ed. 151 - revista caros amigos

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ano XIII número 151 outubro 2009 R$ 9,90 Novo sítio: www.carosamigos.com.br ANA MIRANDA CAROLINA CORAL CESAR CARDOSO CLAUDIUS EDUARDO SUPLICY EMIR SADER FANIA RODRIGUES FERRÉZ FIDEL CASTRO FREI BETTO GERSHON KNISPEL GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS GLAUCO MATTOSO GUILHERME SCALZILLI GUTO LACAZ JOÃO ZINCLAR JOEL RUFINO DOS SANTOS JOSÉ ARBEX JR. LÚCIA RODRIGUES MARCELO SALLES MARCOS BAGNO MC LEONARDO RENATO POMPEU TATIANA MERLINO WAGNER NABUCO ENTREVISTA EXCLUSIVA Ferréz PERIFERIA DE SÃO PAULO RECRIA A CULTURA POPULAR AUTO DE RESISTÊNCIA É LICENÇA PARA MATAR ÓDIO DA FAVELA VAI EXPLODIR O que muda na APOSENTADORIA CHILE A LUTA CENTENÁRIA DOS ÍNDIOS MAPUCHE HONDURAS CRISE ABALA A DOUTRINA MONROE URUGUAI A GRANDE PROVA DE FOGO DA ESQUERDA RIO DE JANEIRO

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  • ano XIII nmero 151 outubro 2009R$ 9,90

    ano XIII ano XIII ano nmero 151 nmero 151 nmero outubro 2009outubro 2009outubroR$ 9,90

    Novo stio: www.carosamigos.com.br

    ANA MIRANDA CAROLINA CORAL CESAR CARDOSO CLAUDIUS EDUARDO SUPLICY EMIR SADER FANIA RODRIGUES FERRZ FIDEL CASTRO FREI BETTO GERSHON KNISPEL GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS GLAUCO MATTOSO GUILHERME SCALZILLI GUTO LACAZ JOO ZINCLAR JOEL RUFINO DOS SANTOS JOS ARBEX JR. LCIA RODRIGUES MARCELO SALLES MARCOS BAGNO MC LEONARDO RENATO POMPEU TATIANA MERLINO WAGNER NABUCO

    ENTREVISTA EXCLUSIVA

    Ferrz

    PERIFERIA DE SO PAULO RECRIA A CULTURA POPULAR

    AUTO DE RESISTNCIA LICENA PARA MATAR

    DIO DA FAVELA VAI EXPLODIR

    O que muda na APOSENTADORIA

    CHILE A LUTA CENTENRIA DOS NDIOS MAPUCHEHONDURAS CRISE ABALA A DOUTRINA MONROEURUGUAI A GRANDE PROVA DE FOGO DA ESQUERDA

    RIO DE JANEIRO

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  • 7setembro 2009 caros amigos

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    preciso prestar ateno ao que est acontecendo nas periferias. A mudana real, concreta, e s no v quem no quer ou quem, por opo ideolgica e algum interesse particular, se recusa a encarar a realidade.

    Falamos das periferias em geral, tanto aquelas que se encontram nas beiradas das cidades brasileiras, apinhadas das classes subalternas, quanto quelas que por obra do processo histrico se tornaram satlites do poderoso imprio estadunidense.

    A entrevista com Ferrz, escritor do Capo Redondo, joga luz sobre a ebulio da periferia paulistana, onde milhes de moradores das favelas so criminalizados e vtimas da violncia do Estado. O alerta est dado: o dio acumulado est na iminncia de uma exploso incontrolvel.

    Reportagem de Marcelo Salles denuncia que, no Rio de Janeiro, a po-ltica de extermnio executada pela polcia, eliminou quase dez mil pes-soas na ltima dcada, a maior parte favelados. Os protestos dos mora-dores da periferia carioca so cada vez mais freqentes e massivos.

    No outro lado da mesma moeda, reportagem de Tatiana Merlino mos-tra que a populao perifrica de So Paulo resiste bravamente ao lixo da indstria cultural dominante e recria, com vitalidade, suas prprias manifestaes culturais. A juventude se organiza em torno de saraus de msica, poesia e literatura, das bibliotecas comunitrias, mostras de ci-nema e oficinas de hip hop.

    A reao praticamente unnime dos pases latino-americanos contra o golpe de Estado em Honduras revela que a periferia do imprio toma iniciativa indita e se move sem a tutela dos Estados Unidos. Jos Ar-bex Jr. analisa a crise de Honduras. Mais duas reportagens reforam esse quadro de rebeldia nas periferias: Carolina Coral fala sobre a luta cente-nria e atual dos ndios mapuche no Chile; e Fania Rodrigues relata o processo eleitoral no Uruguai, onde o ex-Tupamaro Jos Pepe Muji-ca lidera a disputa pela Presidncia da Repblica.

    Vale a pena conferir. Boa leitura!

    CAROS AMIGOS ANO XIII 151 OutubRO 2009

    EDITORA CASA AMARELA RevistasLivRosseRvioseditoRiaisfundadoR:sRgiodesouza(1934-2008)diRetoRgeRaL:WagneRnabucodeaRajo

    EDITOR: hamilton Octavio de souza EDITORa aDjunTa: Tatiana Merlino EDITOREs EsPECIaIs: jos arbex jr e Renato Pompeu EDITORa DE aRTE: Lucia Tavares assIsTEnTE DE aRTE: henrique Koblitz Essinger EDITOR DE FOTOGRaFIa: Walter Firmo REPRTER EsPECIaL: Marcos Zibordi REPRTEREs: Felipe Larsen e Lcia Rodrigues CORREsPOnDEnTEs: Marcelo salles (Rio de janeiro) e anelise sanchez (Roma) sECRETRIa Da REDaO: simone alves REvIsOR: Ruy Luduvice DIRETOR DE MaRKETInG: andr herrmann PuBLICIDaDE: Melissa Rigo CIRCuLaO: Pedro nabuco de arajo RELaEs InsTITuCIOnaIs: Ceclia Figueira de Mello aDMInIsTRaTIvO E FInanCEIRO: Ingrid hentschel, Elisngela santana COnTROLE E PROCEssOs: Wanderley alves LIvROs Casa aMaRELa: Clarice alvon sTIO: Lcia Rodrigues aPOIO: Maura Carvalho, Douglas jernimo e neidivaldo dos anjos aTEnDIMEnTO aO LEITOR: Llia Martins alves, Zlia Coelho assEssORIa juRDICa: Marco Tlio Bottino, aton Fon Filho, juvelino strozake, Luis F. X. soares de Mello, Eduardo Gutierrez e susana Paim Figueiredo REPREsEnTanTE DE PuBLICIDaDE: BRasLIa: joaquim Barroncas (61) 9972-0741.

    jORnaLIsTa REsPOnsvEL: haMILTOn OCTavIO DE sOuZa (MTB 11.242)DIRETOR GERaL: WaGnER naBuCO DE aRajO

    CaROs aMIGOs, ano XIII, n 151, uma publicao mensal da Editora Casa amarela Ltda. Registro n 7372, no 8 Cartrio de Registro de Ttulos e Documentos da Comarca de so Paulo, de acordo com a Lei de Imprensa. Distribuda com exclusividade no Brasil pela DInaP s/a - Distribuidora nacional de Publicaes, so Paulo. IMPREssO: Bangraf

    REDaO E aDMInIsTRaO: rua Paris, 856, CEP 01257-040, so Paulo, sP

    02 Guto Lacaz.07 Jos Arbex Jr. aponta a crise de Honduras como a primavera da Amrica Latina.08 Joel Rufino dos Santos chama a ateno para as mensagens das telenovelas. Guilherme Scalzilli conclama a mobilizao dos petistas para a eleio de 2010.

    09 Caros Amigos apia o manifesto em defesa da democracia e do MST.10 Marcos Bagno Falar Brasileiro. Mc Leonardo comemora a lei que descriminaliza o funk no Rio de Janeiro.

    11 Gershon Knispel lembra que as razes das famlias rabes esto sendo arrancadas.12 Entrevista com Ferrz O dio da favela pode explodir a qualquer momento.17 Wagner Nabuco associa o discurso do governo com o projeto nacional. Cesar Cardoso fala sobre a ltima manifestao de Deus para a humanidade.

    18 Lcia Rodrigues Governo mantm perdas para 38% dos aposentados.24 Ensaio Fotogrfico Joo Zinclar O contraste das guas no Nordeste.26 Renato Pompeu e suas memrias de um jornalista no investigativo. Ana Miranda presta homenagem aos msicos Alexandre e Egberto Gismonti.

    28 Marcelo Salles Polcia do Rio de Janeiro mata mais hoje do que na ditadura.32 Emir Sader analisa o desespero que tomou conta dos tucanos fracassomanacos.33 Glauco Mattoso Porca Misria. Eduardo Matarazzo Suplicy defende a transparncia nas doaes eleitorais.

    34 Fania Rodrigues conta que a esquerda uruguaia tem prova de fogo nas eleies.37 Frei Betto fala da tragdia colombiana no panorama da Amrica do Sul. Fidel Castro alerta sobre o perigo de extino do homem da face da Terra.

    38 Carolina Coral relata a luta centenria do povo mapuche no Chile.40 Tatiana Merlino mostra como a periferia de So Paulo recria a cultura popular. 44 Gilberto Felisberto Vasconcellos O governo deveria ouvir Bautista Vidal.45 Claudius 46 Renato Pompeu Idias de Botequim.

    sumrioFoto de capa JESuS CARLOS

    A rebelio das periferias

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  • 7outubro 2009 caros amigos

    Jos Arbex Jr.

    A crise de Honduras sintetiza e ilumi-na um momento histrico mpar na histria mundial. Pela primeira vez desde 1823, quando James Monroe formulou a doutrina que leva o seu nome (a Amrica para os americanos - quanto, de fato, tinha em men-te a Amrica para os estadunidenses), Washington, nitidamente, perdeu o controle e a iniciativa sobre os desenvolvimentos polticos e sociais na Amrica Lati-na e no Caribe.

    O papel assumido pelo Brasil, nesse quadro, tem di-menso explosiva: em nome dos princpios democr-ticos que devem nortear a relao entre os Estados, o governo brasileiro no se limitou a condenar o re-gime golpista, nem se contentou com sanes limita-das. Isso pode inaugurar uma nova etapa na relao do Brasil com a comunidade mundial das naes, e abrir o caminho para novos desdobramentos democrticos na Amrica Latina.

    Exagero? Excesso de otimismo? Precipitao na anlise poltica? Dificilmente. Vamos aos fatos:

    1. A Amrica Latina e o Caribe tornaram-se mais importantes do que nunca para os Estados Unidos, aps o fiasco no Iraque e no Afeganisto. No apenas por-que as reservas estratgicas de petrleo estadunidenses esto esgotadas, mas tambm por tudo o que represen-ta a Amaznia em termos de reservas de petrleo, bio-diversidade, minerais e gua.

    2. Apesar disso, Washington fracassou em todas as suas tentativas recentes de eliminar os obstculos ao seu controle da regio. No conseguiu tirar Hugo Ch-vez do poder, no golpe desferido em abril de 2002; fra-cassou ao tentar fabricar uma guerra civil para elimi-nar o governo de Evo Morales, em 2008; e, talvez mais humilhante ainda: ao tentar prolongar o acordo que permitia o funcionamento da base militar de Manta, no Equador, teve que aceitar o tapa na cara desferido por Rafael Correa (o presidente equatoriano respondeu que, sim, toparia renovar o contrato, se os Estados Uni-dos admitissem a instalao de uma base militar equa-toriana na Flrida!).

    3. O golpe em Honduras se inscreve nesse quadro geral. Os golpistas hondurenhos conseguiram, momen-taneamente, aquilo que os demais tentaram sem suces-

    so. Acreditar que as oligarquias hondurenhas arquite-taram o golpe sem o conhecimento da embaixada dos Estados Unidos prova suprema de ingenuidade ou m f (ou uma mistura dos dois). O embaixador estaduni-dense em Tegucigalpa foi colocado no cargo pela turma de George Bush filho. partidrio incondicional da Dou-trina Monroe. at possvel que Barack Obama tenha sido pego de surpresa, mas jamais os servios secretos dos Estados Unidos. Em qualquer hiptese, bastante bvio que Washington, por mais que tenha condenado o golpe, no ficou nada feliz com a adeso do presidente deposto Manuel Zelaya Alba e ao Petrocaribe.

    4. Barack Obama emite sinais contraditrios e in-coerentes, o que uma prova de falta de um plano es-tratgico para enfrentar a situao. Ou falta de fora para aplicar de forma coerente e decidida uma estra-tgia qualquer. De um lado, Obama proclama o fim da era em que os Estados Unidos davam as cartas na Amrica Latina. De outro lado, prolonga o boicote eco-nmico a Cuba, mantm o Plano Mrida para o Mxi-co e para a Amrica Central, e o de instalaes de ba-ses militares na Colmbia.

    5. Mas Obama enfrenta uma indita demonstrao de resistncia e reprovao por parte da imensa maio-ria dos governos latino-americanos.

    nesse ponto que ganha grande relevncia o papel assumido pelo Brasil. Nos ltimos meses, o presiden-te Lus Incio Lula da Silva emitiu claros sinais de uma virada esquerda na poltica externa. Ao anunciar a descoberta do pr-sal, por exemplo, denunciou imedia-tamente os movimentos da Quarta Frota dos Estados Unidos (encarregada de vigiar os mares da Amrica Latina e do Caribe), estabelecendo um nexo entre as coi-sas. Depois, Lula demonstrou preferncia pelos avies de guerra da Frana, sob alegao de que a estadunidense Boeing no transfere tecnologia. Em seguida, Lula con-denou o prolongamento do bloqueio a Cuba e declarou a inteno de interpelar Barack Obama sobre o assunto. Finalmente, o Brasil acolheu Manuel Zelaya como pre-sidente legtimo de Honduras.

    No interessam as razes que levam Lula a assumir tais atitudes. No se trata, aqui, de alimen-tar iluses num suposto neoLula, nem de acreditar

    que os demais governos latino-americanos que desa-fiam Obama tenham aderido ao Partido Bolchevique. Lula, provavelmente, faz isso por estar de olho nas ur-nas em 2010, e por saber que apenas uma mensagem de esquerda, que se descole completamente do PSDB, pode incendiar as multides e carrear votos para Dil-ma Rousseff (tecnicamente empatada com Ciro Gomes e bem atrs de Jos Nosferatu Serra). Lula tambm sabe que a campanha o petrleo nosso tem um imenso potencial explosivo, e por isso trata o debate sobre o pr-sal como uma reedio dos tempos de Getlio Var-gas. No plano internacional, Lula forado a alimen-tar uma relao de amor e dio com Hugo Chvez, que acabou se impondo como uma referncia para a es-querda no hemisfrio.

    No importam as intenes de Lula ou de quem quer que seja. Importa que esse processo tem tudo para dar um novo mpeto ao movimento de massas, num mo-mento em que eclodem e se articulam greves no ABC, em So Jos dos Campos e de importantes categorias nacionais (carteiros, bancrios etc.). Importa o fato de que, no plano internacional, a Casa Branca no tem a ltima palavra em Honduras, e o governo brasileiro as-sumiu a posio que deveria mesmo ter assumido (e por isso desperta a ira dos especialistas e comenta-ristas de sempre).

    Desde 1823, o jogo entre as naes do pla-neta tinha na Doutrina Monroe um de seus parmetros. Nenhuma outra potncia mundial sequer tentou, seria-mente, disputar a hegemonia dos Estados Unidos na re-gio (exceto no famoso episdio dos msseis de 1962, quando a Unio Sovitica tentou transformar Cuba em plataforma de lanamento de msseis nucleares). Hoje, a Doutrina Monroe, pela primeira vez, comea a fazer gua, mas no num quadro qualquer, e sim no da maior crise enfrentada pelo capitalismo desde 1929.

    Somos tentados a concluir esse artigo com a sen-tena a primavera da Amrica Latina comeou em Honduras, nem que seja por um mero exerccio pro-vocador de imaginao histrica. Mas melhor no. Pode dar azar.

    Jos Arbex Jr. jornalista.

    Honduras abala a doutrina Monroe

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  • caros amigos outubro 2009 8

    Guilherme Scalzilli

    Quando o obsessivo Colombo chegou Amrica, chamou a gente que encontrou de ndios. O conhecido eram as ndias. Ele de-finiu o novo pelo antigo, a experincia nova pela tradio. Aquela gente no podia ser se-no ndios.

    mais ou menos como pensam os que se encontram com ETs, em estradas desertas e serras remotas, os escritores de fico cient-fica e os roteiristas de Guerras nas estrelas. Menos do que ignorantes, so criaturas medie-vais, no sentido em que foi Colombo, apesar de fundador dos tempos modernos: s podem conceber mais do mesmo, reproduo sem fim da quantidade.

    Talvez o leitor no veja a telenovela das oito (que hoje s nove).

    H nesse folhetim eletrnico, padro Glo-bo de qualidade, uma alienao explcita: a concepo da vida humana como satlite do dinheiro. Pobre nunca feliz, as relaes amo-rosas no passam de variantes do golpe do ba. H cinquenta anos (como voa o tempo!), o maldito Dbord chamava esse lixo de vida inautntica.

    Caminho das ndias j no me irritou. Te-ria eu, finalmente, me deixado embriagar pela carpintaria fantasiosa do gnero? Fiquei vi-ciado em novela? possvel, mas quero resis-tir. No verei a prxima, nem por descuido. Milhares de livros me esperam para releitura Andr Malraux, Ciro Alegra...

    Caminho das ndias de Glria Perez, que h trs dcadas, pelo menos, tenta infun-dir contedo crtico ao gnero. dificlimo, pois a forma da telenovela , em si mesma, bestificante. Herdeira de Janete Clair (1925-83), que viera da radionovela para a tela, Gl-ria tem o sentimento do social e do poltico. Sei tambm que consciente do papel alie-nante da telenovela e busca sempre compen-s-la com mensagens antissistmicas (diga-mos assim).

    Em Caminhos da ndia anotei diversas dessas mensagens sutis:

    Para comear, o preconceito de casta. O ce-nrio a ndia extica, danante e luxuosa. No final, acossada pelo amor, a casta se estre-pa. Est dentro do figurino romntico, ver-dade. S que a casta aparece como forma de garantir um amor no individualista, que se constri a partir de um casamento arranjado

    pela famlia, no por escolha livre do corao. Numa palavra: vitria do amor construdo so-bre o amor romntico. A mensagem de Glria Perez dialtica.

    Outra mensagem, menos sutil, a dos di-reitos dos loucos.

    Nos anos 1960, se acirrou o debate psiquia-tria/antipsiquiatria. Nenhum dos lados ven-ceu. Como tantas vezes se viu, o desdobra-mento da vida aproveitou o que h de certo num e noutro lado.

    Em Caminho das ndias, a loucura de Tar-so deflagrada (no causada) pelas relaes familiares estressantes. A me, a perua Melis-sa, no suporta sequer a palavra esquizofrni-co. No final, aceita que Tarso tome remdios e faa socioterapia, com acompanhamento de um clnico. Tarso quer casar, ama uma garota que o contrrio de sua me.

    A garota aceita, happy end.

    amigos de papelJoel Rufino dos Santos

    Guilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do romance Crislida (editora Casa Amarela). www.gui-lhermescalzilli.blogspot.com Ilu

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    Mensagens

    Se quiser manter alguma esperana de eleger Dilma Rousseff em 2010, o PT precisa mobilizar-se imediatamente. A supervalorizao da popularidade do presidente Lula mergulhou o partido numa apatia condescendente, agravada por conflitos internos vazios e desagregadores.

    A visibilidade miditica de crticos e deser-tores, sob o silncio dos governistas, fortalece o mito da desiluso do petismo histrico. Urge conclamar intelectuais, artistas e demais celebri-dades a posicionamentos pblicos sobre a cam-panha presidencial, demonstrando comprometi-mentos pessoais inequvocos.

    militncia cabe posicionar-se imedia-tamente acerca de uma eventual coligao com o PMDB. Ela ser decisiva para as chances eleito-rais de qualquer candidato, e no apenas graas aos importantes minutos nos horrios eleitorais. Alianas de envergadura nacional costumam ser indigestas e exigem condescendncias; seus li-mites merecem discusses pragmticas, livres de purismos ideolgicos.

    Um pedido aos senadores e deputados do PT: abandonem a pantomima da indignao tardia. Se o fardo insuportvel, tenham a honradez de entregar os cargos de seus correligionrios em to-dos os escales do governo e iniciem um novo projeto poltico. Mas, em nome da transparncia, ou por simples esprito republicano, parem de agir como se no soubessem o que est em jogo.

    Apropriando-se das conquistas da ad-ministrao atual, com a vitrine da Copa do Mun-do, Jos Serra seria facilmente eleito presidente. Depois, as fortunas advindas do pr-sal financia-riam tambm seus sucessores, perpetuados num perodo inimaginvel de continusmo. Mesmo que ento surgisse uma nova liderana progressista vivel, os danos da hegemonia tucana j estariam irremediavelmente consolidados.

    Essa uma forma indigna de desperdiar to-dos os esforos gastos em quase trinta anos de lutas e sacrifcios.

    Carta aos petistas: momento de

    reagir

    Joel Rufino historiador e escritor.

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  • 9outubro 2009 caros amigos

    A reconstruo da democracia no Brasil tem exigido, h trinta anos, enormes sacrifcios dos trabalhadores. Desde a reconstruo de suas organizaes, destru-das por duas dcadas de represso da ditadura militar, at a inveno de novas for-mas de movimentos e de lutas capazes de responder ao desafio de enfrentar uma das sociedades mais desiguais do mundo. Isto tem implicado, tambm, apresentar aos herdeiros da cultura escravocrata de cinco sculos, os trabalhadores da cidade e do campo como cidados e como participantes legtimos no apenas da produ-o da riqueza do Pas (como ocorreu desde sempre), mas igualmente como bene-ficirios da partilha da riqueza produzida.

    O dio das oligarquias rurais e urbanas no perde de vista, um nico dia, um des-ses novos instrumentos de organizao e luta criados pelos trabalhadores brasilei-ros a partir de 1984: o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra MST. E esse Movimento paga diariamente com suor e sangue como ocorreu h pouco no Rio Grande do Sul por sua ousadia de questionar um dos pilares da desigualdade so-cial no Brasil: o monoplio da terra. O gesto de levantar sua bandeira numa ocupa-o se traduz numa frase simples de entender e, por isso, intolervel aos ouvidos dos senhores da terra e do agronegcio. Um Pas, onde 1% da populao tem a proprie-dade de 46% do territrio, defendida por cercas, agentes do Estado e matadores de aluguel, no podemos considerar uma Repblica. Menos ainda, uma democracia.

    A Constituio de 1988 determina que os latifndios improdutivos e terras usa-das para a plantao de matrias primas para a produo de drogas, devem ser des-tinados Reforma Agrria. Mas, desde a assinatura da nova Carta, os sucessivos Governos tm negligenciado o seu cumprimento. ousadia do MST de garantir es-ses direitos conquistados na Constituio, pressionando as autoridades atravs de ocupaes pacficas, soma-se outra ousadia, igualmente intolervel para os senho-res do grande capital do campo e das cidades: a disputa legtima e legal do Ora-mento Pblico.

    Em quarenta anos, desde a criao do INCRA (1970), cerca de um 1 de famlias rurais foram assentadas. Mais da metade, entre 2003 e 2008. Para viabilizar a ati-vidade econmica dessas famlias, para integr-las ao processo produtivo de ali-mentos e divisas no novo ciclo de desenvolvimento, necessrio travar a disputa diria pelos recursos pblicos. Da resulta o dio dos ruralistas e outros setores do grande capital, habituados desde sempre ao acesso exclusivo aos crditos, subs-dios e ao perdo peridico de suas dvidas.

    O compromisso do Governo de rever os critrios de produtividade para a agricul-tura brasileira, responde a uma bandeira de quatro dcadas de lutas dos movimen-tos dos trabalhadores do campo. Ao exigir a atualizao desses ndices, os traba-lhadores do campo esto apenas exigindo o cumprimento da Constituio Federal, e que os avanos cientficos e tecnolgicos ocorridos nas ltimas quatro dcadas, sejam incorporados aos mtodos de medir a produtividade agrcola do nosso Pas.

    contra essa bandeira que a bancada ruralista do Congresso Nacional reage, e

    ataca o MST. Como represlia, buscam, mais uma vez, articular a formao de uma CPI (Comisso Parlamentar de Inqurito) contra o MST. Seria a terceira em cinco anos. Se a agricultura brasileira to moderna e produtiva como alardeia o agro-negcio, por que temem tanto a atualizao desses ndices?

    E, por que no criada uma nica CPI para analisar os recursos pblicos des-tinados s organizaes da classe patronal rural? Uma CPI que desse conta, por exemplo, de responder a algumas perguntas, to simples como: O que ocorreu ao longo desses quarenta anos no campo brasileiro em termos de ganho de produti-vidade? Quanto a sociedade brasileira investiu para que uma verdadeira revoluo do ponto de vista de incorporao de novas tecnologias tornasse a agricultura brasileira capaz de alimentar nosso povo e se afirmar como uma das maiores ex-portadoras de alimentos? Quantos perdes da dvida agrcola foram oferecidos pe-los cofres pblicos aos grandes proprietrios de terra, nesse perodo?

    O ataque ao MST extrapola a luta pela Reforma Agrria. um ataque contra os avanos democrticos conquistados na Constituio de 1988 como o que estabe-lece a funo social da propriedade agrcola e contra os direitos imprescindveis para a reconstruo democrtica do nosso Pas. , portanto, contra essa recons-truo democrtica que se levantam as lideranas do agronegcio e seus aliados no campo e nas cidades. E isso grave. E isso uma ameaa no apenas contra os movimentos dos trabalhadores rurais e urbanos, como para toda a sociedade. a prpria reconstruo democrtica do Brasil, que custou os esforos e mesmo a vida de muitos brasileiros, que est sendo posta em xeque. a prpria reconstru-o democrtica do Brasil, que est sendo violentada.

    por essa razo que se arma, hoje, uma nova ofensiva dos setores mais conser-vadores da sociedade contra o Movimento dos Sem Terra seja no Congresso Na-cional, seja nos monoplios de comunicao, seja nos lobbies de presso em todas as esferas de Poder. Trata-se, assim, ainda uma vez, de criminalizar um movimento que se mantm como uma bandeira acesa, inquietando a conscincia democrtica do pas: a nossa democracia s ser digna desse nome, quando incorporar todos os brasileiros e lhes conferir, como cidados e cidads, o direito a participar da parti-lha da riqueza que produzem ao longo de suas vidas, com suas mos, o seu talento, o seu amor pela ptria de todos ns.

    CONTRA A CRIMINALIZACO DO MOVIMENTO DOS SEM TERRA. PELO CUMPRIMENTO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS QUE DEFINEM AS

    TERRAS DESTINADAS REFORMA AGRRIA. PELA ADOCO IMEDIATA DOS NOVOS CRITRIOS DE PRODUTIVIDADE PARA

    FINS DE REFORMA AGRRIA. Braslia, 21 de setembro de 2009.

    Caros Amigos apia o Manifesto em defesa da

    democracia e do mST

    Pedro Tierra, Antonio Candido, Plnio Arruda Sampaio, Eduardo Galeano, Heloisa Fernandes, Alpio Freire. Seguem-se outras centenas de adeses de dirigentes par-tidrios, intelectuais, artistas e ativistas do movimento sindical.

    ...Legitimam-se no pela propriedade, mas pelo trabalho,nesse mundo em que o trabalho est em extino.Legitimam-se porque fazem Histria,num mundo que j proclamou o fim da Histria.Esses homens e mulheres so um contra sensoporque restituem vida um sentido que se perdeu...(Notcias dos sobreviventes, Eldorado dos Carajs, 1996).

    Novo stio: www.carosamigos.com.br

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  • caros amigos outubro 2009 10

    Mc Leonardo

    Dia desses, uma gacha veio me contar, en-tusiasmada, que tinha aberto uma escola de ln-guas em Porto Alegre, que no queria se limitar ao ensino das lnguas europeias (ingls, francs, espanhol, italiano, alemo) mas pensava em ofe-recer tambm o iorub, para ser uma escola po-liticamente correta, que contemple as lnguas que influenciaram o portugus brasileiro. Pen-sei com meus botes: Mais uma iludida.

    O desconhecimento, por parte da maioria dos brasileiros, inclusive linguistas profissionais, da histria lingustica do nosso pas impressionan-te. Quando, com base nos excelentes estudos de Yeda Pessoa de Castro, digo s pessoas que, das lnguas africanas trazidas para c com o trfico de escravos, a que menos impacto exerceu sobre o portugus brasileiro foi o iorub, as reaes costumam ir da surpresa indignao.

    O iorub uma lngua oeste-africana. Seus falantes s comearam a ser trazidos para o Bra-sil no final do sculo XVIII, com a destruio do reino de Queto, e tambm depois de 1830, quan-do foi arrasado o imprio de Oi. Ficaram con-centrados nas zonas litorneas, com especial des-taque para a regio do Recncavo baiano. Com os falantes de iorub e de outras lnguas oeste-africanas vieram os cultos religiosos que se tor-naram conhecidos como candombl. Por causa do prestgio cultural que essas manifestaes re-ligiosas alcanaram que se fixou, entre ns, o mito de que o iorub a principal (quando no a nica!) lngua africana que exerceu influn-cia sobre o portugus brasileiro. Desse mito de-correm inmeras distores como, por exemplo, a do filme Quilombo, de Cac Diegues (1984), em que Zumbi dos Palmares e demais quilombo-las falam iorub, em pleno sculo XVII, quando ainda no tinham chegado ao Brasil os falantes dessa lngua. O mesmo se pode dizer dos inme-ros cursos de iorub oferecidos Brasil afora e que muitas pessoas vo frequentar na crena de que, assim, se aproximariam mais das razes africanas da nossa populao e da nossa cultura.

    Ora, as lnguas que de fato mais confluram para a formao do portugus brasileiro so de uma outra famlia, chamada Banto. So de ln-guas bantas (quicongo, quimbundo, umbundo) a maioria dos escravos trazidos a partir do sculo XVII e que sero distribudos por todo o territrio brasileiro. A antiguidade da presena dos bantos que explica a grande quantidade de vocbulos plenamente integrados ao falar brasileiro do dia

    a dia e referentes aos mais diversos campos da vida humana. As palavras do iorub que empre-gamos, por outro lado, se referem quase exclusi-vamente ao universo religioso e tm uma difuso muito mais restrita geograficamente. Com isso, se quisermos de fato nos aproximar das nossas ra-zes africanas mais profundas, nas lnguas do grupo banto que devemos procur-las. delas que vm, entre tantas outras, as j brasileirssi-mas caula, carimbo, cachaa, dengo, samba, sa-cana, biboca, maconha, baguna, jil, cachimbo, cafungar, fungar, cabular, catinga, catimba, gin-ga, lambada, cangao, mocambo, moleque, mi-anga, moqueca, muamba, olel-olal, tutu, ti-tica, xingar, quiabo, quitanda, quitute, muxoxo, cochilo, banguela, belelu, zanzar, ziquizira, son-gamonga, moringa, camundongo, babaca, sen-zala, mucama, macaco, babau, caxumba, capan-ga, canga, tanga, lengalenga, mandinga, coroca, cot, fub, cafun, jaguno, meganha... sem fa-lar, claro, da grande unanimidade nacional a bunda!

    falar brasileiroMarcos Bagno

    Caros amigos, muito obrigado!

    Ilus

    tra

    o: D

    ebor

    a bo

    rba/

    debo

    rabo

    [email protected]

    gmai

    l.com

    Brasileirofala banto? Fundei a APAFUNK (Associao dos

    Profissionais e Amigos do Funk), para exigir do Esta-do do Rio um olhar cultural e no policial do movi-mento que tanto conheo h dezessete anos.

    Participamos de fruns, debates, palestras, en-contros com movimentos sociais e no nos negamos a entrar nos gabinetes dos deputados na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pra exigir uma poltica cultural para nosso movimento.

    A 1 de setembro de 2009, foram votados dois Projetos de Lei que vo ajudar - e muito - nesse pro-cesso de descriminalizao.

    Um revoga uma Lei que dificultava os bai-les em nosso Estado e o outro faz o Estado reconhe-cer o Funk como cultura popular.

    Agradecemos a todos os deputados, mesmo sa-bendo que eles cumpriram com suas obrigaes, sa-bemos que isso muito difcil de acontecer nas as-sembleias legislativas do nosso Brasil.

    Sei que no teramos conseguido ser compreen-didos nessa luta de convencimento a um ritmo to massacrado pela mdia nos ltimos anos, se no fos-se a mdia magra.

    Mdia alternativa, nunca duvide do seu poder: quero dizer que alguns sites, jornais e revistas fizeram nosso grito ecoar Brasil afora.

    Primeiramente agradeo aos sites www.funkde-raiz.com.br, que foi o primeiro a publicar nossa ba-talha, ao www.fazendomedia, ao Observatrio da In-dstria Cultural (oicult.blogspot.com.br), Agencia de Notcias da Favela (www.anf.org.br), ao www.fo-que.com.br, e a todos os outros sites que eu no me lembro agora.

    Ao Jornal Cidado, ao Jornal Brasil de Fato, aos jornais sindicais, universitrios e dos movimen-tos sociais.

    revista Vrus Planetrio, ao Ncleo Piratininga de Comunicao, a Radio Muda de Campinas e, claro que eu no podia esquecer, da revista Caros Amigos, que me convidou para ocupar o espao desta coluna.

    Obrigado a todos vocs que no s nos ajudaram a divulgar nossa batalha, como nos ensina-ram que a mdia somos ns que fazemos.

    Mas uma vez, MUITO OBRIGADO A TODOS!

    MC Leonardo compositor, autor, com seu ir-mo MC Junior, de funks de protesto, como o Rap das Armas. [email protected] - http://mcjunioreleonardo.wordpress.com

    Marcos Bagno linguista e escritor. www.marcosbagno.com.br

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  • 11outubro 2009 caros amigos

    foto

    Ger

    shon

    Kni

    spel

    A fundio da famlia

    Omarija, em Ibtin,

    na Galileia

    Meu velho amigo Abdallah Omarija, da aldeia beduna de Ibtin, que se acomoda aos ps das montanhas da Galileia, na periferia ao norte de Hai-fa, eu o conheci imediatamente depois de meu retor-no para Israel, perseguido pelo Dops, no dia seguinte ao golpe militar de 1964 no Brasil. O nico fundidor da regio que estava de acordo em adotar o sistema que inventei, de fundir os moldes de isopor, que eco-nomizava tempo de trabalho e custos.

    Mais de quarenta anos se passaram e nossas re-laes de amizade sempre se aprofundaram mais e mais. Nos acostumamos a trocar visitas; no faltaram ocasies. No incio, em pocas de festividades reli-giosas, cuja quantidade vinha em dobro, porque Ab-dallah, como os outros rabes, no podia ignorar as festas judaicas, em que no era permitido trabalhar.

    De repente, as ocasies se multiplicaram. Nasceram treze filhos de Abdallah, dos quais s uma menina. Cada nascimento era mais uma oportunida-de de sacrificar um cabrito no grande espeto, bem temperado com pprica, cebola etc., com o fantsti-co caf com folhagens aromticas da erva hell, cujo cheiro ainda me acompanha. Sabemos que, entre os sentidos, a memria do olfato a mais forte.

    A casa de pedra de Abdallah sempre ficava cres-cendo, ignorando as leis que no permitiam constru-o sem autorizao nas terras agrcolas em volta. Quando no havia mais para onde estender a casa, ele comeou a construir um andar superior. Segundo os costumes, quando a me est com a barriga cres-cendo, todos os vizinhos vinham ajudar a construir o novo cmodo. Isso era decorrncia da lei otomana, do tempo da ocupao turca de centenas de anos, com muito maior generosidade do que as proibies im-postas sobre os rabes pelos britnicos e, ainda mais rudemente, pelos israelenses.

    A lei turca dizia: uma construo sem auto-rizao, se a construo comeou antes do nascer do sol e o teto vai se completar antes do por-do-sol do dia seguinte, no pode mais ser demolida. Foi essa lei que virou hbito quando todos os cidados da aldeia ou vi-zinhos da cidade chegavam para o mutiro de constru-o, para termin-la dentro do prazo quase impossvel. Essa lei contribuiu para o reforo da cultura tribal to

    semelhante cultura dos tempos bblicos.Durante essas dcadas que se passaram, am-

    pliou-se a empresa de fundio de Abdallah, enquan-to o primognito, Jamil, e o segundo filho, Lutfi, fo-ram os primeiros a acompanhar o pai na firma depois de terminarem os oito anos de ensino fundamental. O terceiro filho, Latif, entrou para a faculdade de conta-bilidade; Chasan, o quarto filho, estudou engenharia, e assim por diante. Todos ficaram dentro da empresa e assim Abdallah no precisava depender de estranhos e seus negcios navegavam em guas calmas.

    Quando as autoridades israelenses descobriram essas infraes lei de construes, comearam a chegar as ordens de destruio da casa. A famlia ex-tensa Omarija, composta de dez famlias nucleares na mesma casa, ia ter o mesmo destino das populaes rabes expulsas de suas cidades e aldeias, como em Nazar, a capital da Galileia.

    Ali, desde os anos 1950, as autoridades israelen-ses vinham assentando judeus nas elevaes em tor-no da cidade, no que se chamou de Nazar de Cima. Com o desenvolvimento dessa cidade judaica, as au-toridades israelenses julgaram necessrio desapro-priar terrenos da antiga Nazar rabe e das aldeias rabes da regio. Os jovens rabes tinham de encon-trar alternativas de moradia.

    Os imigrantes judeus de Nazar de Cima receberam os apartamentos quase de graa, mas mesmo assim sua situao econmica foi ficando cada vez mais apertada, de modo que tenderam a aceitar as propostas dos jovens rabes de pagarem aluguel pelas moradias, o que irritou os moradores judeus que podiam manter suas casas. Isso porque o valor dos apartamentos foi reduzido a um tero do valor de mercado, por causa da vizinhana rabe.

    Para os judeus que alugaram suas residncias a rabes foram enviadas cartas com ameaas de mor-te, e o veneno da frustrao atingiu os judeus e os rabes conjuntamente. Os desacordos tnicos se tor-naram assunto do dia, e o pior que a estrutura fa-miliar to firme e to tradicional dos rabes, reunida em torno do chefe, pai e av, comeou a ficar irre-mediavelmente abalada.

    O aluguel foi subindo, para obrigar os rabes a

    irem embora, que sofreram ameaas constantes para no tentarem comprar os apartamentos. As grandes distncias entre as casas e as escolas, e as distncias ainda maiores at o local de trabalho, os engarrafa-mentos nos picos da manh e do fim de tarde tudo isso virou para os rabes um inferno.

    Meu caro amigo Abdallah Omarija no aguentou mais essa situao e morreu h alguns me-ses. Se essa a via dolorosa por que passam esses rabes cidados de Israel, imagine-se o que aconte-ce com os palestinos das regies ocupadas. Tudo isso veio minha mente, quando vi, na Folha de S. Pau-lo do domingo, 13 de setembro, a notcia do jornal britnico Financial Times, Construo de assenta-mentos tambm provoca expulso; rabes recorrem Justia, que dizia:

    Desde o incio de agosto, quando duas famlias do bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalm Oriental, foram despejadas fora de suas casas, Muhammad Saba-gh no tem conseguido dormir muito. O encanador aposentado de 61 anos teme que ele, seus cinco ir-mos e mulheres e filhos deles possam ir para a rua em pouco tempo. A famlia Sabagh pode se tornar a prxima vtima da batalha que j dura quase quatro dcadas, travadas por dois grupos judaicos, para re-aver imveis em Sheikh Jarrah, distrito rabe ao nor-te da Cidade Velha de Jerusalm, que dizem que lhes pertenciam antes de 1948. Despejos de casas de pa-lestinos erguidas sem alvars e a construo de casas novas para colonos em Jerusalm Oriental vm cau-sando a maior diviso sobre os assentamentos entre Israel e os EUA em pelo menos uma dcada. O aliado mais incansvel de Israel tem exortado o pas a con-gelar a construo de casas para judeus, para ajudar na retomada das conversas de paz com palestino.

    Para o leitor brasileiro no fica claro que no se trata de duas famlias que foram despejadas. Segundo os costumes palestinos de reunir a paren-tela numa propriedade s, apenas na casa da fam-lia Sabagh moram seis famlias no sentido brasileiro do termo. As razes das famlias rabes esto sendo arrancadas.

    Gershon Knispel

    A casa, uma crnica que se repete

    Gershon Knispel artista plstico.

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  • caros amigos outubro 2009 12

    ferrz tem 33 anos, escritor, comerciante e au-tntico representante dos sentimentos e das lu-tas da imensa populao que vive na perife-ria de So Paulo. Ficou conhecido porque expressa com realismo a dureza das relaes entre povo e Es-tado, entre pobres e ricos, entre as precrias condi-es de vida nas favelas e a represso policial.

    Nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos ele conta como o processo de criminalizao da populao pobre da periferia tem contribudo para acumular dio e faz um alerta: Vai chegar um dia que uma agresso a um menino ou a uma menina vai virar uma revoluo em So Paulo inteira. Fala tambm de sua vida e de seu amor pela literatura. Fiquem com Ferrz.

    Hamilton Octvio de Souza - Fale um pouco da sua vida, onde nasceu, estudou, o que faz hoje.Ferrz - Meu nome Ferrz, eu no uso meu nome de batismo por que eu no acredito no batismo, no acredito na Igreja Catlica. Prefiro um pseudni-mo, por que uma coisa que eu inventei tambm, como a minha carreira. Eu sou vendedor ambulan-te, eu s vivo com coisa debaixo do brao para cima e para baixo para vender s editoras, sou datilgra-fo tambm, por que escrevo e trabalho com muita coisa para poder ter o bsico, ento vivo de mui-ta coisa, trabalho de muita coisa. A minha infn-cia foi normal como a de todo moleque de favela, t ligado? S no soltava tanto pipa porque meu pai no deixava.

    Tatiana Merlino - Nasceu onde?Nasci no Valo Velho, na verdade eu nasci num

    lugar chamado Cantinho do Cu, que antes um pouco, ali no Jardim Capelinha, na zona sul de So Paulo. Nasci ali, fui para o Valo Velho, mas eu sem-pre falo do Valo Velho porque pra mim o comeo da minha infncia foi no Valo Velho, na casa de alu-guel do meu pai. Depois eu mudei para o Capo Re-dondo, na verdade Valo Velho rea do Capo tam-

    entrevista ferrz

    Participaram: Andr Herrmann, Brbara Mengardo, Felipe Larsen, Hamilton Octavio de Souza, Jlio Delmanto, Lcia Rodrigues, Luka Amorim, Marcelo Salles, Marcos Zibordi, Otvio Nagoya, Renato Pompeu, Tatiana Merlino. Fotos Jesus Carlos

    explodirA periferia de So Paulo pode

    bm, para o Jardim Comercial e estou l at hoje.

    Tatiana Merlino - E os teus pais faziam o que?Meu pai motorista de nibus aposentado, de-

    pois foi motorista da Sabesp, se aposentou e ago-ra cuida de um bar. Minha me domstica, traba-lha em casa de famlia e at hoje a mesma coisa, ela faz uns bicos e tal, tem um bazarzinho, mas vive de bico tambm.

    Tatiana Merlino - E voc filho nico?Sou o irmo mais velho de uma famlia de trs,

    tenho uma irm que enfermeira e um irmo de 18 anos.

    Renato Pompeu - Que idade voc tem?Tenho 33. Estou pronto para ser crucificado.

    Marco Zibordi - Ento comea a falar da escola, que a primeira crucificao, para voc

    que no acredita em igreja, a primeira a escola...

    . Na escola eu tive bastante dificuldade, por-que eu no prestava ateno na aula, mas ao mes-mo tempo eu sabia a lio. Ento eu tirava boas notas, prestava ateno no professor, e at hoje os professores perguntam como que pode esse cara nunca prestou ateno, e esse cara sabia as mat-rias. Eu achava que 20 minutos do que o professor falava eu j entendia, o resto era discurso meio no vazio. Eu repeti a primeira srie do primeiro ano no Euclides da Cunha, eu no gostava do ensino, no gostava da escola, no odiava ir para a escola, eu s ia para conversar mesmo e eu achava que no ti-nha nada a ver o que eu estava aprendendo. Eu no aprendi porcentagem na escola, entendeu? No me ensinaram porcentagem e no comrcio que eu abri eu precisava saber porcentagem. A escola me ensi-nou pouco, mas eu tive muitas pessoas boas na es-cola, muitos professores bons, que eram professo-

    a qualquer momento

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  • 13outubro 2009 caros amigos Novo stio: www.carosamigos.com.br

    res que no davam lio nem de matemtica e nem de portugus, mas davam lio de vida. Essas pes-soas fizeram a diferena.

    Marco Zibordi - A literatura no te ligava em nada na escola?

    No, eu lembro bem da passagem que eu desco-bri da quarta para a quinta srie, que tinha os drui-das. Eu gostava muito de histria e a eu perguntava para o professor, eu lembro muito de ter chegado e perguntado para o professor o que eram os druidas e o professor no sabia e a ele falava: eu no estou dando aula sobre isso. Eu fazia fanzine, j criava uns logos com o fanzine e a eu fui estudar a cultu-ra dos druidas para poder puxar para o fanzine os logos e tal, a eu tinha uns interesses que na esco-la no tinha; eu gostava de quadrinhos e na escola no tinha. Eu lembro bem na oitava srie de ter um livro de portugus e ter l um texto do Arnaldo An-tunes e a eu falei: puta finalmente na oitava srie eu vou ver um cara que eu gosto dentro de um livro de portugus. Por que no resto no tinha nada.

    Jlio Delmanto - E agora voc est nos livros de portugus...

    parece que agora sou eu, pelo menos o mole-que olha e diz tem algum aqui.

    Lcia Rodrigues - Voc acha que a escola est distante da realidade?

    Eu acho que a escola perdeu o foco total de qual-quer senso de realidade. Eu acho que a escola e a realidade no tm mais nada a ver e eu acho que uma gerao inteira est errando de ir para a es-cola e os professores serem educados do jeito que so tambm. Por que os professores tambm es-to ferrados.

    Tatiana Merlino - Quando e como voc comeou a gostar de literatura?

    Meu, no tem uma data assim. Tipo, eu no sei as-sim um dia eu acordei e falei agora eu gosto de lite-ratura, sabe? Mas eu lia sempre quadrinhos e gosta-va de Robert E. Howard que o autor do Conan e a eu buscava saber sobre o cara, e a biografia dos au-tores sempre me interessou mais e ento eu comecei a buscar saber mais sobre os caras. Eu sempre tive um ensino paralelo ao da escola, ento se eu gostava de Conan eu lia Conan no servio e ia para escola, ti-nha que ler Alusio de Azevedo ou tinha que ler Car-los Drummond de Andrade l, mas o Carlos Drum-mond de Andrade l no me interessava...

    Lcia Rodrigues O que acha dos rappers tipo Gog, Racionais, Faco Central?

    O Gog, o Racionais, o Faco Central, o Cons-cincia Humana, so a minha escola tambm, eu no existiria e toda uma legio de caras que exis-te hoje que gosta de literatura e rap, no existiria se no fosse eles. O rap, pra mim, junto com os caras uma injeo, t ligado? Que na verdade pra quem t com dor, quando eu vou em faculdade fazer pa-lestra tem um monte de gente que reclama, mas eu acho violento Faco Central, Racionais... Por que no para eles, eles no precisam ouvir aquilo, eles no to na cadeia, eles no to usando droga, ento

    no precisa. bem claro pra mim, as letras de rap no Brasil so as melhores letras do mundo, no existe um tipo de letra de rap no mundo igual as que exis-tem no Brasil. Um rap que o cara fala: No rio em que Jesus andou, o homem navegou e matou pela cor. No existe em nenhum lugar no mundo um verso como o homem nasceu com defeito de fabricao, invs do corao uma granada de mo dentro do peito. o tipo de letra que os caras fazem.

    Lcia Rodrigues - O que voc acha dos partidos polticos, hoje?

    Eu no tenho mais pensamento poltico nenhum. Eu acho que absteve, sabe quando voc est can-sado de sexo que vira abstinente? Ainda bem que voc no sabe. Voc no nem um sexo de o ou-tro, voc um ser morfolgico que no tem sexo? a mesma coisa eu na poltica, eu j trabalhei para deputado, j trabalhei para vereador e eu me senti muito mal depois, quando os caras so eleitos, por-que eu vejo que eu no consegui alcanar os objeti-vos dos caras da quebrada que tava com ns.

    Lcia Rodrigues - Para que partido especificamente?

    Era para o PT. Eu sempre trabalhei de graa para o PT, muitos anos. Sempre vendi broche, sempre andei com bandeira na rua, sempre foi de graa, eu nunca ganhei um real, mas teve algumas pessoas do PT com quem eu trabalhei mesmo recebendo e que depois me decepcionou, decepcionou meus amigos e hoje eu tenho algumas pessoas dentro da poltica que eu valorizaria assim, mas que eu acho que tem dilogo, pelo menos comigo assim como amigo. O Eduardo Suplicy, que meu amigo assim pessoal, tambm independente de poltica, o nico que eleito para 8 anos e t l ainda, volta eu ligo para ele, ele vai, os moleques da quebrada ligam, ele vai. o nico presente, na verdade o Suplicy no po-ltico, ele um ser humano.

    Tatiana Merlino - Mas e o PT em si? O que voc se decepcionou com o PT?

    Ah! Eu no sei, eu votei num partido que prome-teu outras coisas, entendeu? No prometeu escn-dalo, no prometeu virar as costas na hora em um julgamento, no prometeu... O PT virou outra coi-sa, no o que eu acreditava no. No estou falan-do que tinha que ser revolucionrio, que tinha que mudar tudo, que todo mundo sair de vermelho, mas era uma coisa que eu acreditava como moleque de favela que a favela ia mudar, entendeu? Mas eu tive que esperar o PCC chegar para mudar a favela, no foi o PT... A sigla foi outra, no foi o PT que mu-dou a favela, ento nessas partes no um gover-no autoritrio ruim, mas tambm no o governo dos sonhos que eu lutei, que eu vendi show, que o Gis morreu na estrada tentando lutar pelo partido, que eu vi muito amigo meu morrendo lutando pelo PT e ficando velho pelo PT, no era isso que a gen-te queria no poder e eu no t falando s do Lula, t falando de todo o partido.

    Lcia Rodrigues - O PCC mudou a favela em que maneira?

    De toda a maneira possvel que voc pensa.

    Lcia Rodrigues - Positivamente?Depende da viso. Tem gente que pensa que

    positivo, tem gente que pensa que negativo. Mas mudou.

    Tatiana Merlino - Voc pode falar um pouco dos dois lados, do lado positivo e do lado negativo?

    O lado positivo que a elite no sabe mais o que a favela, no tem nem noo. O governo no tem noo do que a favela mais, porque outra fave-la, outra coisa... E o lado negativo que a popu-lao sempre vai ser oprimida.

    Tatiana Merlino - O lado positivo outra coisa como?

    No tem como explicar, assim... Mas mudou, eu, por exemplo, quando eu escrevi o Manual Prtico do dio a favela era aqui, agora se eu for escrever sobre a favela agora outra coisa. Por isso eu no escrevo mais sobre a favela, o meu prximo roman-ce no mais sobre a favela, por que eu no fao mais questo da elite saber o que a favela no, no me interessa mais...

    Lcia Rodrigues - Mas mudou exatamente o qu? Explica um pouco melhor.

    Mudou tudo. Mudou a vida criminal, tem regra, mudou tudo o que voc imagina na vida cotidiana da periferia mudou.

    Lcia Rodrigues - um estado paralelo dentro da favela?

    Poder paralelo? No, o poder. Esse negcio de dizer que o poder paralelo, no existe o poder pa-ralelo, o Estado no manda na favela, quem disse que o Estado manda na favela? A PM vai l manda o cara por a mo da cabea e tudo, repudia o cara, mas depois o cara volta a ser da favela, entendeu? Por mais que os caras cerquem um motoboy, cer-quem o cara que est dentro do nibus, bata geral em todo mundo eles vo embora e a favela conti-nua. Ento mudou tudo e vai mudar mais ainda, t em processo de mudana.

    Lcia Rodrigues - Mas houve regras fixadas claras? O que aconteceu?

    H regras fixadas claras e toda uma norma de conduta e de respeito que o Estado nunca conse-guiu impor.

    Renato Pompeu - Quem impe?O crime.

    Otvio Nagoya Para os moleques de dentro voc acha que melhor ou pior?

    Por um lado melhor, por outro lado no. Voc imagina que a gente deixou de viver num estado em que voc pisava no meu p e voc podia levar uma comigo e eu podia te matar; voc podia pisar no meu p e levar uma comigo e eu ter que me segurar e a gente ter que se segurar, mas ao mesmo tempo ns dois estamos regidos por uma fora maior que pode no se segurar, entendeu? Ento voc pensa o que melhor: voc estourar o seu dio ali na hora ou voc viver sob constante ameaa de um dio maior.

    A periferia de So Paulo pode

    a qualquer momento

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  • caros amigos outubro 2009 14

    Tatiana Merlino - Mas morre menos gente?Morre menos gente, porque tem mais tenso.

    Jlio Delmanto - Existe um papel do crime como mediao nos conflitos cotidianos?

    Existe. O crime est em tudo em que o Esta-do nunca teve, o Estado deixou uma lacuna muito grande que o crime cobriu, voc vai na delegacia prestar queixa de um carro roubado voc fica 4 ho-ras sentado, sendo humilhado pelo policial, parece que voc no foi roubado, parece que voc roubou, entendeu? E o crime no. Voc procura o crime ou ele resolve, ou no. Voc no mnimo no fica 4 ho-ras sentado, voc no fica na palavra de ningum, entendeu? Ento, onde no chegou o poder pblico o crime chegou, quando o poder pblico est cui-dando da elite, o crime est cuidando de outra par-te da cidade que dele.

    Hamilton Octvio de Souza - Esse distanciamento j vem de muitos anos, n?

    Para mim a posio bem clara, a mdia tem uma parte de criminalizar toda a periferia, ento a periferia fez um protesto porque morreu uma jovem o trfico que mandou, sendo que no foi o tr-fico que mandou. A elite tem mais medo do povo do que do crime, ento por isso que ela atemoriza todo mundo falando que o crime, por que para ela um jogo.

    Hamilton Octvio de Souza Como voc v essa separao que existe na sociedade brasileira?

    Eu acho que a gente tem toda uma classe que-rendo se inserir e que no vai poder se inserir, no tem espao, no tem organizao. Ento o cara tem acesso agora a comprar um carro importado parce-lado, ele tem acesso. S que ele no tem onde por, no tem garagem, no tem estrutura para por o car-ro. O Governo Lula deu estabilidade para todo mun-do poder comprar um carro parcelado, uma casa parcelada, uma roupa parcelada, mas voc no tem aonde por tudo isso, voc no tem estrutura na que-brada para por tanto carro, os carros ficam no meio da rua, os aougues esto lotados, entendeu? No tem comida boa, todo mundo come na mesma pi-zzaria. No tem estrutura para se viver melhor. No tem estrutura fsica para abranger gente que tem di-nheiro e o que se est dando iluso de que se tem dinheiro, iluso.

    Hamilton Octvio de Souza - E qual a sada para este tipo de coisa?

    A sada clara. A sada ... J comeou a sa-da h algum tempo. A sada t na cara das pesso-as, s no v quem no quer. A sada que o povo j t se mexendo, isso no utopia minha, reali-dade, quando voc v uma favela reagindo, quando voc v um nibus queimando, no o crime, por mais que a mdia queira, quando voc v as pesso-as que esto legitimadas como embaixadores da pe-riferia tendo acesso a dar entrevista, tendo acesso a falar, entendeu? A que a coisa t difcil... Quan-do a gente tem que ser ouvido, que nem eu sou ou-vido, que nem os outros caras do Hip Hop so ou-vidos, os caras da literatura marginal so ouvidos,

    quando a gente ouvido, a voc comea a perce-ber que a gente tem uma importncia e alguma coi-sa t acontecendo, entendeu?

    Lcia Rodrigues - Mas tem alguma articulao? Vocs tem uma integrao entre vocs? Como que se d isso?

    a que a gente tem que ter medo, porque no tem articulao pensada. E quando no tem nada pensado muito mais fcil fazer funcionar. Porque se num organismo por clula eu converso com tal e tal quebrada e organizo um manifesto uma coisa que eu criei, certo? Ou a pessoa de outra quebrada l da Leste criou. Agora quando automtico, quando eu ponho uma notcia de abordagem policial comi-go e todas as favelas mandam email dizendo: isso mesmo, se precisar ns tamos juntos. Voc pega e fala: Opa! Pera, pera! Eu no organizei nada disso mano! E tem gente de todos os lugares tambm, por qu? Porque o cara tambm tomou tapa na cara, o outro tambm foi baleado, ento eu vejo medo na no organizao, entendeu? Por que quando no tem organizao, a a elite tem que ter medo.

    Lcia Rodrigues - Vocs no se sentem representados pela poltica institucional?

    Eu falo tranqilamente em nome da populao, que a populao no tem um ou outro que pode at falar: no, eu voto em tal cara a que presiden-te da cmara, eu voto no tal deputado, eu voto. Por que? Porque ele ganhou. Voc pode chegar nele, trocar idia e ele falar: no, porque este telhado a quem deu foi o cara. Ento tem um apadrinhamen-to. Mas a grande populao revoltadssima com a poltica.

    Tatiana Merlino O que tem de luta? Como que a luta e a resistncia na periferia hoje?

    A luta pelos meios intelectuais e pelos meios de produtos, n? Que lana independente, de fa-zer toda aquela corrente, sabe? De tentar galgar, de aprender a trampar, de aprender a pegar um pa-dro capitalista e mudar ele um pouco para no ser to perverso, tem todo esse lado empresarial que a periferia t pegando e vai pegar porque quando se tem um lder que empresarial a gente vai seguin-do tambm e tem tambm toda uma outra luta que eu te falei, que da populao mesmo, a populao est se conscientizando. O cara sofre, leva tapa, a chuva derruba o barraco dele, a mulher dele aban-donou ele, mas ele no acredita em Deus, entendeu? Ele tinha tudo para se apoiar, ento, de todo tipo ideolgico na periferia se tem: O movimento Punk, o movimento Rock, todo mundo est se organizan-do da sua forma, mano. Entendeu?

    Lcia Rodrigues Como a truculncia da polcia dentro da favela? Atingem indiscriminadamente mes, pais de famlia, crianas, adolescentes?

    Na verdade atinge... Tem vrios tipos de opera-o, depende da operao que tiver. Por exemplo, em Paraispolis o choque, ento mais violen-to, mais forte, na verdade atinge quem suspei-to, se eu tiver cara de suspeito eu t aqui de tou-ca, p, agasalho...

    Lcia Rodrigues - Mas o que ser suspeito?Suspeito ter cara de suspeito. ter cara de fa-

    vela...

    Tatiana Merlino Ento todo mundo suspeito, n?

    No, vocs aqui no, vocs passam batido l. Se ps uma touca mais suspeito... Ou seja, todo mo-rador suspeito, voc t andando ali, o cara te para: voc t indo aonde? Mas qu, que o qu? Voc do trfico. Tipo um amigo meu tava andando com um caderno que a gente tava escrevendo um conto junto e ele foi parado esses dias e o cara perguntou: Esse caderno o do trfico? Entendeu? Ele falou: P! Me respeita mano, eu t escrevendo, eu sou es-critor, mas o caderno o do trfico. Entendeu?

    Jlio Delmanto - uma violncia cotidiana que voc, que os seus amigos sentem. O que isso gera na vida de uma pessoa?

    Isso vai gerando. O dia que os caras enquadra-ram a gente, eu e todos os lderes do hip hop ao mesmo tempo, vai gerando que a populao toda se juntou e falou: Ei que isso a? Vai tumultu-ar os moleques? Os moleques to s conversando. E a gerou que os prprios polcias ficaram baten-do rdio um pro outro dizendo: Meu, esto tudo junto aqui e alguma coisa eles vo fazer. E a gera que fica todo mundo com medo, cara. Eles tam-bm tm medo.

    Otvio Nagoya - Voc acha que o que aconteceu em Helipolis processo de que o povo no vai aguentar mais ser agredido assim?

    , eu tenho certeza absoluta do que eu vou te fa-lar, vai chegar um dia que uma agresso a um me-nino ou a uma menina vai virar uma revoluo em So Paulo inteira e So Paulo no vai se controlar vai pegar fogo So Paulo inteira. Uma agresso. Vai chegar num momento que um cara vai tomar um tapa na cara que vai despertar o dio de todo mun-do de todas as quebradas e a haja mentira para a mdia mentir. Porque eu quero ver o que ela vai fa-lar. Isso no criminal, estou falando de populao, a populao no aguenta mais, quando se chega a um nvel que a me fala pro filho: vai filho, corre seno a polcia vai te pegar, corre l para dentro, a voc v que a criana j est crescendo j em esta-do de, entendeu?

    Barbara Mengardo - E voc acha que est chegando essa hora?

    Eu acho que a gente no vai saber o timing dela no. Quem t na favela vai sentir, eu senti os aten-tados 3, 4 meses antes, fiz at um artigo para a Ca-ros, porque voc sente o clima. T muito tranqilo mano, t muito na moral, t muito... Muito... En-tendeu? Meu, pensa voc morar em um lugar e do nada chega uma fora tarefa, todo mundo de pre-to, com fuzil na mo, xingando criana, xingando dona de casa, revirando tudo as casas, revirando tudo e no explica nada e vai embora. Treinamen-to, cara, sabe, o cara pega o batalho dele e vai trei-nar na sua favela, mano.

    Lcia Rodrigues - Voc disse que de repente

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  • 15outubro 2009 caros amigos

    um tapa na cara vai gerar uma insatisfao to grande que as pessoas vo se levantar, o que isso? Uma inressurreio, uma revoluo, o que vem depois?

    No, incalculvel, no d para responder. A eu ia ser profeta se eu falasse para voc. Isso no tem como responder porque impensvel, a populao, a massa ela pensante de uma forma totalmente diferente da minha, eu sou intelectualide demais para a massa. Eu t dentro da quebrada, eu respiro a quebrada, mas ao mesmo tempo eu leio Dostoie-vski na minha casa, ento outro pensamento, en-tendeu? Eu faria queimar as lanchonetes america-nas, o povo vai onde primeiro achar, vai nos postos de sade, no bar mais pobre e quebra tudo, enten-deu? outro ponto de vista, no tenho legitimida-de para ter o pensamento certo sobre esta respos-ta, tendeu?

    Tatiana Merlino O povo vai esperar morrer uma menina? Quando? Como?

    Pelo que eu acho, as pessoas vo ativar quan-do tiverem que ser ativadas, s vai acontecer quan-do tiver que ativar, se tiver que morrer 100 pesso-as no vai ser ativado, mas se tiver que morrer um vai. mais problema do que uma simples resposta, entendeu? mais problemtico resolver isso, que uma simples resposta.

    Lcia Rodrigues - O PCC funciona de que maneira? por a que vai vir a articulao ou no?

    Tem nada a ver com criminal, chega uma po-ca na nossa vida que o povo povo e crime crime,entendeu? Por mais que o crime seja do povo, povo povo e crime crime, trabalhador traba-lhador e criminoso criminoso. Ento a articula-o vem do povo, muito mais perigoso do que o crime.

    Lcia Rodrigues A populao respeita mais o PCC ou a polcia?

    A populao tem medo da polcia, entendeu? Respeita mais o PCC ou admite mais o PCC, tem mais medo da polcia. De uma certa forma a pol-cia causa mais medo.

    Hamilton Octvio de Souza O que se faz para vencer o medo?

    Medo no se vence. Medo vira dio, as pessoas esto odiando tudo por causa de medo, medo vira dio. Todo mundo t com dio, j apanhou demais, j sofreu demais, muita coisa contra, entendeu? No tem muita semente de esperana no para o cara, vira s dio, e dio se faz de vrias formas, quando voc v um cara estourando com a mulher dele em casa, aprisionando ela, ela refm dele, no cime no, dio. Quando voc v um assal-to a uma lotao virar uma chacina, dio. Quan-do voc v os policiais chegando na quebrada ma-tando um monte de gente porque no sabe quem comando e quem no , dio... Tudo explo-so de dio, a esperana no sobrevive a nada dis-so no, entendeu?

    Jlio Delmanto - Voc falou do papel da

    polcia e o papel do sistema prisional a nessa histria?

    Se acha que ser preso d medo? Dava medo, mano, dava medo. Se eu for preso hoje vou ser ben-quisto aonde eu for. O cara a que t l na quebrada, j foi motivo de medo, por mais que a cadeia seja cruel, ou no tenha comida decente, tendeu? ou-tra coisa a cadeia, mudou. A nica arma do Estado de pnico ela foi neutralizada j, h muito tempo.

    Marcelo Sales - Voc escreveu em um dos seus textos que voc buscador de autoestima e incentivador de dio. Por que incentivar o dio?

    Porque as pessoas tm que odiar da forma odio-samente correta. Tem que odiar o certo, para gente parar de pisar no p do outro a gente precisa pisar no p do cara certo. Eu falo que sou incentivador do dio do caos moderno.

    Tatiana Merlino - Para transformar?Para transformar tambm, para destruir, para

    crescer, para regenerar, para nascer de novo. Para mim levantar uma bandeira de paz de um lado eu tenho que levantar uma bandeira de dio do outro, a Bblia ensinou isso para gente. O senhor das ba-talhas que foi Jesus Cristo ensinou isso para gente voc levanta uma espada na mo para poder coor-denar a massa para um certo tipo de guerra.

    Lcia Rodrigues - Que tipo de dio?dio que volta, que no s vem. Tem que ter

    dio que volta, o cara tem que pegar um nibus e na hora que trombar com um boy desses a e o boy falar: T, toma, estaciona meu carro. P! Cara eu

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    no sou manobrista no, pega a sua chave e enfia naquele lugar. E no abaixar a cabea e falar: No senhor, eu no sou manobrista. dio que volta, eu t cansado de dio que vem, entendeu? T cansado de entrar em um lugar e o cara falar: O qu o senhor deseja? Mas voc no parou ningum, numa livra-ria voc vem parar logo eu, ningum voc parou. No, mas eu t perguntando o qu o senhor dese-ja. A o cara comea a te seguir pela loja, mas no segue ningum, isso enche o saco... Uma hora isso enche o saco, entendeu?

    Renato Pompeu - Quando voc escreve fico tem em mente o pblico da periferia ou o pblico de fora da periferia?

    Eu escrevo para periferia mano, quem l de fora bastardo. Eu s escrevo para a periferia, toda vez que eu escrevo um conto eu penso: O moleque vai entender? Vai. Ento...

    Tatiana Merlino - E como popularizar a literatura na periferia? Quanto custa um livro seu?

    Ento, meus livros custavam o preo de edito-ra normal at esse ano. Eu sempre busquei acordo com as editoras para sair mais barato, nunca teve resposta, no tem jeito. O mercado no aceita, ento eu montei um selo chamado selo povo que a par-tir desse ms j sai um dvd e vai sair um livro ago-ra a cinco reais. Por enquanto t cinco reais esse novo livro meu, e a todo mundo pergunta: Como que voc vai fazer a cinco reais? Meu, o autor j no ganha nada, ento pra mim no ganhar nada a mesma coisa. Ento eu fao por convico e no

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  • caros amigos outubro 2009 16

    fao por dinheiro, ento eu t pagando do meu bol-so essa edio e a editora vai lanar vrios autores tambm a cinco reais.

    Renato Pompeu - Voc sente que a sua fico repercute de forma diferente na periferia do que repercute fora da periferia?

    Totalmente diferente, totalmente. O cara de fora como se fosse uma coisa extica, ento cara fala assim: Porra, mas naquele conto dos crentes, muito loco, dei risada demais, mano. Aquela parte l que o cara troca idia na igreja, tal. Para voc v como que interessante como que o crente pode falar gria? Ento voc tem uma introspeco fora, den-tro no, os moleques falam: Nossa, Frrez, aquela parte que o crente fala gria com o outro muito louco, por que eu tava na igreja e a mesma coisa o demnio no saiu, ele t l dentro o demnio e a gente fala que o demnio nessa igreja no sai, essa igreja m pilantra. Ento voc v que outro tipo de entrar, entendeu?

    Renato Pompeu - Quando voc cria fico que peso voc d para a forma e contedo?

    Eu sempre tento achar que aquele conto ele tem um sentido no mundo, por que se ele no tiver um corpo no basta escrever ele. Ento eu j escrevi his-tria que ela era vazia de alma, a histria tinha um puta dilogo e tal, mas vai chegar aonde? Entendeu? Eu tenho muita vontade de escrever sobre ser huma-no, entendeu? Favela, clausura, regime semiaber-to, fechado. Eu gosto muito de focar o ser-humano tambm, os sonhos e a vida de ser-humano.

    Marco Zibordi - Queria que voc dissesse o que a literatura marginal.

    Literatura marginal, meu muita coisa, mas o rap da literatura, literatura marginal os mole-ques escrevendo direto. Literatura marginal os mo-leques fizeram dia desses, bateram o rdio pra mim: A mano, tem um amigo meu que t escrevendo uns bagulho e quer saber como ele te manda, uns ba-gulho escrito para ti, que ele t fazendo umas para-das escritas, uns textos, uns bagulhos velho l e ele quer te mandar. A quando voc vai ler voc fala: Caralho meu! Bom para caralho! Literatura margi-nal um cara chegar pra ti e falar: O tio, eu t es-crevendo uns contos a, p, uns textos e eu queria ver como que faz para lanar. Literatura marginal a gente trocar idia com moleque, literatura mar-ginal a minha paixo de onde eu tiver eu conven-cer algum pela literatura, eu nunca deixei de ser apaixonado pelo que eu fao.

    Lcia Rodrigues - Voc j pensou em ser poltico? Por que este trabalho que voc faz de um vereador, de um deputado que vai acompanhar a rea que ele tem atuao. Voc j pensou alguma vez em se candidatar?

    Meu, pra mim o poltico ele que nem um cara andando armado, ele est mal intencionado. No tem jeito, se eu virar poltico vo me dar um car-ro com placa preta, vai me dar o conforto de umas passagens de avio, vai me dar uns bagulhos que para anestesiar. Prefiro ficar na literatura, na ver-dade esse bagulho poltico quando eu comeo a fa-

    lar muita gente fala, eu acredito que eu sou poltico desde que eu nasci, eu fao poltica tambm, mas de certa forma a minha hombridade no patenteada pelo Estado, o Estado no me d nada.

    Felipe Larsen - Mas j te convidaram alguma vez?

    J me convidaram, j teve reunies que j me chamaram, que falaram que meu nome foi cotado. Tambm, mas outros partidos tambm de esquerda e um partido de direita tambm chegou a me convi-dar. Chegaram a me convidar e na reunio eu falei no tambm, e falei que no tinha interesse.

    Lcia Rodrigues - Voc no acha que partido de direita inimigo dessa populao que mora na periferia?

    Acho que todo poltico inimigo, mano, j vi-rou uma coisa. medida que um cara v uma desa-propriao dessa, o cara no cola, o cara no ajuda, ele v uma polcia dessa ostensiva que ele no aju-da, no tem PT, inimigo, entendeu? Quando sur-giu uma emergncia no Rio eu no esqueci o que o Lula falou, o Lula falou que tem que ter uma repres-so maior a esse pessoal a, ele falou isso, morreram quantas pessoas no morro? As pessoas que tinham votado nele morreram no morro, quando um diri-gente fala em pblico que tem que ter uma repres-so maior nisso, ele sendo de esquerda ou de direi-ta, esse cara responsvel pelas mortes das pessoas que vo morrer ali.

    Andr Hermann - A igreja evanglica tambm um tipo de droga na periferia?

    A igreja evanglica uma coisa maravilhosa, os pastores tm um trabalho comunitrio que uma

    piada, o cara est vendo o caos ali, mas o cara uma criatura, mas ele est sofrendo pastor, acabou de levar um tiro, no deixa ele, que ele criatura, ele est no mundo das drogas, no vamos nos in-trometer com esse povo, com essa raa, porque ns somos de Deus. Eu vejo essa distncia, eu vejo que a igreja evanglica podia fazer um trabalho muito maior e no faz, e quando faz, faz show.

    Andr Hermann - E as igrejas catlicas?As igrejas catlicas tm um trabalho comunit-

    rio mais forte, ela faz um mapa do cara que t sem uma comida e manda, o padre organiza uma quer-messe. Eu vejo muito o trabalho da igreja catlica em lugares que no chega nada, eu no estou de-fendendo a igreja catlica, por que ela deve pra ns a vida toda tambm, mas tem um trabalho ali que mais conciso com a comunidade, como o padre est sempre dentro da comunidade, no est via-jando de jatinho que nem os pastores, o padre est ali fazendo um trampinho ou outro. A diocese fun-ciona, entendeu?

    Tatiana Merlino - Voc ateu?Eu no sou ateu por que eu no li a bblia dos

    ateus, eu estou procurando essa bblia faz um tem-po, entendeu? Mas eu no sou ateu, no sou agns-tico, no sou nada disso, eu sou s um ser-huma-no que escreve.

    Tatiana Merlino - Voc acredita em Deus?Eu queria que ele acreditasse em mim, verda-

    de. Como eu ainda no sei se ele acredita em mim, eu ainda no posso dizer que acredito nele. Mas se ele acreditar em mim eu comeo a acreditar nele, porque a a gente vai se entender.

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  • 17outubro 2009 caros amigos

    Est provado: Deus existe.E no foi preciso discusso mstica nem pro-

    va cientfica, nada. Um belo dia o cu se cobriu de nuvens escuras e quando todos pensavam que mais um temporal ia parar So Paulo, um mon-te de anjos com espadas de fogo e outros ape-trechos bblicos desceu do cu, interrompeu o William Bonner e anunciou: , Deus vem a fa-lar com vocs.

    E Ele veio. E falou pras tevs do mundo todo, pra no dizerem que estava privilegiando essa ou aquela emissora. E recordou os seis dias em que criou o universo. semaninha agitada! E se lem-brou das conversas com Ado e Eva (evitem coi-sas com M: ma, maconha...). E rememorou sua fase minimalista, quando escreveu os mandamen-tos. E ainda os conselhos que deu a Jesus (se be-ber na ceia, no dirija!), a Santa Inquisio... No, esse pedao Ele pulou. E foi logo pro motivo de sua vinda.

    E Deus disse com todas as letras que est de saco cheio da humanidade. J enviara dicas, in-diretas, sinais, mas nem com o tsunami que man-dou h cinco anos a gente se tocou. Agora, ou to-mamos jeito ou Ele vai levar todas as formas de vida pra Marte e recomear por l, sem a gente por perto pra atrapalhar.

    Nem a morte de Jesus repercutiu to fundo na humanidade. Todos querem se converter. Deus gostou, mas surgiu um problema: para qual reli-gio? E os lderes religiosos correram pra falar pes-soalmente com Ele. Mas na porta do Hilton onde Deus e sua comitiva se hospedaram, j estavam polticos de todo o planeta fazendo fila pra tirar foto com o Todo Poderoso. E corria o boato que na sute divina representantes da Disney, da Micro-soft, da Coca-Cola e da Nokia apresentavam suas ofertas para patrocinar Deus.

    Mas um anjo que saa pelos fundos do hotel teria dito ao William Bonner que Deus no est mais entre ns e foi visto se reunindo com castores, golfinhos e outros animais e mandando eles construrem uma arca.

    Era dezembro de 2001 e entrevistvamos, aqui na Caros Amigos, Luiz Marinho, ento presiden-te do Sindicato dos Metalrgicos do ABC, ex minis-tro da Previdncia do governo Lula e atual prefeito de So Bernardo do Campo, no ABC paulista. A entrevista foi boa (Caros Amigos, edio 57) e confirmou o bom preparo poltico e intelectual que tm os sindicalis-tas formados nos embates sindicais dessa regio al-tamente industrializada.

    Como bem conhecido, Marinho um pupilo di-leto do presidente Lula e um discpulo de trajetria parecida. Comeou no sindicalismo e passou para a poltica.

    Certa altura, perguntei ao entrevistado o que achava da frase do senador Fernando Henrique Car-doso em seu discurso de despedida do Senado, afir-mando que sua principal tarefa como futuro presi-dente seria desmontar o estado Varguista. Marinho respondeu: eu tambm sou contra o estado Varguis-ta. Assim de chofre fiquei um tanto surpreso, mas logo me dei conta que essa resposta era coerente com a formao dessa gerao de sindicalistas, bem como com a formao terica e poltica no PT.

    Ressalvo que Marinho deveria estar se referindo principalmente estrutura sindical montada por Var-gas, em particular a contribuio sindical obrigatria e a unicidade na base territorial.

    Feita a ressalva, retorno ao meu tema. O pri-meiro programa do PT foi muito influenciado pela esco-la uspiana de sociologia, com seu representante mais vistoso, o socilogo Francisco Weffort, que por anos presidiu o PT e se bandeou para o PSDB, assumindo o Ministrio da Cultura no primeiro governo de FHC.

    Quando fiz histria na USP, final dos anos 70, os alunos das cincias humanas aprendiam que Vargas foi um ditador populista que aparelhou os sindicatos, criou a pelegagem, outorgou uma constituio fascista ba-seada na Carta del Lavoro, do fascista Benito Mussolini e por a vai. Tambm aprendamos que qualquer refe-rncia defesa dos interesses nacionais, de um proje-to de pas independente e de luta anti-imperialista era um discurso atrasado, j que a luta de classes era entre patro e empregado e defender os interesses nacionais era, no fundo, escamotear a luta de classes.

    Bem, fato que de 1937 a 1945, no Estado Novo, Vargas governou como ditador, aparelhou os sindica-tos, vicejaram os grandes pelegos, e, com a polcia de Filinto Mller, prendeu e torturou militantes polti-cos. Tudo isso foi execrvel. Mas esquecer que o Bra-sil e o Estado tal qual hoje o conhecemos foram uma criao do Vargas, e que, para milhes de trabalhado-

    Nacionalista, eu

    Wagner Nabuco

    Wagner Nabuco historiador.

    res e pobres, houve avanos reais, isso sim uma mis-tificao histrica. As realizaes foram muitas, cito as mais importantes: a criao da Petrobras e a lei do monoplio do petrleo, a Eletrobrs, a consolidao das leis trabalhistas (a sonhada carteira de trabalho), a siderurgia nacional, a Vale do Rio Doce, a taxao dos lucros das multinacionais, o salrio mnimo nacio-nal com aumentos reais e muito mais.

    Mas em So Paulo , ncleo duro do conservado-rismo nacional, nada disso vale. Os paulistas, influen-ciados por sua elite retrgrada, at hoje no se refi-zeram da derrota de 1932. Alis a famlia Mesquita, representante dessa elite, dona do Estado e funda-dora da USP foi uma das mais importantes articula-doras do levante derrotado de 1932.

    Relembro tudo isso guisa do discurso do presidente Lula, quando do lanamento do novo mo-delo de explorao do petrleo na camada do pr-sal. No esperava tanto. certo que nos ltimos dois anos, c e acol, apareceram falas do presidente que se aproximam do discurso do trabalhismo histrico, teorizado por gente do naipe de Darcy Ribeiro e Al-berto Pasqualini.

    Parece que os embates do dia a dia do governo que Lula presenciou e, como brasileiro que veio l dos fundes, apaixonado pela nossa gente, mas acima de tudo um homem pragmtico, o levaram a repensar suas originais influncias tericas (surgimento do PT) e a aproxim-lo de um discurso e aes que ressaltam a necessidade de um projeto nacional independente. A palavra soberania no causa tanta estranheza nas fa-las do presidente e de petistas histricos.

    Alvssaras. Aos demotucanos e pendurica-lhos, herdeiros do moralismo cabotino udenista, as vi-vas chorosas de Carlos Lacerda, Bilac Pinto, Eduardo Gomes, Roberto Campos, Sandra Cavalcanti, defenso-res do nosso alinhamento aos Estados Unidos e para sempre produtores de commodities, resta apresen-tar e disputar no voto um projeto alternativo de go-verno, Estado e nao. Se continuarem na velha can-tilena moralista, antiga desde 1945, sero atropelados no processo de desenvolvimento do nosso pas. Ou, para repetir um clichezo: seu destino poltico ser a lata de lixo da histria.

    PS: Depois de escrito esse artigo, o acordo estrat-gico entre Brasil e Frana para defesa nacional, com transferncia ilimitada de tecnologia e a recente en-trevista que Lula deu ao jornal Valor Econmico refor-aram minha impresso aqui descrita.

    Cesar Cardoso

    Cesar Cardoso escritor e tem o blog PATAVINAS (www.cesarcar.blogspot.com)

    Ei, voc viu DEUS por a?

    Cesar Cardoso escritor e tem o blog PATAVINAS (www.cesarcar.blogspot.com)

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  • caros amigos outubro 2009 18

    Lcia Rodrigues

    o acordo firmado entre a CUT, Fora Sindi-cal, CGTB, UGT e o governo federal, e que deve ser aprovado em breve na Cmara dos Deputados, ficou aqum das expectativas dos apo-sentados brasileiros. A deciso contestada pela Cobap (Confederao Brasileira de Aposentados e Pensionistas), que no reconhece nas centrais sindi-cais legitimidade para fechar acordos em nome dos trabalhadores aposentados com o Executivo. Que-remos que os projetos do senador Paulo Paim (PT-RS) que vo votao, destaca o presidente da Cobap, Varley Gonalves.

    O senador petista tem sido o principal aliado dos aposentados no Congresso Nacional. So de autoria

    dele os projetos de lei que preveem o mesmo percen-tual de reajuste para os beneficirios que recebem acima do salrio mnimo e os que ganham o piso. Paim tambm quer extinguir o fator previdencirio, mecanismo que achata o salrio do trabalhador em at 40% no momento em ele que sai da ativa. O par-lamentar tambm est empenhado em aprovar uma emenda Constituio que veta o bloqueio ou con-tingenciamento das dotaes oramentrias desti-nadas seguridade social pelo Executivo.

    Os trs mecanismos que penalizam milhares de aposentados foram introduzidos no cenrio nacio-nal pelo governo do ex presidente Fernando Hen-rique Cardoso, na dcada de 90. A proposta acor-

    dada entre as quatro centrais sindicais e o governo Lula atenua as perdas causadas ao longo dos anos pela administrao tucana, mas mantm distores ao no garantir a isonomia no percentual de rea-juste dos vencimentos entre os aposentados que re-cebem acima do salrio mnimo e os que ganham o piso salarial.

    O teto das aposentadorias pagas pelo Ministrio da Previdncia Social aos segurados do INSS de R$ 3.218, 90. Em julho, o Ministrio pagou benefcios previdencirios a 23.213.354 segurados, dos quais 14.401.629 (62%) receberam o salrio mnimo.

    Pelo acordo, a partir de 2010 os aposentados que recebem at um salrio mnimo tero o benef-cio corrigido pela variao de 100% do crescimen-to do PIB (Produto Interno Bruto) de 2009, alm da reposio da inflao. J para os aposentados que ganham acima do piso, o ndice de reajuste em re-lao ao PIB cai pela metade.

    O dirigente da Confederao um dos inmeros brasileiros que teve os benefcios previdencirios reduzidos ao se aposentar em funo do fator previ-dencirio. Era para eu ganhar o teto, mas s rece-bo R$ 1.400, lamenta. Varley se aposentou h seis anos aps ter trabalhado por trs dcadas na mesma empresa. As condies de insalubridade permitiram que ele se aposentasse pela legislao especial.

    Acordo firmado entre centrais sindicais e governo Lula atenua prejuzos, mas mantm distores. Proposta deve ser votada ainda este ano na Cmara dos Deputados. Novas regras devem entrar em vigor em 2010. Ilustrao Aldo Gama

    PREVIDNCIAGoverno mantm perdas para 38% dos aposentados

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  • 19outubro 2009 caros amigos

    Ele teme que a manuteno de um ndice dife-renciado de reajuste entre os segurados provoque, em alguns anos, uma forte concentrao de apo-sentados na faixa de um salrio mnimo. A ten-dncia que daqui a algum tempo todos passem a ganhar o salrio mnimo, endossa o temor, o se-nador Paim.

    A deciso acordada entre as quatro centrais sin-dicais e os representantes do Executivo, alm de perpetuar a distoro no reajuste dos vencimentos desses aposentados em funo da manuteno de percentuais diferenciados, tambm estabelece clu-sulas de barreira que condicionam o acesso dos tra-balhadores aposentadoria. Ao extinguir o fator previdencirio, fixa novas regras que criam o fa-tor 95/85.

    Se aprovada a proposta pela Cmara, os traba-lhadores que quiserem se aposentar vo ter de cum-prir uma clausula de barreira especificada por uma frmula que associa idade a tempo de contribuio previdenciria. A nova regra fixa que para se apo-sentar com o valor integral do salrio, o homem de-ver ter completado 60 anos de idade e contribudo por 35 anos com a previdncia social. Para as mu-lheres, o tempo de contribuio fixado fica em 30 anos conjugado idade mnima de 55 anos.

    A atual regra vigente do fator previdencirio ba-liza o clculo para se chegar ao valor do benefcio a que o segurado ter direito, em uma frmula mate-mtica que leva em considerao a idade, alquota e o tempo de contribuio no momento da aposen-tadoria, associada expectativa de vida, prevista na tabela do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica). As mulheres so as maiores penaliza-das pela regra atual, em funo da expectativa de vida delas ser superior a dos homens.

    Quintino Severo, secretrio geral da CUT, uma das quatro centrais signatrias do acordo, justifica a deciso argumentando que o governo federal ve-taria a proposta de reajuste isonmico para todos os aposentados. Defendemos que o reajuste dos apo-sentados no pode imobilizar a reposio do sal-rio mnimo. O governo disse que era impossvel dar o mesmo ndice de reajuste para todos os aposen-tados, argumenta.

    A tese defendida pela Central contestada pelo senador Paim. A CUT nesse caso foi mais conser-vadora que o Senado, que considerado uma Casa conservadora, alfineta. O petista considera que as centrais deveriam centrar fogo na presso em cima dos parlamentares, com mobilizaes populares, pela aprovao dos projetos de sua autoria que j foram chancelados no Senado.

    Outra crtica que o senador tece em relao manuteno da DRU (Desvinculao de Receita da Unio) pelo Executivo para a dotao orament-ria da seguridade social, onde esto abrigados, alm dos recursos destinados previdncia social, tam-bm os das reas de assistncia social e da sade. O mecanismo admite o desvio de at 20% das recei-tas da dotao destinadas ao pagamento dos bene-fcios previdencirios, para qualquer tipo de gasto que o governo venha a ter. O pagamento de juros um dos itens para os quais os recursos da previ-dncia tm sido direcionados.

    O ministro da Previdncia Social, Jos Pimentel,

    foi procurado pela reportagem da Caros Amigos, por intermdio de sua assessoria de imprensa, para comentar as questes, mas no se pronunciou.

    O desvio de recursos previsto pela DRU foi pos-svel devido legislao aprovada na gesto do tu-cano e mantida intacta na do presidente Luiz Incio Lula da Silva. O governo Lula chegou a cogitar do-brar o seu percentual. Em 2005, quando se discu-tia a tese do dficit nominal zero defendida por An-tonio Palocci e Delfim Netto, o governo pensou em elevar o percentual para 40%, relembra o professor da Economia da Unicamp, Eduardo Fagnani.

    O docente especialista em polticas pblicas e em particular em previdncia social. Defensor da Constituio de 1988, ele explica que as conquis-tas asseguradas pela Carta Magna na rea da segu-ridade social representaram avanos importantes e que, por isso, sempre estiveram na mira do pensa-mento conservador.

    O texto constitucional brasileiro seguiu o mo-delo previdencirio dos pases da OCDE (Organiza-o para Cooperao e Desenvolvimento Econmi-co) que rene as naes mais industrializadas do mundo. O modelo desenhado pelos constituintes baseou-se no princpio da solidariedade. Por isso, foi possvel garantir, por exemplo, que os traba-lhadores rurais tivessem assegurado o direito ao re-cebimento de aposentadoria, apesar de no terem contribudo com o fundo.

    MItos NEolIbERAIs

    Ao contrrio do que tentam fazer crer os neo-liberais, ao propagar a falsa ideia de que a Consti-tuio de 1988 criou direitos sem prever fontes de arrecadao para o seu sustento, o artigo 195 da Constituio Federal derruba essa falcia, ao dis-por sobre o estabelecimento de uma cesta de re-cursos para financiamento da seguridade e conse-quentemente para o pagamento dos benefcios a aposentados e pensionistas. A afirmao dos ne-oliberais de que a Constituio de 88 s criou des-pesas, sem fontes de receita, outra mentira, afir-ma Fagnani.

    Antes da promulgao de 1988, os recursos que bancavam a previdncia social vinham basicamen-te da contribuio sobre a folha de pagamento em que patres e empregados participavam com per-centuais distintos, alm da presena do governo. Com a promulgao da Carta Magna foram cria-das contribuies especficas para subsidiar o or-amento da seguridade social como, por exemplo, Cofins (Contribuio para o Financiamento da Se-guridade Social), CSLL (Contribuio Social sobre Lucro Lquido).

    Fagnani conta que a elite no digeriu at hoje os avanos previstos na redao constitucional. A questo de fundo que nunca admitiram um mo-delo que pega 8% do PIB e vincula seguridade so-cial. A classe dominante e seus interlocutores, como a imprensa, queriam que esse percentual estivesse disponvel para o governo pagar juros da dvida.

    O senador Jos Sarney (PMDB-AP), poca pre-sidente da Repblica, afirmou em cadeia de rdio e televiso, pouco antes dos constituintes promulga-rem a Carta Magna, que se o texto proposto fosse aprovado pelos parlamentares tornaria o pas ingo-

    vernvel. A tese advogada por Sarney era a de que os avanos sociais previstos na redao constitu-cional levariam o Brasil insolvncia.

    O objetivo da elite, verbalizado e expresso na fala de Sarney, era justamente o de conter os avan-os sociais previstos na redao do texto constitu-cional, mais especificamente no que tange ao cap-tulo que dispe sobre a seguridade social.

    A partir de ento a voz conservadora no ces-sou os ataques s conquistas asseguradas, ao mes-mo tempo em que defende a necessidade de se re-formar previdncia social brasileira. O principal argumento utilizado para justificar a reforma o de que a previdncia deficitria. O docente da Uni-camp contesta essa verso. Quando se fala que a previdncia tem dficit, se mente luz da Consti-tuio. uma atitude no mnimo leviana, frisa. O senador Paim refora os argumentos de Fagnani. Nos ltimos 10 anos a seguridade teve supervit de R$ 400 bilhes. S no ultimo ano o supervit foi superior a R$ 50 bilhes, destaca o petista.

    Os neoliberais, no entanto, insistem em afirmar que ocorreu o crescimento da despesa. A tese recha-ada por Fagnani. Para o economista da Unicamp, o X da questo reside no fato de que o mercado de tra-balho ter sido comprimido ao longo de duas dcadas e meia e na ausncia de crescimento econmico.

    Tivemos 25 anos de estagnao econmica. O problema da previdncia no de despesa, mas de receita, de arrecadao. E arrecadao depende do qu? Depende do crescimento da economia, do mercado de trabalho, de carteira assinada. Duran-te 25 anos nossa taxa de crescimento foi em mdia de 1,8%, conta. Ele considera que a segunda ges-to do presidente Lula melhorou significativamen-te o crescimento econmico do pas.

    Todo o pensamento neoliberal se apoia em mi-tos, falsas verdades e no senso comum. Essa ideia que se criou, no tem nenhuma sustentao. uma mentira. Para o professor, h uma jogada por trs desse discurso crtico em relao previdncia so-cial nos anos 90. Queriam abrir o mercado ao ca-pital privado, alerta.

    Os bancos e as seguradoras so os principais be-neficirios dessa estratgia. A criao de um teto para as aposentadorias previstas no regime geral de previdncia social tambm serviu a esses interesses. Quando se cria um teto, se abre um enorme espao para os grandes bancos internacionais e nacionais avanarem. Por isso, detonam. Agem ideologica-mente, porque esto de olho nesse filo, adverte.

    A reforma realizada no final dos anos 90, pelo governo do ex-presidente Fernando Henrique Car-doso, alm de mexer na previdncia dos trabalha-dores cobertos pelo INSS, pavimentou o caminho para os banqueiros, ao regulamentar os planos de previdncia privada. O estabelecimento de um teto para os benefcios pagos pelo INSS induziu milha-res de trabalhadores a buscarem uma previdncia privada, para complementar a renda.

    O governo Lula tambm prosseguiu com a regu-lamentao dos planos de previdncia complemen-tar fechados, nos quais os sindicatos podem gerir e incentivar seus scios a aderir a esses planos de previdncia privada, que tambm contribuem com a movimentao da ciranda financeira.

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  • caros amigos outubro 2009 20

    Lcia Rodrigues jornalista.

    Me aposentei com nove salrios mnimos e hoje recebo dois...

    O metalrgico Antonio Valeri trabalhou 35 anos antes de se aposentar. Poderia ter sado da ativa an-tes, em funo da aposen