais de que aConstituio de 88 s criou des-pesas, sem fontes de receita, outramentira, afir-ma Fagnani.Antes da promulgao de 1988, os recursos que bancavam aprevidncia social vinham basicamen-te da contribuio sobre a folhade pagamento em que patres e empregados participavam comper-centuais distintos, alm da presena do governo. Com a promulgaoda Carta Magna foram cria-das contribuies especficas para subsidiaro or-amento da seguridade social como, por exemplo, Cofins(Contribuio para o Financiamento da Se-guridade Social), CSLL(Contribuio Social sobre Lucro Lquido).Fagnani conta que a elite no digeriu at hoje os avanos previstosna redao constitucional. A questo de fundo que nunca admitiram ummo-delo que pega 8% do PIB e vincula seguridade so-cial. A classedominante e seus interlocutores, como a imprensa, queriam que essepercentual estivesse disponvel para o governo pagar juros dadvida.O senador Jos Sarney (PMDB-AP), poca pre-sidente da Repblica,afirmou em cadeia de rdio e televiso, pouco antes dos constituintespromulga-rem a Carta Magna, que se o texto proposto fosse aprovadopelos parlamentares tornaria o pas ingo-vernvel. A tese advogada por Sarney era a de que os avanossociais previstos na redao constitu-cional levariam o Brasilinsolvncia.O objetivo da elite, verbalizado e expresso na fala de Sarney,era justamente o de conter os avan-os sociais previstos na redao dotexto constitu-cional, mais especificamente no que tange aocap-tulo que dispe sobre a seguridade social.A partir de ento a voz conservadora no ces-sou os ataques sconquistas asseguradas, ao mes-mo tempo em que defende anecessidade de se re-formar previdncia social brasileira. Oprincipal argumento utilizado para justificar a reforma o de que aprevidncia deficitria. O docente da Uni-camp contesta essa verso.Quando se fala que a previdncia tem dficit, se mente luz daConsti-tuio. uma atitude no mnimo leviana, frisa. O senador Paimrefora os argumentos de Fagnani. Nos ltimos 10 anos a seguridadeteve supervit de R$ 400 bilhes. S no ultimo ano o supervit foisuperior a R$ 50 bilhes, destaca o petista.Os neoliberais, no entanto, insistem em afirmar que ocorreu ocrescimento da despesa. A tese recha-ada por Fagnani. Para oeconomista da Unicamp, o X da questo reside no fato de que omercado de tra-balho ter sido comprimido ao longo de duas dcadas emeia e na ausncia de crescimento econmico.Tivemos 25 anos de estagnao econmica. O problema da previdnciano de despesa, mas de receita, de arrecadao. E arrecadao depende doqu? Depende do crescimento da economia, do mercado de trabalho, decarteira assinada. Duran-te 25 anos nossa taxa de crescimento foiem mdia de 1,8%, conta. Ele considera que a segunda ges-to dopresidente Lula melhorou significativamen-te o crescimento econmicodo pas.Todo o pensamento neoliberal se apoia em mi-tos, falsas verdadese no senso comum. Essa ideia que se criou, no tem nenhumasustentao. uma mentira. Para o professor, h uma jogada por trsdesse discurso crtico em relao previdncia so-cial nos anos 90.Queriam abrir o mercado ao ca-pital privado, alerta.Os bancos e as seguradoras so os principais be-neficirios dessaestratgia. A criao de um teto para as aposentadorias previstas noregime geral de previdncia social tambm serviu a esses interesses.Quando se cria um teto, se abre um enorme espao para os grandesbancos internacionais e nacionais avanarem. Por isso, detonam. Agemideologica-mente, porque esto de olho nesse filo, adverte.A reforma realizada no final dos anos 90, pelo governo doex-presidente Fernando Henrique Car-doso, alm de mexer naprevidncia dos trabalha-dores cobertos pelo INSS, pavimentou ocaminho para os banqueiros, ao regulamentar os planos de previdnciaprivada. O estabelecimento de um teto para os benefcios pagos peloINSS induziu milha-res de trabalhadores a buscarem uma previdnciaprivada, para complementar a renda.O governo Lula tambm prosseguiu com a regu-lamentao dos planosde previdncia complemen-tar fechados, nos quais os sindicatos podemgerir e incentivar seus scios a aderir a esses planos de previdnciaprivada, que tambm contribuem com a movimentao da cirandafinanceira.Novo stio: www.carosamigos.com.br-Previdencia_151.indd 19 30.09.09 17:39:06
  • caros amigos outubro 2009 20Lcia Rodrigues jornalista.Me aposentei com nove salrios mnimos e hoje recebo dois…O metalrgico Antonio Valeri trabalhou 35 anos antes de seaposentar. Poderia ter sado da ativa an-tes, em funo da aposen
  • Publicaciones Similares