ed. 150 - revista caros amigos

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Capa Virginia Fontes

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  • ano XIII nmero 150 setembro 2009R$ 9,90

    ano XIII ano XIII ano nmero 150 nmero 150 nmero setembro 2009setembro 2009setembroR$ 9,90

    Novo stio: www.carosamigos.com.br

    ENTREVISTA EXCLUSIVA

    JOS ARBEX JR. A OFENSIVA MILITAR IANQUE NA AMRICA LATINA

    MARIA DA PENHA LEI REDUZIU VIOLNCIA CONTRA AS MULHERES

    Virgnia Fontes

    RENATO POMPEU O QUE EST POR TRS DA GRIPE SUNA

    IMPOSTOSPOBRES PAGAM MAIS DO QUE OS RICOS

    PRA QU SENADO?CONHEA AS OPINIES DE MARCO AURLIO GARCIA WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS CHICO DE OLIVEIRA JOS DIRCEU JOO PEDRO STEDILE WALDEMAR ROSSI

    ANA MIRANDA CESAR CARDOSO CLAUDIUS EMIR SADER EDUARDO SUPLICY FERRZ FIDEL CASTRO FREI BETTO GERSHON KNISPEL GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS GLAUCO MATTOSO GUILHERME SCALZILLI GUTO LACAZ HAMILTON OCTAVIO DE SOUZA JOO PEDRO STEDILE JOO ROBERTO RIPPER JOEL RUFINO DOS SANTOS JOS ARBEX JR. LATUFF LCIA RODRIGUES MARCELO SALLES MARCOS BAGNO MARILENE FELINTO MC LEONARDO RENATO POMPEU TATIANA MERLINO

    A LUTA POPULAR HOJEDEVE SER ANTICAPITALISTA

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  • 7setembro 2009 caros amigos

    A mdia de direita tem feito um enorme carnaval com a suposta cri-se do Senado Federal, as maracutaias do velho oligarca Jos Sarney, os eternos esquemas de corrupo e sobre as posies dos aliados dos senadores peemedebistas no interior do atual governo.

    Como sempre ignora a anlise mais cuidadosa do prprio desgaste tico da representao liberal-burguesa, que importante instrumen-to de sustentao do sistema que privilegia o capital e expropria con-tinuamente os trabalhadores e o povo brasileiro.

    A entrevista da historiadora e professora Virgnia Fontes, da Uni-versidade Federal Fluminense, para a revista Caros Amigos, procura suprir, em anlise aprofundada, exatamente os aspectos mais canden-tes do jogo poltico e os interesses nem sempre revelados daqueles que lucram com o processo de concentrao da riqueza.

    Ouvimos tambm Marco Aurelio Garcia, Wanderley Guilherme dos Santos, Chico de Oliveira, Jos Dirceu, Joo Pedro Stedile e Waldemar Rossi, sobre essa crise parlamentar, quais so os interesses de fundo e o que fazer com o Senado Federal.

    Outra reportagem mostra que a carga tributria no Brasil mal dis-tribuda, recai sobre os trabalhadores e sobre o consumo, enquanto a propriedade e a riqueza so pouco taxadas. Estudos do IPEA revelam que os pobres pagam muito mais do que os ricos.

    Alm de inclur matrias sobre a ofensiva militar dos Estados Uni-dos na Amrica Latina e sobre a gripe suna (origens e interesses), a revista apresenta um balano de trs anos de vigncia da Lei Maria da Penha, em entrevista com a prpria Maria da Penha, que, de vtima de brutal violncia domstica, transformou a sua luta pessoal numa refe-rncia importante para todas as mulheres brasileiras.

    Vale a pena conferir a viso diferenciada da Caros Amigos. Boa Leitura!

    CAROS AMIGOS ANO XIII 150 SeteMbRO 2009

    EDITORA CASA AMARELA RevistasLivRosseRvioseditoRiaisfundadoR:sRgiodesouza(1934-2008)diRetoRgeRaL:WagneRnabucodeaRajo

    EDITOR: hamilton Octavio de souza EDITORa aDjunTa: Tatiana Merlino EDITOREs EsPECIaIs: jos arbex jr e Renato Pompeu EDITORa DE aRTE: Lucia Tavares assIsTEnTE DE aRTE: henrique Koblitz Essinger EDITOR DE FOTOGRaFIa: Walter Firmo REPRTER EsPECIaL: Marcos Zibordi REPRTEREs: Felipe Larsen, Fernando Lavieri e Lcia Rodrigues EsTaGIRIa: Carolina Rossetti CORREsPOnDEnTEs: Marcelo salles (Rio de janeiro), Bosco Martins (Mato Grosso do sul), Maurcio Macedo (Rio Grande do sul) e anelise sanchez (Roma) sECRETRIa Da REDaO: simone alves DIRETOR DE MaRKETInG: andr herrmann PuBLICIDaDE: Melissa Rigo CIRCuLaO: Pedro nabuco de arajo RELaEs InsTITuCIOnaIs: Ceclia Figueira de Mello aDMInIsTRaTIVO E FInanCEIRO: Ingrid hentschel, Elisngela santana COnTROLE E PROCEssOs: Wanderley alves LIVROs Casa aMaRELa: Clarice alvon sTIO: Lcia Rodrigues aPOIO: Maura Carvalho, Douglas jernimo e neidivaldo dos anjos aTEnDIMEnTO aO LEITOR: Llia Martins alves, Zlia Coelho assEssORIa juRDICa: Marco Tlio Bottino, aton Fon Filho, juvelino strozake, Luis F. X. soares de Mello, Eduardo Gutierrez e susana Paim Figueiredo REPREsEnTanTE DE PuBLICIDaDE: BRasLIa: joaquim Barroncas (61) 9972-0741.

    jORnaLIsTa REsPOnsVEL: haMILTOn OCTaVIO DE sOuZa (MTB 11.242)DIRETOR GERaL: WaGnER naBuCO DE aRajO

    CaROs aMIGOs, ano XIII, n 150, uma publicao mensal da Editora Casa amarela Ltda. Registro n 7372, no 8 Cartrio de Registro de Ttulos e Documentos da Comarca de so Paulo, de acordo com a Lei de Imprensa. Distribuda com exclusividade no Brasil pela DInaP s/a - Distribuidora nacional de Publicaes, so Paulo. IMPREssO: Bangraf

    REDaO E aDMInIsTRaO: rua Paris, 856, CEP 01257-040, so Paulo, sP

    04 Guto Lacaz.06 Caros Leitores.07 Marilene Felinto reafirma a declarao de voto com a devida justificativa.08 Jos Arbex Jr. analisa a ofensiva militar dos EUA na Amrica Latina.10 Marcos Bagno Falar Brasileiro. Mc Leonardo alerta sobre a ao das milcias nas favelas e no jogo eleitoral.

    11 Ferrz comenta as loucuras da vida em So Paulo e no Brasil.12 Entrevista com Virgnia Fontes A democracia e o capitalismo desenvolvido.17 Tatiana Merlino A crise do Senado mais velha do que o Sarney.20 Joo Pedro Stedile aponta os danos pelo abandono da soberania nacional. Gilberto Felisberto Vasconcellos relata as proezas do mdico Silva Mello.

    23 Hamilton Octavio de Souza Entrelinhas A mdia como ela . Cesar Cardoso fala das trajetrias, sonhos e desiluses da vida.

    26 Frei Betto O processo migratrio tende a aumentar no mundo globocolonizado. Fidel Castro chama a ateno para os riscos das bases militares na Amrica do Sul.

    28 Lcia Rodrigues Estudo do IPEA mostra que os pobres pagam mais impostos.32 Renato Pompeu analisa a origem e os interesses por trs da gripe suna.33 Emir Sader compara o efeito da crise no Mxico com o programa tucano.34 Tatiana Merlino entrevista Maria da Penha sobre a lei que pune a violncia.36 Ensaio Fotogrfico Joo Roberto Ripper As condies de vida no Brasil.38 Glauco Mattoso Porca Misria. Eduardo Suplicy defende a licena de Jos Sarney da presidncia do Senado.

    39 Renato Pompeu e suas memrias de um jornalista no investigativo. Ana Miranda lembra a stira cotidiana de Gregrio de Mattos, o Boca do Inferno.

    40 Gershon Knispel analisa o seminrio do Rio sobre a paz no Oriente Mdio.42 Joel Rufino dos Santos escreve sobre o legado dos grandes escritores russos. Guilherme Scalzilli destaca a importncia de So Paulo na sucesso presidencial.

    44 Renato Pompeu Ideias de Botequim. 45 Claudius

    sumrioFoto de capa JESUS cARLOS

    As questes de fundo

    Equipe da Caros Amigos entrevista Virginia Fontes.

    JESUS cARLOS

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  • caros amigos setembro 2009 6

    fale conosco

    Maria Lcia FattoreLLiSou leitor assduo da revista desde 2003, e a

    cada edio vocs me surpreendem ainda mais com timos artigos, reportagens e entrevistas. Adorei a entrevista com a auditora da Receita Federal Maria Lcia Fattorelli (edio 148) so-bre a dvida pblica, e logo em seguida o belo artigo de Ivan Valente sobre o mesmo tema. Fico a imaginar o quanto poderamos investir em educao e cultura, sade, segurana e re-forma agrria com tantos recursos sendo trans-feridos para o pagamento de uma dvida a qual, todos sabemos, infinita. Parabns a todos e todas que fazem com que esta seja a melhor re-vista do pas. Adriano Fernandes, Macei/AL

    Bastante interessantes os comentrios de Maria Lcia Fattorelli, em sua entrevista conce-dida Caros Amigos. A auditora da Receita Fe-deral faz revelaes espantosas acerca dos pro-blemas enfrentados pelos pases endividados. Oportunamente, esclarece informaes distor-cidas com respeito dvida externa do Brasil, e ratifica a necessidade da criao de CPIs como iniciativas relevantes para investigao da real situao do pas ante seus credores internacio-nais. Parabns! Jos Admir de Paula, Paracuru/CE

    caros aMigosSou leitor assduo da revista (aqui em casa ns

    assinamos) e estou sempre espiando o contedo do stio de vocs na internet. E uma das sees mais bacanas dele , sem dvida, aquela em que somos ns que enviamos o texto. Ela mostra que esta uma publicao comprometida com os direi-tos a comunicao. Essa participao, entretanto, fica restrita mdia eletrnica, pois na revista no existe tal espao. Tenho certeza que muitos leitores iriam se animar a escrever se lhes fosse dedicado um espao permanente e aberto em cada edio. A revista ganharia um aporte que sua competents-sima equipe permanente no pode lhe dar: no h como saber o que se passa o tempo todo, em todo lugar, com todos os atores sociais. Dar voz a esses

    ltimos em primeira pessoa seria dinamizar ainda mais o contedo da publicao.Daniel Gomes de S, Rio de Janeiro/RJ

    No faz muito tempo comecei a ler a Caros Amigos. Adoro a revista. Sou uspiana, fiz le-tras, agora estou preparando meu projeto de mes-trado. Me deparei com a revista quando resolvi me engajar nas questes universitrias e da, por extenso e coerncia, passei a pensar nos pro-blemas sociais como um todo. Escrevo para di-zer que sou muito f da revista e que ela tem um papel fundamental, j que vivemos envoltos em um manto de hipocrisia criado e alimentado, dia a dia, por uma rede que se forma quase de manei-ra invisvel aos olhos da maioria. Enfim, um con-traponto necessrio aos jornales. Flvia Cristina.

    Luiz MottGostaria de agradecer imensamente a publi-

    cao da entrevista (edio 148) com o Luiz Mott, que tem tanto a dizer e a contribuir, mas to pouca visibilidade. O caso que a mdia gorda, de um lado marionete da Igreja Cat-lica (e de sua face mais reveladora, a Opus Dei), e de outro, de evanglicos fanticos. Assim, as agruras sofridas pelos homossexuais sempre sero apresentadas como castigo de Deus, quando no ignoradas totalmente, o que co-mum. H um projeto de lei que criminaliza a homofobia mofando no Senado por causa da hipocrisia dos grupos acima mencionados. Fabiano Melo Quirino, Macei/ AL

    Funk pra que te quero Ultimamente tenho acompanhado pela impren-

    sa o debate acerca da revogao da lei sobre a rea-lizao de bailes funk, de autoria do ex- deputado lvaro Lins. O que mais tem me chamado a ateno que tanto os favorveis a lei quanto os que a cri-ticam dividem o funk entre o do bem e o do mal. O funk do bem seria aquele mais comercial, que nor-malmente se ouve nas rdios. O funk do mal seria o conhecido proibido, que faz apologia ao trfico de drogas ou libertinagem. Particularmente acre-dito que ao se tratar da criminalizao do funk no

    h que se dividir o estilo musical entre bom e mau. O que est em pauta a criminalizao histrica e permanente da pobreza.Carlos Batista, subsecretrio de Cultura e Turismo de Belford Roxo, Baixada Fluminense/RJ

    Fundao casaSobre a reportagem publicada por Caros Ami-

    gos em seu nmero 148, sob o ttulo Unidade misteriosa esconde Jovens Infratores, h que se esclarecer o seguinte: Diferentemente do que inadvertidamente afirma Fernanda Lavarello, do Conselho Regional de Psicologia de So Paulo, a Fundao CASA no rompeu ou quebrou par-ceria com a Universidade Federal de So Paulo (UNIFESP) para a implantao da Unidade Espe-cial de Sade. O que ocorreu, na verdade, que o convnio com a UNIFESP lamentavelmente no pde prosperar porque a universidade no apre-sentou a documentao exigida pela legislao. Lucas Tavares/ Coordenador de Comunicao So-cial da Fundao CASA.

    rauL seixasNa qualidade de advogados e representantes,

    no Brasil, das herdeiras Simone Andrea Vannoy e Scarlet Vaquer Seixas, duas das trs filhas e her-deiras do saudoso Raul Seixas, enviamos o presen-te pedido de resposta quanto edio Caros Ami-gos Especial, nmero 48, publicada em agosto de 2009. Lamentamos o fato de nossas clientes no terem sido sequer ouvidas pela reportagem, princi-palmente em relao trecho no qual a herdeira Vi-vian Seixas menciona que as herdeiras do legado de Raul Seixas tm deixado os advogados de lado, com quem no tiveram boas experincias, o que de forma alguma corresponde verdade.Flavia Vasconcelos (representante de Simone An-drea Vannoy) e Renato Pacca (representante de Scarlet Vaquer Seixas)

    nota da redao

    O trecho citado da reportagem Herdeira man-tm vivo o legado do Maluco Beleza reproduz declarao da entrevistada Vivian Seixas, na qual diz: queremos deixar advogado de lado, porque no tivemos boas experincias.

    Caros leitores

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    redao

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    -CAros leitores_150.indd 6 25.08.09 18:06:46

  • 7setembro 2009 caros amigos

    Trabalhar por instinto de sobrevivncia: Vida intil, que era melhor deixar, que uma cela? Que importa? Todo o universo uma cela, e o estar preso tem que ver com o tamanho da cela (Fernan-do Pessoa). Trabalhar com a reputao um tanto en-xovalhada: um leitor manda uma mensagem se refe-rindo parcialidade do texto que revela a inteno de voto em Dilma Rousseff (e no PT de Lula!), qui em Marina Silva (leitor equivocado pois que eu no votaria em nenhuma pessoa beata, muito menos em uma da Assemblia de Deus, como Marina Silva). De novo revelo a inteno de voto (o que o leitor alega ser ruim para a revista!).

    De novo me perguntam, num lugar onde se pre-enchia um formulrio sobre a minha vida: Profis-so? Resposta: No sei... Espanto. No sei direito, quer dizer, j fiz e fao tantas coisas diferentes.... Es-panto. Tento ajudar: Pode ser diversas? Quer dizer, pode escrever diversas a na ficha?. Silncio.

    Sem pacincia para responder formulrios que esmicem a minha histria, sa, larguei o sujeito falando sozinho, abestado pela minha deciso inco-mum. Minha vontade era de gargalhar (do leitor, do sujeito). No tenho significados em comum com nin-gum. No me interessa. Recusei o convite seguinte: de seguir algum no twitter (e ser seguida). O que twitter? Falaram ainda em tuitar, abrasileira-do assim. Tive preguia de entender (s trabalho por instinto de sobrevivncia as novssimas tecnologias vo se sobrepondo, uma aps a outra, minha falta de entusiasmo por elas, viram montanhas de coisas pelas quais meu interesse zero).

    Falaram, afinal, em educomunicao, que me caberia uma atividade na rea da educomunica-o, palavra que eu j conhecia e pela qual no nu-

    tria nenhuma simpatia: primeiro, porque esta pala-vra no existe no dicionrio, e eu resisto a palavras que no constem do dicionrio (sou do cnone antigo para algumas coisas, por isso tambm no me con-vence nem desperta nada o palavreado tecnolgico). Em segundo lugar, porque a palavra educomunica-o me remete aos invencionismos vazios, banali-dade dos trabalhos atuais. Em terceiro lugar, porque eu prefiro a educao para o silncio.

    Depois me explicaram o que era o twit-ter: uma ferramenta de Internet, atravs da qual se entra no stio, se cria uma conta e se diz o que se est fazendo no momento, para vrias pessoas irem acessando! De modo que a mensagem, e seus upda-tes (atualizaes) sejam sempre seguidos por diver-sas pessoas, na lgica das redes. Desatualizada, de-sinteressada, recusei a atividade.

    Ao leitor desavisado, respondi com palavras de outra pessoa, um texto que recebi e cai como uma luva para explicar meu voto em Dilma Rousseff para presidente da Repblica e, principalmente, meu dio ao PSDB de Jos Serra:

    O ex-presidente FHC e seu candidato, Jos Serra, fizeram governo aliado com o DEM (an-tigo PFL) de ACM, Ronaldo Caiado, Bornhausen etc. Com a compra de deputados acreanos, obtiveram a reeleio (...). Na poltica externa, aliaram-se com o que havia de pior no continente, como Fujimori, o di-tador Hugo Banzer, entre outros. Nas viagens inter-nacionais, FHC limitava-se a ir s Universidades de Lisboa ou Sorbonne, utilizando aquela ridcula ves-timenta de ctedra. (...) Deixaram o pas sem luz (no apago), com uma dvida externa galopante, taxas de desemprego nunca vistas e o dlar, que no incio do real valia 1 real, chegou a valer 4. Isso sem con-

    tar a venda a preos de banana das estatais do setor energtico, siderrgico, telefnico e da tentativa de vender a Petrobras. Tambm havia escndalos como o do Proer (doao de 23 bilhes do dinheiro pbli-co para banqueiros). O desastre da poltica econmi-ca de FHC, Serra, Pedro Malan e outros fez com que o pas deixasse de ser a oitava economia do mundo para ser a dcima segunda. (...) O desastre de FHC e seu candidato Serra valeu a derrota do candidato go-vernista, este sim envolvido em denncias da Mfia das Ambulncias e da conduo da licitao na ven-da de hemoderivados (escndalo dos sanguessugas), isso para um governo blindado pela mdia. Lula assu-miu um pas destroado como herana de FHC/Serra e criou mais de 10 milhes de empregos com cartei-ra assinada. Acabou com a dvida externa e mandou o FMI de volta para casa. Investiu na Petrobras e vrios campos de petrleo foram descobertos. Retirou 20 milhes de famlias da misria com o programa Bolsa Famlia bombardeado pela oposio. Por ter compra-do um novo avio presidencial (...), abriu os mercados da China e do Oriente Mdio para os produtos brasi-leiros, o suficiente para fazer com que o pas obtivesse milhes de dlares e passasse com certa tranqilidade pela atual crise internacional e globalizada. Tudo isso, sob intenso bombardeio da mdia, aliada dos tucanos, no chamado mensalo. O pas voltou a crescer, voltou a ser a oitava economia do mundo, a ponto de o presi-dente norte-americano dizer que Lula era o cara. Lula foi aplaudido de p na conferncia da ONU. Imagine se tivssemos passado a crise sob a batuta de Serra e FHC. Estaramos semelhantes Somlia.(S.Z.)

    Marilene Felinto

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    Novo stio: www.carosamigos.com.br

    O que voc est fazeNdo No momeNto

    Marilene Felinto [email protected]

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  • caros amigos setembro 2009 8

    qual a relao entre o golpe desferido em 28 de junho, em Honduras, que deps o presi-dente eleito Manuel Zelaya, e a disposio do presidente colombiano lvaro Uribe de permitir a instalao de trs bases militares estadunidenses em seu pas, anunciada com estardalhao no incio de agosto? Aparentemente, nenhuma.

    Os golpistas que depuseram o presidente Ma-nuel Zelaya tinham seus interesses prprios: eles abortaram um processo de consulta popular sobre a eventual convocao de uma Assemblia Consti-tuinte, que, obviamente, colocaria em risco o mo-noplio do poder exercido h trs dcadas pelos dois partidos das oligarquias: o Liberal (ao qual pertencem tanto Zelaya quanto os prprios gol-pistas) e o Nacional. Uribe, de sua parte, resolveu, soberanamente, abrir mo da soberania, e permitir a instalao das novas bases estadunidenses com o objetivo de reforar o combate contra o narco-trfico e as Farc, tendo como justificativa o recen-te fechamento da base militar dos Estados Unidos em Manta, no Equador, por determinao do pre-sidente Rafael Correa.

    Concluso: uma coisa uma coisa e outra coisa outra coisa, para utilizar um aforismo do filsofo mximo do neopetismo, Jos Genono. Essa verso seria at defensvel, no fosse a intromisso de uma palavrinha mgica, que muda tudo: energia (petr-leo, biodiversidade, gua, minrios etc.).

    Honduras rica em petrleo, como demons-tram prospeces feitas por uma empresa norue-guesa, contratada por Zelaya, que tambm resol-veu integrar o seu pas ao grupo Petrocaribe e Alba (Aliana Bolivariana das Amricas), ambos criados pelo governo Chvez. No bastasse isso informa Frida Modak, ex-secretria de imprensa do governo Salvador Allende , o projeto de Ze-laya, no caso de uma eventual nova Constituio, era estabelecer que os recursos naturais hondure-nhos no poderiam ser entregues a outros pases. Isto , Zelaya preparava-se para lanar a sua pr-pria verso da campanha o petrleo nosso. E, por fim, a nova Constituio, segundo Zelaya, es-tabeleceria o fim do monoplio dos meios de co-municao, assegurando o direito participao das comunidades (o que explica, alis, o apoio dos bares da mdia local ao golpe).

    Quem no viu esse filme antes? O programa de governo de Zelaya no importam, aqui, suas mo-tivaes contraria os interesses dos grupos es-tadunidenses que j controlam uma parte subs-tantiva das reservas latinoamericanas. Seria muita ingenuidade para dizer o mnimo imaginar que

    o golpe em Honduras foi articulado sem a partici-pao do grupo neoconservador incrustado no De-partamento de Estado dos Estados Unidos e por-ta-voz das empresas que exploram as reservas mundiais de petrleo e fontes de energia, o mes-mo grupo que articulou a invaso do Iraque, entre outras coisas. O prprio embaixador estadunidense em Honduras, Hugo Llores, foi nomeado pelo go-verno Bush-Cheney.

    InfluncIa regIonalH, aqui, um interessantssimo fator complica-

    dor. O governo Barack Obama, desejoso de recupe-rar a influncia estadunidense no hemisfrio aps o desastre Bush, multiplicou declaraes segundo as quais acabaram-se os tempos em que os Esta-dos Unidos se julgavam no direito de ditar os ru-mos da Amrica Latina. Como reflexo dos supostos novos tempos, a OEA suspendeu o veto histrico participao de Cuba e a Casa Branca abriu no-vas possibilidades de dilogo com Havana. Para os republicanos e neoconservadores estadunidenses e mesmo para uma parcela ortodoxa dos demo-cratas -, essas medidas equivalem a um inaceitvel abandono da Doutrina Monroe (a Amrica para os americanos), que, desde 1823, orienta a poltica externa dos Estados Unidos para a Amrica Latina.

    Esse quadro estabelece, no mnimo, uma tenso en-tre a retrica de Obama e a prtica dos responsveis pela poltica externa estadunidense.

    Tenso semelhante foi criada em 1975 observa o pesquisador estadunidense Greg Grandin , quan-do, aps o escndalo de Watergate e o fiasco do Vietn, os arquitetos da poltica externa do gover-no Jimmy Carter declararam obsoleta a Doutri-na Monroe, considerada inapropriada e irrelevante para as novas realidades e tendncias futuras por Sol Linowitz, ento presidente da Comisso para as Relaes Estados Unidos Amrica Latina. Foram os anos que deram impulso ao processo de transi-o das ditaduras militares para as chamadas no-vas democracias. A reao no se fez esperar: veio na forma da eleio de Ronald Reagan e a tomada de assalto da Casa Branca pelos neoconservadores arquitetos do neoliberalismo (mantido e ampliado, de modo muito eficaz, nos anos 90, pelo democrata Bill Clinton). A srie Rambo, no por acaso lan-ada por Hollywood logo aps a posse de Reagan, reflete com exatido o esprito da poca.

    A Amrica Latina, em particular, foi objeto de ataque, j em 1980, por parte de um grupo de in-telectuais e polticos estadunidenses de ultradirei-ta, que lanou o Documento de Santa F (nome da cidade do Estado do Novo Mxico onde o seu ilu

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    Jos Arbex Jr.

    os velhos uruburIbesatacam na nova Amrica Latina

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  • 9setembro 2009 caros amigos novo stio: www.carosamigos.com.br

    primeiro encontro foi realizado), contendo diretri-zes que o presidente Ronald Reagan deveria ado-tar para as Amricas. O centro do documento , precisamente, a defesa da Doutrina Monroe. Fa-zia parte do grupo o historiador Lewis Tambs, de-pois indicado para o cargo de embaixador dos Es-tados Unidos na Colmbia, e criador, nos anos 80, da expresso narcoterrorismo, para caracterizar a atividade dos grupos guerrilheiros colombianos. Em 8 de abril de 1986, o ento presidente Ronald Reagan previu, pela primeira vez, mediante a ado-o de um decreto, a possibilidade de utilizar uni-dades militares de seu pas contra narcotrafican-tes. Estes passaram a ser considerados ameaa segurana nacional dos Estados Unidos.

    outra retrIcaEm 1988, o Documento de Santa F II uma

    estratgia para a Amrica Latina na dcada de 1990 estabelecia claramente a suposta relao en-tre narcotrfico e subverso comunista: As Am-ricas ainda so objeto de ataque. Alertamos para esse perigo em 1980. O ataque se manifesta na subverso comunista, terrorismo e narcotrfico. A capacidade de luta das democracias latino-ame-ricanas para combater esses ataques foi solapada pela estagnao econmica de toda a regio, agra-

    vado pela dvida. (...) A rede comunista subversiva e terrorista se estende desde Chiapas, na parte sul do Mxico, at o Chile, transformando toda a cos-ta do Pacfico, ao sul do Rio Grande, em cenrio de conflito aberto. (...) Os vastos recursos que gera o narcotrfico aumentaram a capacidade da ame-aa subversiva, alm daquilo que se tinha imagi-nado inicialmente. A possibilidade de nos vermos forados a envolver foras militares estaduniden-ses no combate est publicamente exposta diante de comits do Congresso.

    Preparava-se, ento, a base doutrinria para justificar o envio de tropas, primeiro, para o Pa-nam (a Operao Causa Justa que, em dezem-bro de 1989, deps o presidente Manuel Noriega) e depois para a Amaznia (com o Plano Colmbia, lanado em 1999, por Bill Clinton). Em 18 de ou-tubro de 2000, com extrema arrogncia, o ento vice-ministro da Defesa dos Estados Unidos, James Bodner, declarou que o Plano Colmbia ser exe-cutado com ou sem a solidariedade internacional, durante a Conferncia Ministerial de Defesa das Amricas, realizada em Manaus. A traduo disso em portugus claro era: gostem ou no os latino-americanos, a Colmbia sofrer interveno mili-tar dos Estados Unidos.

    mais do que bvio que, com o fim da Guerra Fria e da ameaa comunista, a retrica do com-bate ao narcotrfico ou ao narcoterrorismo ser-viu apenas de justificativa para a ocupao militar da Amaznia, assim como a deslavada mentira das armas de destruio em massa dariam o pretexto para a invaso do Iraque. A arrogncia ianque atin-giria o auge com o governo Bush e o estado de ex-ceo por ele implantado nos Estados Unidos aps o atentado de 11 de setembro de 2001. Mas a atu-al crise mundial do capitalismo, combinada com o fiasco no Iraque e no Afeganisto, que permitiram a eleio de Barack Obama, restringiram a capaci-dade de ao da Casa Branca. Na Amrica Latina, o quadro ficou ainda mais complicado com o fracasso do golpe contra Hugo Chvez, em abril de 2002, e a eleio de vrios governos no confiveis ain-da que no sejam, exatamente, governos dispostos a uma ruptura radical com o imperialismo.

    Barack Obama no pode, no atual contexto, adotar sem mediaes as medidas imperiais que caracterizaram o seu antecessor. obrigado a, pelo menos, simular a disposio ao dilogo. Mas ele no se sentiu com foras para ou, simplesmen-te, no estava nos seus planos varrer o lixo neo-conservador da Casa Branca, que continua a ocu-par cargos estratgicos, em especial nos rgos responsveis pela formulao da poltica externa. Nesse quadro geral, a Colmbia de lvaro Uribe ocupa um lugar especial.

    Do ponto de vista da Casa Branca, a Colmbia de Uribe joga, na Amrica Latina, papel similar ao de Israel no Oriente Mdio, mas com um grau maior de subordinao a Roma (Israel ainda tem certa autonomia: por exemplo, seu governo resis-te abertamente determinao de Obama no sen-tido de interromper a criao de novas colnias nos territrios ocupados). As constantes provoca-

    es do exrcito colombiano contra a Venezuela, o bombardeio totalmente ilegal do territrio equato-riano, em maro de 2008, a pretexto de destruir as Farc e, agora, a disposio de permitir a instalao de bases militares estadunidenses no pas opera-o to indecente, to afrontosa soberania na-cional e dignidade dos povos da Amrica do Sul, que at o governo Lula foi obrigado a demonstrar sua preocupao demonstram que Uribe man-tm com Washington as tais relaes carnais um dia reivindicadas pelo pattico ex-presidente ar-gentino Carlos Menem. Ele o homem indicado para fazer o servio sujo.

    ofensIva mIlItarBarack Obama nada fez para mudar esse qua-

    dro. Muito ao contrrio. A eventual instalao das novas bases na Colmbia no poderia, obviamen-te, ser realizada sem o seu aval, assim como com sua autorizao que os Estados Unidos mantm mo-bilizada a Quarta Frota, encarregada de vigiar a Amrica do Sul (curiosamente, mobilizada aps as descobertas das reservas do pr-sal no Brasil, como observou o presidente Lula). Alm disso, ele apia a Iniciativa de Mrida, equivalente ao Plano Colm-bia para o Mxico e a Amrica Central, com a inje-o de bilhes de dlares para foras militares e es-quadres da morte, sempre com o objetivo oficial de combate ao narcoterrorismo. Multiplica seus ataques verbais a Hugo Chvez no mesmo estilo e tom adotado por George Bush e se declara pre-ocupado com a crescente penetrao da China e at do Ir na Amrica do Sul (o Equador conside-ra a hiptese de ceder a Pequim o direito de usar as instalaes da base de Manta).

    impossvel, portanto, dissociar a golpe em Hon-duras da nova ofensiva militar ianque na Colmbia, cujo porta-voz o sabujo lvaro Uribe. Honduras serve como uma espcie de laboratrio, um en-saio que poder dar instrumentos ao governo Oba-ma sobre como agir numa Amrica Latina cada vez mais tensa. Em Honduras, a aliana entre as oligar-quias locais e o Departamento de Estado estaduni-dense conseguiu fazer aquilo que foi tentado sem sucesso na Bolvia: a insurgente oligarquia racista de Santa Cruz de La Sierra foi, pelo menos por en-quanto, contida pelo governo Evo Morales.

    A luta de classes est em pleno desenvolvimento nas Amricas. Obama governa em situao de crise domstica seu ndice de popularidade j despen-cou, embora ainda seja alto, em torno dos 55% - e enfrenta contradies que no limitavam as aes de George Bush. Em contrapartida, tambm a Am-rica Latina se agita, num conjunto extremamente complexo e dinmico, marcado, sobretudo, pelos movimentos de resistncia popular, que, no raro, foram os seus governos a irem mais longe do que desejariam no enfrentamento com os Estados Uni-dos. uma situao de crise profunda, em que, por isso mesmo, situaes imprevisveis e at improv-veis tornam-se possveis. Os tempos que se aproxi-mam prometem grandes emoes.

    Jos Arbex Jr. jornalista.

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  • caros amigos setembro 2009 10

    Mc Leonardo

    Na conferncia de encerramento de um im-portante congresso de lingustica realizado em Salvador em julho ltimo, o linguista Carlos Al-berto Faraco perguntava: Lusofonia, utopia ou quimera? Fazendo uma preciosa anlise das diferentes fonias existentes (a francofonia, a anglofonia e a hispanofonia), Faraco concluiu que a tal lusofonia est anos-luz de distncia de ser algo parecido com essas outras podero-sas polticas lingusticas. Ns, brasileiros, pouco nos lixamos para ela, que um tema muito mais debatido em Portugal do que nos demais pases de lngua oficial portuguesa. Ao contrrio das demais fonias, a lusa no tem instituies for-tes e atuantes, que de fato causem impacto nos lugares onde atuam. Tudo se resume a entida-des incuas e a um discurso de samba-exalta-o sem consequncias concretas. Ao contrrio das outras tambm, que so sustentadas por na-es importantes e ricas Frana, Gr-Bretanha (a chamada Commonwealt h no inclui os Es-tados Unidos, somente as ex-colnias britnicas tornadas independentes durante o sculo XX) e Espanha (quinta maior economia da Europa) , a lusofonia tem como principal arauto um pas em tudo perifrico da Unio Europeia, desim-portante na geopoltica mundial e nem de lon-ge uma potncia econmica. No bastasse isso, os demais pases lusfonos, excetuando-se o Brasil, encabeam a lista das naes mais po-bres e subdesenvolvidas do mundo: Guin-Bis-sau, Cabo Verde, S. Tom e Prncipe, Moambi-que, Angola, Timor. As trs primeiras dependem exclusivamente da ajuda internacional para so-breviver. Com isso, d para dizer que se trata, de fato, de uma ilusofonia, uma quimera que Portugal no tem a menor possibilidade de sus-tentar. Ainda assim, Portugal age com prepo-tncia colonial: no reconhece os certificados de proficincia em portugus emitidos pelo Bra-sil e impede (por lei!) que professores brasilei-ros ocupem as cadeiras de ensino da lngua em universidades estrangeiras. Na Unio Europeia, probe-se que os tradutores simultneos para o portugus sejam brasileiros... Portugal parece se alimentar do mito bblico de Davi contra Go-lias, mas a realidade sociopoltica e econmica do mundo atual coisa muito mais sria do que qualquer mito sebastianista de Quinto Imprio.

    No entanto, isso no nos autoriza a jogar no lixo o projeto de uma comunidade de povos fa-lantes do portugus. O fundamental que ela

    seja conduzida, em conjunto, pelos dois nicos pases em que o portugus lngua hegemni-ca em todo o territrio: Brasil e Portugal. E que o Brasil abandone sua secular posio de sub-servincia e mostre a Portugal que quem manda mesmo, hoje, na lngua, somos ns e que cabe a Portugal, isso sim, seguir os passos das polticas lingusticas que ns propusermos. O caso recen-te do acordo ortogrfico foi exemplar. Como me disse Gilvan Mller de Oliveira, especialista em poltica lingustica, Portugal saiu para pescar e quando voltou o Acordo Ortogrfico j esta-va implantado e ele no podia fazer mais nada. A chiadeira portuguesa contra a nova ortogra-fia no pode alterar o fato consumado. O Acor-do, que o Brasil j implementou com tremendo sucesso (apesar das crticas bobocas e desinfor-madas de muita gente), representa um passo gi-gantesco na promoo de uma verdadeira pol-tica lusfona, na qual ou Portugal se conforma com a posio que lhe cabe ou vai ficar numa obscuridade perifrica ainda mais profunda do que aquela em que j est mergulhado, com sau-dades do que no foi.

    Marcos Bagno linguista e escritor. www.marcosbagno.com.br

    falar brasileiroMarcos Bagno

    Brasil, politicamente

    incorreto - Parte III

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    LUSOFONIA OU ILUSOFONIA?

    A venda de drogas nas favelas do Rio sempre foi tratada como um ninho de rato em uma casa de luxo, ou seja, o governo deixou o ra-tinho se alimentando l no seu cantinho, e em tro-ca ele no vinha mergulhar na sua piscina ou pas-sear na sua sala. A venda de droga virou a iluso de sair da misria pra muitos jovens. O nmero de ou-tras modalidades de crime diminuiu drasticamen-te no Rio, mas o tal ratinho virou um rato to forte capaz de paralisar a casa que at ento to-dos achavam que ele no podia passear. Fechar o comrcio das favelas, isso todos j sabiam que os varejistas das drogas faziam a hora que queriam, mas parar a cidade inteira pouca gente sabia, s os moradores de favela e parte da polcia sabem o que o trfico capaz de fazer: colgio, banco, su-permercado, e at delegacias fecharam as portas por medo de ataque.

    Hoje temos uma nova fora tentando entrar nas favelas, so as chamadas milcias, forma-das por policiais civis, militares e bombeiros, mas uma grande parcela so ex- policiais expulsos de suas corporaes. Prometendo tirar o trfico da favela, eles cobram uma quantia aos moradores em troca da segurana, mas tm como alvo os co-mrcios dessas localidades: vans, motos-txi, tv a cabo e at nos botijes de gs eles querem ter participao.

    O governo, como sempre, vem fazen-do vista grossa para o que acontece l dentro, s aparece pra falar do assunto quando alguma rede de tv lhe chama, e mesmo assim com um discurso muito bem preparado.

    O povo do Rio no tem a mnima noo do peri-go que est correndo financiando essa gente, pois uma verdadeira fortuna arrecadada ilegalmen-te, diariamente, sabe Deus l pra quem, mas com certeza vai servir para financiar novas campanhas e colocar l no Congresso aqueles que iro conti-nuar fazendo vista grossa pra isso tudo continu-ar acontecendo.

    MC Leonardo compositor, autor, com seu ir-mo MC Junior, de funks de protesto, como o Rap das Armas. [email protected] - http://mcjunioreleonardo.wordpress.com

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  • 11setembro 2009 caros amigos

    Ferrz

    Acordo s nove, um sol que d irritao nas vistas, em vez de carro, vou de buzo.

    Destino, matriz do DVD, precisa pegar a matriz.Chego Paulista s 11h30min, isso que d pe-

    gar o nibus Paraso.Foi foda, lotado. Em cada ponto um fiscal,

    pra fiscalizar o qu? A qualidade do servio? Contar as pessoas para ver se est excedendo? Que nada, para empurrar e fiscalizar se a porta t fechada, que se dane se sufocam, desde que no caiam.

    Amanheceu novamente, dessa vez no tenho cr-dito no carto magntico, o Kassab mudou as regras, tem que cadastrar, no pode isso, no pode aqui.

    Peo a um amigo pra me levar, agora vou mandar prensar, tem dois anos que t fazen-do esse documentrio, que fala um monte de coi-sa, da minha carreira, dos meus corres na quebrada, da criao da marca, mas o objetivo um s, mos-trar que possvel dar certo vindo de Nazar... quer dizer do Capo.

    E o mais louco que foi como ter escrito meu pri-meiro livro, todo mundo foi saindo fora, ficou eu e minha vontade de ter um bagulho que contasse um pouco da minha caminhada.

    Trnsito da porra, no caminho as fra-ses dos pichadores picham minha mente, voc um escravo do trnsito quente, quente mesmo.

    Mais pra frente, um desenho de um carroceiro, e escrito no buzina, sou um agente ambientalista.

    Chego produtora, depois de vrios faris fechados, guardas encarando, motoqueiros fechando, caminhes buzinando, e meu parceiro

    chiando da lonjura do lugar.No tem lugar para estacionar, ele vai ter que

    dar uma volta enquanto eu levo o DVD.Entrego, entro no carro e saiu, mais trnsito,

    lembro do Alexandre de Maio que fez a capa e me ajuda, anda a p tambm num corre da porra, vamos parar no Extra da marginal Tiet pra tomar um caf, meu parceiro quer Mcdonalds, eu falo que lixo, que melhor um caf e um po de queijo, ele reluta, mas no final estamos comendo po de queijo.

    Entro no mercado, preciso de rao pro meu ca-chorro, a minha rao ainda tem, t andando e acho uns DVDs, ele leva um do Steve Wonder, acabei de sair da fonogrfica, fica 3,00 reais pra prensar um, o do Steve tava 38,00, a pirataria crime?

    Bom, vou pagar, pego a fila pra com-pras abaixo de 20 itens, comeo a andar no exten-so corredor que me mostra doces, revistas em qua-drinhos, revistas de moda, revistas para crianas e o que vejo? Um imenso spot da Playboy com v-rias revistas da mulher melancia, nua, de lado s com duas estrelinhas no peito, ao lado uma revis-ta da hello kit.

    Na minha frente tem uma me, um menino de mais ou menos trs anos olha a imagem, encara, no tira os olhos.

    Atrs de mim uma menina olha tambm, me irrito, vou pro caixa, chamo o gerente, ele chega, eu falo que se ele no acha falta de tica uma re-vista com uma mulher pelada na capa ficar ao lado da hello kit e dos quadrinhos da Mnica e entre sal-gadinhos da Elma chips e doces, ele concorda, mas

    diz que a Playboy comprou o espao, eu digo que se assim, eles tm que escolher um pblico ou a fa-mlia ou a Playboy, afinal mercado lugar de fam-lia ou no ? E por que tambm no pe a Brasi-leirinhas, as chinesas taradas e todo tipo de porn, ele concorda, pergunta se posso escrever numa fi-cha de reclamao, eu digo que sim, escrevo, ele diz que acha horrvel, mas ningum reclama.

    Eu saiu, passo por uma lotrica, acho que t fi-cando louco, uma fila imensa para se comprar uma porra de jogo, t acumulado, t acumulado o que todos comentam.

    Eu grito. vocs to vacilando, ningum ga-nha em So Paulo, sempre uma cidade do interior, com 1.000 habitantes, vocs to sendo enganados.

    Um cara me encara, d o dobro de mim, eu re-solvo sair.

    T chegando em casa, blitz, a poli-cia revista todo mundo, mo no saco, mo no peito, mo na bunda, pergunta e restrio de caminhos.

    Estou ficando louco?Ligo a TV, gripe H1N1, gripe, a gripe do por-

    co, num sei qual qual, mais gente morta, mais mdicos reclamando, mais polticos mentindo, mais mscaras na TV, mais audincia, mais terceiro mun-do, mais apresentadora loira.

    E quando vou desligar vejo dois jogadores choran-do, vo ganhar milhes e sair do Brasil, esto choran-do por isso? Tenho d deles... mas eu sou louco.

    Ferrz escritor e hoje vive com a esposa e uma filha num pas chamado periferia.

    Depois eu que

    Novo stio: www.carosamigos.com.br

    sou louco

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  • caros amigos setembro 2009 12

    historiadora, pesquisadora do CNPq, profes-sora aposentada da Universidade Federal Fluminense e professora visitante na Esco-la Politcnica de Sade Joaquim Venncio, da Fio-cruz, no Rio de Janeiro, Virgnia Fontes tem reali-zado excelentes estudos e reflexes sobre o Estado, a democracia e o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Sua contribuio para a compreenso da realidade brasileira se expressa tambm nos cursos de formao poltica tanto nos espaos acadmicos e universitrios quanto nas frentes de luta dos mo-vimentos sociais.

    Nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos, ela analisa a crise estrutural do Senado, as mudan-as processadas pelas foras do capital nos gover-nos de FHC e Lula, os motivos da desmobilizao dos sindicatos de trabalhadores, os partidos polti-cos, as eleies e as possibilidades de avano das lutas populares, as quais, para ela, devem estar fo-cadas na luta anticapitalista.

    Fiquem com a entrevista.

    entrevista VIRGNIA FONTES

    Brbara Mengardo, Fernando Lavieri, Hamilton Octavio de Souza, Lcia Rodrigues, Marcos Zibordi, Renato Pompeu, Tatiana Merlino, Wagner Nabuco. Fotos Jesus Carlos

    anticapitalista

    A luta popular hoje deve ser

    Hamilton Octavio de Souza Para comear, fale sobre voc, onde nasceu e como se tornou historiadora e professora universitria.

    Virgnia Fontes Bem, eu sou filha de clas-se mdia modesta, alis de um casal quase bizar-ro, meu pai era filho de estivador do cais do por-to, nico de uma famlia numerosa fazendo carreira no servio pblico, e minha me era filha de uma famlia rica decadente do nordeste. Era tudo con-traste. Estudei sempre em escola pblica, nasci no Rio, sou carioca bem brasileira, de pai carioca e me pernambucana. Meu pai era do Banco do Bra-sil e depois passou para o Banco Central. S estu-dei em escola pblica, que eu me lembre, meus fi-lhos tambm, alis, isso foi uma questo de honra. Nasci num bairro muito modesto no Rio de Janeiro que era Marechal Hermes, depois meu pai melho-rou de vida e foi para Laranjeiras, que um bair-ro de zona sul, e a teve muito filho, no agentou o tranco em Laranjeiras e foi pra Jacarepagu. Ns somos 7 irmos, 3 mulheres e 4 homens. Depois eu

    sa muito jovem de casa, em plena ditadura, com 18 anos e resolvi fazer Histria porque era uma paixo, era o que eu curtia, queria entender o mundo, que-ria pensar o mundo com 18 anos. Quando eu tinha uns 15 anos eu fui fazer um teste vocacional, por-que eu no sabia o que eu queria ser e a o resul-tado do teste no me ajudou em nada, dizia que eu era pluri apta, pode fazer o que quiser. Resolvi fa-zer escola tcnica para ganhar dinheiro, sofri trs anos na escola tcnica, descobri que aquilo eu de-testava e fui pra Histria.

    Fernando Lavieri - Qual o curso tcnico?Eletrnica, na escola tcnica federal, a primei-

    ra turma de mulheres, era uma coisa divertidssima, em plena ditadura, nessa poca eu estava no PCB, sa logo depois tambm.

    Tatiana Merlino - Seus pais tinham alguma militncia poltica?

    No, nenhuma. Fiquei um tempinho no PCB,

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  • 13setembro 2009 caros amigos novo stio: www.carosamigos.com.br

    bem jovem, entre os 17 e 22 anos, depois me afas-tei, por vrias razes. Tive filho, casei, separei, me casei de novo, tive filho. A estudava, trabalhava, tinha dois empregos mais filho mais estudo, ento voc imagina que era uma vida fcil. Eu sei bem o que mulher no mundo contemporneo: acorda s 6 da manh, fica com filho at s 9, embarca para o trabalho, leva as crianas pra creche, volta, pega as crianas, vai, estuda um bocadinho, enquanto amamenta l alguma coisa.

    Lucia Rodrigues - A sua militncia no PCB foi no movimento estudantil?

    Foi no movimento estudantil secundarista. Pouco tempo depois eu me afastei, esse um pe-rodo em que o PCB comea a ser muito persegui-do, foi na segunda metade dos anos 70, e quando comea tambm a mudar de perfil. Eu era bastan-te rebelde, no cabia muito bem, digamos assim, nos esquemas e me afastei, fiquei mais estudando. Passei uns 10 anos afastada da militncia e mais estudando. Sempre fui muito estudiosa, ento fiz a faculdade de Histria, depois o mestrado em His-tria na Universidade Federal Fluminense e depois o doutorado na Frana com algum que virou um grande amigo e que faleceu recentemente, que o Georges Labica, que escreveu aquele livro que est saindo pela Editora Expresso Popular, que tem at uma introduozinha minha.

    Marcos Zibordi - O que estudou no mestrado e doutorado?

    Histria do Brasil Contemporneo, Teoria da Histria e Marxismo, so reas que eu trabalhei. Eu continuo nelas at hoje, s que eu acrescen-tei mais uma que Histria Contempornea. No mestrado eu fiz uma dissertao sobre a questo habitacional, na poca do fim do Banco Nacio-nal da Habitao. Depois no doutorado, na Fran-a, eu fiz uma tese sobre o pensamento democr-tico no Brasil, e agora sou pesquisadora do CNPq. S para explicar o que eu estou fazendo h uns 10 anos, venho trabalhando muito intensamente com formao poltica no movimento social, principal-mente com o MST. Alis uma das atividades da qual eu me orgulho, a participao nos cursos que o MST consegue nas universidades e nos cur-sos da Escola Nacional Florestan Fernandes. Tra-balhei muitos anos na Universidade Federal Flu-minense, onde eu fui precocemente aposentada por engano da burocracia, no foi engano malva-do, foi engano burro, mas me aposentaram.

    Lucia Rodrigues - Como analisa a crise do Senado? D para dizer que uma crise institucional ou uma briga entre caciques que se desentenderam por vrios motivos?

    Eu diria que tem as duas coisas, os dois proces-sos no esto separados. Se a gente for pensar em longo prazo, eu venho analisando isso da seguin-te forma: a partir de 89, mais ou menos, a condi-o de que seja possvel manter uma estrutura re-presentativa tal como ela existe agora, depende de conseguir figuras pblicas aparentemente limpas, figuras pblicas que tenham uma trajetria, no s aparentemente limpas, mas que vm de uma traje-

    tria capaz de neutralizar os movimentos sociais, que mais importante ainda do que o aparente-mente limpas. Vamos lembrar um pouquinho pra trs que o Fernando Henrique Cardoso, quando foi candidato, veio de uma trajetria da esquerda, em-bora a gente j sabia que o FHC j tinha muda-do esta trajetria, porm essa mudana ainda era incipiente, uma mudana inicial. Ningum imagi-nava que o governo Fernando Henrique fosse, por exemplo, investir contra os petroleiros da manei-ra como investiu, isso era impensvel, nem contra os direitos dos trabalhadores. Portanto, Fernando Henrique neutralizou uma parcela da intelectuali-dade de esquerda nessa ida dele para o governo, quem quis se iludir se iludiu, mas em parte acha-va que Fernando Henrique j vinha de uma asso-ciao com o PFL, a gente j sabia qual era a as-sociao que estava feita no comeo. Mesmo assim isso permitiu neutralizar setores de classe mdia incomodados com o processo, e alguns setores in-clusive de movimentos, de um tipo de movimento social que o que eu chamo da filantropia mer-cantilizada, que so movimentos que comeam populares e vo se tornando pouco a pouco mili-tncia paga em entidades mais ou menos filantr-picas. quando a questo das classes sociais no Brasil deixa de ser um problema de classe e come-a a ser um problema de pobreza. Deixa de ser uma questo de luta comum e passa a ser uma questo de filantropia, um problema da pobretologia.

    Renato Pompeu E qual a ligao com o Senado?

    Isso para chegar ao Senado, n. O segundo mo-vimento o Lula, esse movimento mais importan-te ainda. Se o FHC j cumpre esse papel de levar para o conjunto das instituies de representao polti-ca no Brasil uma espcie de aparncia limpa, ape-sar do brao dado com o PFL, a eleio do Lula tem papel muito mais importante para estabilizar o cha-mado jogo burgus no Brasil, uma vez que ela con-solida essa trajetria que j vinha sendo feita antes, mas agora com mais cacife, pois agora traz a CUT, traz uma parcela grande do PT, liquida politicamen-te o elo que este partido tinha com os movimentos de base, no s liquida o elo como converte essa li-gao numa ligao adequada para o jogo poltico. Lgico que em todos os casos isso significa que h um adiamento das condies da crise institucional e h um mergulho desses partidos limpos, entre aspas, dessas pessoas limpas no mundo da representao razoavelmente falseada. Acho que isso um proble-ma grave. Eu discuti isso num artigo dizendo que o PT se deslocou do papel tico-poltico que o Gra-msci sugere para o papel de definidor do que se-ria o papel moral, ainda no governo Fernando Hen-rique Cardoso. O resultado disso que ele perdeu o horizonte tico, que era o horizonte principal e que devia estar ligado com os movimentos de base. Por-tanto eu acho que o problema do Senado um pro-blema estrutural nosso, primeiro ns temos uma es-trutura representativa problemtica, ns temos um sistema bicameral que outro problema.

    Lcia Rodrigues - Voc defende a extino do Senado?

    Eu no defendo a extino do Senado instanta-neamente. Do ponto de vista de uma transforma-o real da sociedade brasileira isso no vir atra-vs das instncias eleitorais e nem das instncias representativas. Ns j sabemos disso, j temos a experincia, j vimos o que foi eleger o PT e, so-bretudo o Lula mais at que o PT, e ele simples-mente se converter no mesmo, porque o jogo pol-tico uma mquina de produzir o mesmo. Ento a luta popular tem de saber que ela tem de se man-ter para alm dos seus representantes, no ser su-bordinada representao.

    Renato Pompeu - Por que na Bolvia e na Venezuela foi possvel surgirem governos transformadores a partir da luta eleitoral?

    OK, eu vou chegar l, deixa eu s terminar o n-vel do Senado por que eu acho que isso uma coi-sa importante. pra extinguir o Senado? A princ-pio eu acho que sim, eu acho que o Senado, para uma democracia representativa burguesa limita-da, tal como ela , o Senado no necessrio. perfeitamente possvel operar de forma unicame-ral, menos no democrtico, pois no chega a ser necessariamente mais democrtico. O sistema bi-cameral um sistema de controle de uma cma-ra alta que controla uma cmara baixa, a cmara que mais representativa ela tem um papel menos importante, o filtro fica no Senado. Isso eu no es-tou fazendo uma campanha pelo fim do Senado, a campanha que eu fao que os movimentos popu-lares saibam que no vai ser via processo eleitoral que eles vo resolver. Agora a gente chega ao caso da Bolvia e da Venezuela: eu acho que tem uma diferena grande sim entre Brasil, Bolvia, Vene-zuela e Equador, uma diferena importantssima que o grau de desenvolvimento do capitalismo no Brasil, e junto com o grau de desenvolvimento do capitalismo no Brasil a capacidade de organi-zao burguesa brasileira. Acho que a gente no leva suficientemente em conta, ns vivemos num pas que ao longo do sculo 20 foram proibidas e reprimidas na violncia as formas de organizao populares e dos setores dos trabalhadores, porm foi estimulada, apoiada assegurada e garantida a associatividade empresarial.

    Marcos Zibordi O que isso significa?Pra gente ter idia do que isso significa, no Es-

    tado Novo foi proibida a livre associao quando o governo baixou o decreto do sindicalismo corpora-tivista, o decreto tambm valia para todo sindicato patronal e de trabalhadores. Enquanto para os sin-dicatos de trabalhadores esta lei foi imposta a ferro e fogo, os sindicatos que tentaram se manter con-tra o corporativismo foram fechados e os seus sin-dicalistas perseguidos. Para o patronato isso nunca aconteceu e eles tinham placa na porta, eles tinham, tm, pois at hoje existem Fiesp e Ciesp, Firjam e Cirjam. Em suma, eles mantiveram uma dupla re-presentao, uma que era oficial institucional e ou-tra paralela, a paralela pode para eles. Ento a gen-te tem aqui uma violncia seletiva popular.

    Hamilton Octavio de Souza - O que diferencia a situao brasileira?

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  • caros amigos setembro 2009 14

    A gente tem hoje uma forma de organizao bur-guesa no Brasil que foi justamente capaz, a partir da dcada de 90, no apenas de atacar a espinha dor-sal do movimento popular e do movimento dos tra-balhadores na virada dos anos 80 para os anos 90, como em parte incorporar uma parcela destes mo-vimentos. Isso que eu acho o mais dramtico. Qual foi a estratgia que se usou para isso que nos distin-gue bastante da Venezuela e da Bolvia? A estratgia primeira foi a formao da Fora Sindical, que foi a cunha que imps CUT uma adequao na massa. Essa foi a primeira, feita com o apoio patronal. A se-gunda foi o volume de demisses na dcada de 90. A terceira foi a precarizao do trabalho como forma normal. E a quarta, que no irrelevante e que tem a ver com o jogo poltico parlamentar, embora no aparea, foi exatamente o empresariamento das for-mas de organizao difundidas no pas, que na dca-da de 90 d um salto enorme com Fernando Henri-que, o salto das ONGs. A palavra ONG no explica tudo, eu tomo muito cuidado quando uso, porque ONG um pedacinho das fundaes e associaes sem fins lucrativos, que, segundo o IBGE, so 340 mil no ltimo censo feito em 2005. Tirando os sindicatos, tem mais de um milho de trabalhadores nessas enti-dades, tem mais que o servio federal todo, com sa-lrio de mil reais em 2005. Ns temos uma rede hoje que uma rede de organizao burguesa. Portan-to, diferentemente da Bolvia ou da Venezuela, onde no houve nenhum espao de incorporao de nada, onde a burguesia local uma burguesia pequena, restrita, uma burguesia com uma configurao bas-tante diferente da burguesia brasileira, eu diria que ns hoje estamos num pas capitalista desenvolvido. o que eu venho trabalhando. Um pas capitalista desenvolvido significa que a burguesia tem meios, tem recursos, tanto de seduo quanto de violncia, e eles usam os dois. A novidade que o recurso de seduo cresceu muito, de convencimento, cresceu a extenso das bolsas, a extenso dessa rede cultural associativa, uma dimenso de convencimento qua-se capilar, isso est no cotidiano.

    Lucia Rodrigues - A crise do Senado uma crise institucional?

    O que vocs esto chamando de crise institucio-nal? No, em princpio, no. Ela uma crise insti-tucional no sentido histrico, sim. Historicamente esta instituio uma instituio que formula pro-blemas, e deste ponto de vista ela uma crise da instituio. No sentido da populao, o conjunto da populao chama o Senado de pau de galinheiro, uma coisa normal. Este tipo de crise no Brasil sig-nifica alterao da instituio? At aqui nunca sig-nificou, ela ensima dessas crises, nos j conhece-mos essas crises. O dilema da questo da corrupo aparece como o mais grave porque uma corrup-o completamente institucionalizada, ela aparece como o mais grave exatamente porque o momento de incorporao poltica permitiria fazer sem gastar esse dinheiro, mas no d para fazer sem gastar esse dinheiro da corrupo, e porque tem a situaes de disputas internas que so meramente eleitorais, que esto em jogo agora, isto tambm clarssi-mo. Embora a corrupo seja uma coisa corriquei-ra, no significa que eu perca de vista que exista

    uma questo absolutamente epidrmica de debate que agora est se acirrando, que o processo elei-toral de 2010, e quem est atacando o Sarney so os seus aliados mais prximos de ontem e que se-ro seus aliados de amanh.

    Marcos Zibordi - Essa crise toda sobre as eleies de 2010?

    Ela tem um nvel real, o Senado brasileiro um marketing eleitoral dramtico, portanto socialmen-te isso srio. institucionalmente pensado des-sa forma e isso srio. Do ponto de vista da lgica da vida interna da luta poltica dos caciques, no nem dos oligarcas, dos caciques da poltica, essa uma briga absolutamente normal, eles fazem isso o tempo inteiro, eles jogam desse jeito. Acho que agora ficou mais claro.

    Tatiana Merlino O professor Chico de Oliveira acha que o que est por trs disso que existe uma colonizao da poltica pela economia, o que acha disso?

    Estou inteiramente de acordo com o Chico. Bom, uma sociedade capitalista plena j uma socieda-de na qual a economia parece fazer parte da nossa segunda pele, que a gente passa a viver como ino-vador, empresrio, lucro, investimento, investimen-to amoroso etc. J seria uma coisa mais ou menos normal. O que a gente imagina e sempre imaginou foi que a chegada do desenvolvimento capitalis-ta fosse a chegada num mar de rosas. Bem vindo realidade, a chegada ao capitalismo desenvolvido apenas a chegada no paraso do lucro. O pero-do no qual foi possvel aos trabalhadores de alguns pases impor maiorias substantivas, acabou. Mesmo isto est sendo devastado e ns chegamos ao capi-talismo desenvolvido sem que isso signifique que o conjunto da sociedade tenha uma melhora de qua-lidade substantiva garantida; tambm no signifi-ca que no tenha nenhuma melhora, tem porque a bolsa faz diferena.

    Hamilton Octavio de Souza - Nesse capitalismo desenvolvido como fica o papel das oligarquias? Elas tm espao? Esto presentes?

    Acho que quem tem o melhor trabalho sobre isso o Chico de Oliveira. Ainda o trabalho dele l da dcada de 70, Crtica da Razo Dualista, onde mais do que evidente que a ponta mais moderna da economia brasileira nutre, sustenta e recria a parte mais antiga. Ento no tem um arcaico que sobre-vive, o Sarney no um cara que sobreviveu, o Sar-ney um cara da Globo, o cara da Globo que nes-te momento no lhe muito conveniente, ento a Globo vai atacar o Sarney e eu no vou estar de-fendendo o Lula porque inimaginvel essa asso-ciao desse tipo.

    Marcos Zibordi - Ser que inimaginvel? No, inimaginvel no , insustentvel poli-

    ticamente se ns pensarmos na emancipao dos trabalhadores e numa vida mais igualitria na ga-rantia da educao, da sade, do transporte, da ali-mentao e da habitao em condies dignas. Se no pensarmos numa vida digna, isso entrar no jogo como eles definem que o jogo deve ser joga-

    do. Ento vo jogar numa hora contra, outra hora a favor, nada mais do que isso.

    Hamilton Octavio de Souza - Por que o Brasil no consegue virar essas pginas do passado e entrar numa outra era?

    Eu venho dizendo que entrou numa outra era. Uma coisa que de vez em quando eu paro para me perguntar : esse avano da capacidade de orga-nizao empresarial burguesa no Brasil significou que no so os seus candidatos que so os candi-datos. O que fizeram no foi com os seus candida-tos. O Fernando Henrique e o Jos Serra j no eram originalmente os seus candidatos muito mais ade-quados nesta gerao de banqueiros construda nos dois mandatos FHC. Eram muito mais adequados, aparentemente, para isso. Porm, de fato o gover-no Lula foi muito mais adequado para essa passa-gem, voc tem ao mesmo tempo uma manuteno dos grandes elos de controle mais eleitoral do que propriamente da economia. Mas o Sarney no o cara que decide a economia, no ele o decisor da economia, por alguma razo ele garante aos deci-sores da economia o controle de um determinado territrio, um controle eleitoral, e enquanto ele for interessante para isso ele serve, se no for mais in-teressante para isso talvez no sirva mais. O Sarney est chegando perto do fim da carreira dele, quan-do os seus prepostos, aqueles que sempre lhe sus-tentaram, agora esto contra ele.

    Lucia Rodrigues - Neste sentido o governo Lula no foi prejudicial ao avano das lutas dos movimentos sociais, na medida em que controla o sindicalismo cutista que poderia estar na rua fazendo presso no governo em determinadas questes pontuais da sociedade? No um retrocesso, neste sentido?

    Sem dvida. Do ponto de vista da auto-organi-zao da populao o governo Lula um retrocesso. Do ponto de vista de uma melhoria epidrmica de condies de vida, a gente no pode dizer isso por-que de fato seria falsear as condies reais. Porm, do ponto de vista de assegurar que a populao seja capaz de defender os seus direitos, o governo Lula foi um mega dum retrocesso. Ele pode at ter me-lhorado condies aqui ou acol, mas retirando as condies de luta pela garantia dos direitos.

    Renato Pompeu - Voce disse que o Brasil pode ser considerado um pas capitalista desenvolvido. Falou de desmantelamento da resistncia dos trabalhadores. Ser que no capitalismo desenvolvido no h o que fazer?

    No, ao contrrio. A nossa responsabilidade muito maior, o quadro muito mais dramtico, muito mais importante. Quando falo de capitalis-mo desenvolvido eu queria at mexer um pouqui-nho nisso para no dar idia de que eu estou falan-do de alguma coisa linda. de que ns temos uma burguesia organizada que lucra brutalmente a par-tir daqui de dentro associada com capitais multina-cionais e multinacionalizada ela prpria. Ns temos hoje um BNDES que financia mudana de escala e de exportao de capitais de empresas sediadas no Brasil, que so consideradas empresas brasileiras,

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    qualquer que seja a origem nacional dos capitais. Primeiro, as condies hoje em que o Brasil chega, entre aspas, a esse grau de capitalismo desenvolvi-do, so condies de truculncia de classe tambm, no so s de bolsa famlia. bolsa famlia e cavei-ro, PAC junto com caveiro, PAC junto com as-sassinato de jovens e, sobretudo, de jovens negros, os meninos negros favelados so os alvos favori-tos. impressionante. Diminuiu um pouco essa vio-lncia, mas a violncia continua brutal nas nossas grandes cidades, a guetificao continua, a separa-o dos bairros dramtica, brutal. Lgico que tem movimentos que resistem, o MST resiste, surpreen-dentemente resiste e eu fico satisfeitssima.

    Marcos Zibordi - Os movimentos sociais so hoje uma espcie de nova esquerda na Amrica Latina?

    Nova esquerda como? Por que nova esquerda quer dizer muita coisa. Alguns movimentos sim, outros no. Vamos por Gramsci que fica mais fcil. Uma sociedade capitalista desenvolvida uma so-ciedade na qual o Estado se amplia, e na qual tan-to a sociedade poltica, no sentido restrito, quanto a sociedade civil so mbitos de luta de classes. a que ns estamos. Ns estamos em luta de clas-ses em todos os lugares. A tendncia a de que se voc consegue ter uma luta contra-hegemnica mais forte no cho social, esta luta contra-hegem-nica aparea mais claramente no conjunto das enti-dades da sociedade poltica. Se no tiver, o conjun-to da sociedade poltica a fase hegemnica, mas a luta est em todos os espaos, a luta est no ter-reno dos movimentos sociais e eles tm que saber disso, na emergncia de alguns movimentos popu-lares. A luta de classes a luta contra o capital, a luta pela igualdade. A massa da populao bra-sileira trabalhadora hoje, e trabalhadora urbana, mas a grande massa da populao brasileira no se reconhece enquanto trabalhadora. Quem que no trabalha? Aumentou o nmero de desempregados? Sim, aumentou o nmero de desempregados. O cara pode no ter contrato de trabalho, mas vive como? Vai vender AmBev no sinal e isso significa econo-mia para a AmBev. Vai vender Nestl, vai vender AmBev. So formas degradadas de trabalho, so formas de degradao da fora de trabalho, mas so trabalho, e todos so trabalhadores.

    Hamilton Octavio de Souza - No marco do capitalismo, a democracia no Brasil tem condies de avanar?

    Toda democracia avana em funo da capacida-de de luta. Do ponto de vista do nosso processo his-trico brasileiro com relao s formas de governo ns temos um avano e consolidao da democracia, sem sombra de dvida. Qual o problema? O proble-ma que a democracia que se consolida no a de-mocracia do Brasil do sculo 21, mas do mundo do sculo 21, uma democracia sem direitos, uma de-mocracia na qual a economia blindou todos os ele-mentos de definio estratgica do pas, estes no esto em jogo, todos os candidatos tero o mesmo programa para isso e vo variar no suprfluo, vo variar no tamanho da bolsa, vo variar na adjacn-cia. Essa a grande questo: a democracia se conver-

    te, ela apresentada, eu leio O Globo religiosamente todo dia, ela apresentada unicamente como estra-tgia de eleio, de representao e eleio.

    Hamilton Octavio de Souza - Essa democracia tem condies de proporcionar uma vida melhor para o povo brasileiro?

    O predomnio do capital que exerce a estrutu-ra representativa. A liberdade de imprensa no Bra-sil impensvel. Ns temos um grande latifndio das famlias que controlam praticamente toda im-prensa, e elas bloqueiam inclusive a discusso de quais devem ser os critrios para a concesso. Que democracia essa na qual o que representa o ca-pital j est todo definido? Existem direitos cons-titucionais em vigor no Brasil, uma parcela deles existe, e ns vivemos em um estado de direito, s que uma democracia supe avano em direo igualdade, e em direo igualdade no avana-mos. Avanamos em direo a um estado de direi-to que necessariamente um estado que inclui ex-ceo se a igualdade no avana, porque direito para alguns enquanto exceo para outros. Al-gum pas avanou em direo democracia unica-mente pela existncia de regras do estado de direi-to? Nunca. Os avanos democrticos substantivos no sentido de uma igualdade real da vida social s avanaram a partir de luta ferrenha.

    Tatiana Merlino - Quando voc fala em crise, voc fala na crise econmica ou na crise do Senado?

    Crise econmica mundial. Vamos ajustar os termos: o que aparece no jornal como crise eco-nmica o quanto os capitalistas perderam, isto eu estou pouco me lixando, embora seja impor-tantssimo, isso no grave. Grave a crise so-cial que est sendo mantida h 30 anos em nome da garantia deste capital e agora quando ele en-tra na sua crise, refora ainda a crise social para garantir este capital. Os procedimentos clssicos

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    para permitir que o capitalismo saia da crise so procedimentos que esto em curso no mundo h 30 anos, entre eles demisso massiva, expropria-o massiva da populao, tanto a expropriao da terra quanto as demais expropriaes em cur-so, reforo da explorao do trabalho e superex-plorao esto em curso e vo piorar.

    Lucia Rodrigues - O professor Paulo Arantes acha que ns caminhamos para a fascistizao. Como v essa considerao?

    Essa fascistizao est presente, ela est laten-te, se isso se desdobra para uma fascistizao, e se a gente tem condies de lutar contra isso, outro cenrio. Voc pega a televiso brasileira, uma te-leviso que o tempo todo atua criminalizando seto-res populares de maneira absolutamente falsifica-da. uma falsificao brutal do que vem a ser as lutas populares, tanto no caso das mulheres, do ra-cismo, quanto do caso dos sindicatos e do conjun-to de luta de classes. Essa falsificao abre espa-o para um protofascismo que vai se expressando, aglomerando, amalgamando coisas contraditrias e fazendo uma espcie de defesa de todos, a par-tir dos esmagamento de qualquer contestao. Esso latente, no s no Brasil, est latente-larvar nos Estados Unidos e na Europa. O risco de fascismo um risco presente.

    Lucia Rodrigues - Dos nomes que esto postos para concorrer a Presidncia da Repblica em 2010, com quem os trabalhadores vo contar?

    Que norte voc esta querendo me dizer a?

    Lcia Rodrigues - Dilma, Serra, Helosa Helena, Marina Silva, Ciro Gomes...

    Nenhum desses nomes.

    Brbara Mengardo - Como v atualmente a situao dos partidos polticos como um todo no Brasil?

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    a mesma coisa, no geral. Vamos devagar por-que tem uma quantidade enorme de partidos no Brasil. Ns temos um grande conjunto de partidos que ns podemos chamar de partidos da direita tra-dicional brasileira, umbilicalmente ligado ordem empresarial, direto. Vai do PSDB para l do espec-tro e so todos partidos da ordem imediata. No tem nenhuma mediao, no organizam setores popu-lares, so partidos literalmente da ordem. A nica mediao que eles fazem uma mediao intelec-tual, mas mesmo isso est acabando porque o Fer-nando Henrique j foi, o Serra j est indo e nem isso est sendo efetivamente renovado.

    Tatiana Merlino - Um quadro da direita?Um quadro da direita com o porte para essa con-

    figurao, nem o Acio tem. O Acio que vai agora privatizar penitenciaria, o exemplo de poltica p-blica privatizar penitenciaria. O Ciro... Nenhum destes candidatos, todos eles vm de grandes fam-lias, tem histrico bastante slido, tendencialmen-te todos da ordem, so a fala da ordem. O lugar do PT a fala da ordem amaciada, o lugar de onde possvel transferir, ou pelo menos tentar transferir o que intuito de organizao em institucionaliza-o da mesma ordem. E tem um conjunto de parti-dos menores que so partidos esquerda, no qual est PSOL, PSTU, PCB, e o PCdoB est completa-mente junto com o PT.

    Tatiana Merlino - Voc v o PSOL como uma alternativa?

    O PSOL um partido diferente, ele tem uma ori-gem diferente do PT. Como alternativa de governo, nenhum partido que ganhe uma eleio muda nada. S se ganha alguma coisa com movimento social e consolidao de movimento popular. Ento qual-quer nome que entre no altera o jogo. O que seria importante que nas campanhas eleitorais os can-didatos de esquerda fossem ao menos capazes de di-zer qual a luta que ns devemos fazer, mas nem

    isso. Toro para que o PSOL consiga sair com uma plataforma ou programa onde pelo menos se dis-cuta quais so as grandes questes, ns temos pelo menos de enfrentar uma burguesia poderosa, ns temos que organizar uma populao que est pe-dindo para ser organizada.

    Lcia Rodrigues - O socialismo tem que estar claro?

    Tem que estar claro na atuao e na fala. Des-se ponto de vista se v a diferena quando vem um movimento popular social e que fala claramente. Ns temos PSOL, tem PSTU, tem PCB, ns temos centrais sindicais, tem Conlutas, tem Intersindical, temos espaos de luta, temos que avanar nestes es-paos de luta, so pequenos, no tm espao insti-tucional, no. Podem ter audincia se tiverem cora-gem de fazer, se no ficarem recuados.

    Wagner Nabuco - Como que voc v a questo do desejo? As pessoas tm desejos reais de ter bens, seja o seu carro, a sua casa, a sua moto.

    Bem, vou comear invertendo a tua formulao, porque isto que voc chama de desejo das pesso-as o que produzido nas pessoas como forma de integrao social. Ns hoje acreditamos que estar na vida social ter microondas, ter carro e dane-se que voc tenha que gradear tudo, botar cadea-do em tudo, botar aquela coisa de arame farpado em volta e andar armado. Voc est na priso na vida real, no precisa ir para priso por que j vive na priso. Que isso seja o desejo da humanidade, eu no acredito.

    Marcos Zibordi - Mas as pessoas sentem isso.Lgico, por que ns somos pessoas sociais, ns

    vivemos em uma sociedade que coloca para a gen-te, hoje, que o que define a existncia humana ter um par de tnis reebook ou um microondas no sei das quantas. Quando ns sabemos que ter um ree-book ou ter um microondas no altera a tua existn-

    cia, que o ter no o ser, e que, portanto, o poder ser plenamente algo muito mais interessante do que o mero acmulo de coisas. O primeiro autor que tra-balha muito bem isso o [Istvan] Meszros, que tem um captulo maravilhoso sobre a taxa da utilizao do valor de uso, porque hoje a maior parte das coisas que a gente tem para jogar fora, no para usar, para jogar fora. Eu tenho um celular para durar seis meses. Uma boa parte da classe mdia compra ca-miseta que no vai usar nunca, tem pilhas de roupas nos armrios que no vai usar nunca. Portanto, no que as massas queiram igual. Ser por que ns no reconhecemos em ns mesmos uma humanidade di-ferente desta da do ter?

    Wagner Nabuco - Acho que no.Eu acho que sim. Ns precisamos de uma huma-

    nidade diferente da do ter, ns precisamos substan-tivamente, ns no aguentamos ver isso nos nos-sos filhos. O que a gente faz com os nossos filhos? Educa para ser monstro e admite que est educan-do para ser monstro. No possvel que a gente no encontre na gente o quanto que isso insuport-vel. Eu no estou querendo falar contra mquinas e nem contra tecnologia, estou querendo lembrar que existe uma grande diferena na liberdade da mulher e a mquina de lavar roupa: a liberdade da mulher no uma mquina de lavar roupa, ainda que uma mquina de lavar roupa possa eventualmente atuar pela liberdade da mulher.

    Marcos Zibordi - Para que ela continue trabalhando enquanto a maquina trabalha tambm.

    Para que ela abra outro espao de trabalho en-quanto isso. Todos queremos uma vida confortvel, ningum quer uma vida de misria, mas a sociedade contempornea para promover esse desperdcio pre-cisa produzir uma misria humana que ns no te-mos nem escala para administrar. Para mim no apenas uma questo de convico e crena, to evi-dente isso na vida social, to claro como possvel viver de outra forma. Isso uma coisa to forte hoje, essa necessidade de uma vida com sentido, que uma boa parte das pessoas vai procurar uma religio, por-que procura um sentido para vida que no encontra no mundo dos homens; ns somos humanos.

    Marcos Zibordi - A religio humana.A religio humana, eu estou de acordo com

    voc. A religio totalmente humana, mas fala em nome de uma entidade extra-humana que domi-na fora dos homens os homens. Esse o problema, e ns precisamos ter claro que independentemen-te da religio que qualquer um tenha, ns precisa-mos de um mundo humano digno. Essa a chave. O desejo das massas viver dignamente, vai estar pautada por cima dele a suposio de que a digni-dade ter coisas, porm a gente tem de ter claro que o desejo das massas viver dignamente. Por isso se acomoda por alguma gota, porque melhora as condies, mas melhora as condies imediatas. Isso quer dizer que melhora alguma coisa do pon-to de vista da igualdade? Ainda no, ento, essa dignidade humana no est plena, onde tem desi-gualdade ela no est plena.

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  • 17setembro 2009 caros amigos

    Tatiana Merlino

    quadro do regime militar. Ex-poltico da Arena. H dcadas, dono do estado do Maranho. Famoso por prticas cliente-listas, fisiolgicas e corruptas. Depois de mais de meio sculo de uma vida pblica com esse cur-rculo invejvel, s agora, em 2009, Jos Sarney (PMDB-AP) foi desmascarado. Os responsveis por alertar (ou iluminar) a opinio pblica foram os representantes do PSDB e do DEM, alm, cla-ro, da grande imprensa.

    Piv da crise instaurada no Senado Federal, seu presidente acumulava 11 acusaes no Conselho de tica da Casa. No entanto, todas as denncias foram arquivadas, com a decisiva ajuda da ban-cada do PT.

    Desde o comeo do ano, a chamada Cmara Alta do legislativo brasileiro viu sua imagem ainda mais comprometida com a divulgao de uma srie de ir-regularidades, como o excesso de diretorias, horas extras pagas a servidores durante o recesso parla-mentar, mal uso das cotas de passagens areas e a utilizao de atos secretos para nomear de apadri-nhados e aumentar salrios.

    A oposio defendia que se investigasse, ainda, a denncia de que Sarney omitiu da Justia Elei-toral uma propriedade de R$ 4 milhes, alm da acusao de que o parlamentar teria participado do desvio de R$ 500 mil da Fundao Jos Sarney, que atua no Maranho. Na outra representao, o PSOL pedia para o Conselho de tica do Senado

    investigar o presidente da Casa pela edio de atos secretos que teriam beneficiado parentes e afilha-dos polticos.

    A suspeita a de que Sarney teria interferido a favor de um neto que intermediava operaes de crdito consignado para servidores do Senado, usado seu cargo a favor da fundao que leva seu nome e mentido sobre a responsabilidade adminis-trativa pela entidade.

    As denncias pediam investigaes, ainda, sobre a acusao de que o presidente do Senado estaria envolvido em vendas de terras sem o pagamento de impostos e de que teria recebido informaes privi-legiadas da Polcia Federal em inqurito que inves-tigou seu filho, Fernando Sarney.

    Apesar de a oposio ter defendido que a sada do presidente do Senado era a soluo, a atual crise da Casa tem origem mais longnqua e reflete distores srias do sistema poltico eleitoral brasileiro. Foto Jos Cruz/ABR

    A crise mais velha que o sArney

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    Origem lOngnquAAssim, nada mais normal que o movimento

    Fora, Sarney, bradado por diversos setores, en-tre eles colunistas da grande imprensa, sinalize que a sada do mandatrio do Senado daria conta dos problemas ticos da casa. No entanto, a atual cri-se tem origens bem mais longnquas, e reflexo de uma crise maior da democracia e do sistema pol-tico eleitoral brasileiro, sustenta o socilogo Fran-cisco de Oliveira, professor emrito da Universida-de de So Paulo (USP). Ela muito maior e muito mais ampla do que essas falcatruas das quais os se-nadores esto sendo acusados.

    Todas as irregularidades cometidas pelo senador maranhense nada mais so do que o resultado da acumulao das corrupes que historicamente fa-zem parte, no apenas do Senado, mas de todo o sis-tema poltico que vigora no pas, acredita Waldemar Rossi, coordenador da Pastoral Operria, entidade li-gada Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Para ele, esse escndalo se incorpora aos do mensalo, do sanguessuga, dos cartes corpora-tivos, dos altssimos salrios com seus reajustes fre-quentes e a um sem nmero de benefcios aos par-lamentares. Ele tambm se incorpora s corrupes reveladas em vrias instncias do prprio Judicirio. Tudo est definitivamente podre, assinala.

    J para o economista Joo Pedro Stedile, da di-reo nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a atuao do ex presidente da Repblica no Senado uma aula didtica, di-ria, de como os ricos no Brasil usam a coisa pblica apenas em beneficio de sua classe de apadrinhados. Assim, a crise que atinge hoje o Senado tem origem no sistema arcaico e nada democrtico de eleies no Brasil. As oligarquias seguem dominando todo o eleitorado, em especial os mais pobres. Elas tm o dinheiro repassado pelas empreiteiras e bancos, e controlam todos os meios de comunicao. O Sar-ney apenas a cara mais nua e antiga da classe do-minante brasileira, e de como ela est acostumada a atuar na institucionalidade, analisa. Fica Sarney! Voc to didtico, ironiza.

    No entanto, o cientista poltico carioca Wander-ley Guilherme dos Santos no acredita que a cri-se que o pas vive hoje seja decorrente da decadn-cia da democracia brasileira. Basta ver como temos uma participao elevada nas eleies, diz. Segun-do ele, o problema est relacionado com a fragilidade das instituies representativas brasileiras diante do potencial sedutor da corrupo. No Brasil, muito fcil comprar um deputado, um senador. Isso que vergonhoso. O pas vive um estgio histrico em que ainda somos dominados pela oligarquia, define.

    cOlOnizAO Na avaliao do professor Chico de Oliveira, no

    entanto, a origem principal da crise no Senado Fe-deral decorre de uma tendncia mundial: a perda de importncia poltica das cmaras de representa-o. Estamos vivendo um momento histrico em que h uma colonizao da poltica pela econo-mia, sustenta. Ou seja: a primeira vem sendo dei-xada em segundo plano, em detrimento de objeti-vos econmicos.

    Desse modo, explica, a pressa do sistema ca-

    pitalista e a obsolescncia acelerada das leis tm obrigado a uma interveno mais ativa do Poder Executivo. Na verdade, quem legisla no Brasil o Executivo. Por exemplo, qualquer medida de na-tureza sanitria, aquela que mexe com o dinheiro pblico, no pode ter origem nem na Cmara nem no Senado. o Executivo que origina. A iniciati-va sempre dele, explica. Como consequncia de tal concentrao de poderes no sistema capitalista, a poltica institucional vai se tornando pouco rele-vante para o povo. No tem nenhuma grande me-dida poltica com efeitos sobre a populao que seja de iniciativa da Cmara ou do Senado. Tudo que importante sai do Executivo. A populao percebe isso. O uso indiscriminado das Medidas Provisrias seria um exemplo disso. O governo praticamente governa com elas. um abuso.

    JOgO pOlticO Mesmo assim, o apoio do PMDB sempre foi fun-

    damental para a garantia da governabilidade, seja nos dois mandatos do governo Lula, seja nos oito anos de FHC. Alm disso, Sarney, historicamente, foi aliado de muitos peixes grandes de partidos como o PSDB e DEM, antiga Arena, partido do regime civil militar do qual Jos Sarney era integrante.

    Por que, ento, agora ele deixou de servir para tais setores da direita? Ideologicamente, no h nada que oponha os Democratas ao Sarney, recor-da Oliveira. Nessa crise do Senado, salvo algumas posies muito consistentes que partem ou de po-sies ideolgicas, como o PSOL, ou de uma vida com muita coerncia, como o senador Pedro Simon, tudo muito embolado, no tem muita consistn-cia ideolgica. Trata-se meramente de jogo polti-co, analisa.

    Assim, apesar de Sarney ter sido alado condi-o de maior inimigo da nao brasileira, as denn-cias de corrupo no so exclusividade sua. Nin-gum vai levar em considerao que o DEM est na 1 Secretaria do Senado nos ltimos cinco anos? E o envolvimento em escndalos praticados pelos tu-canos, entre eles o presidente nacional do PSDB, se-nador Srgio Guerra, e o lder do partido, senador Arthur Virglio? Nada menos que dez senadores do DEM e do PSDB so processados judicialmente no Supremo Tribunal Federal, aponta o petista e ex-ministro chefe da Casa Civil, Jos Dirceu. O DEM no s votou em Sarney para presidente do Senado como faz e fazia parte do grupo que dirige a Casa h anos, completa.

    Questionado sobre o motivo pelo qual o PT e o presidente Lula defendem Sarney, o assessor espe-cial de Poltica Externa do presidente da Repbli-ca, e vice-presidente do PT, Marco Aurlio Garcia, respondeu: Por que concentrar nele acusaes que podem ser perfeitamente socializadas para quase

    todo o Senado? No necessrio ser um grande analista poltico para concluir que se trata de um ataque contra o governo Lula. uma manobra para colocar na presidncia do Senado um tucano e, ao mesmo tempo, uma tentativa de minar uma aliana entre o PMDB e os partidos de esquerda.

    Portanto, o que explicaria o fato do aliado do passado se tornar o inimigo do presente so as eleies presidenciais de 2010. Tem a ver com dificultar a consolidao de coligaes e alianas, e, nesse sentido, vale tudo. Em todo perodo pr eleitoral acontece a criao de turbulncias polti-cas dessa natureza, sustenta Wanderley Guilher-me dos Santos.

    preO dA gOvernAbilidAdeNo entanto, o governo Lula est longe de ser a

    grande vtima dessa histria. Desde o comeo do primeiro mandato, em 2003, o PMDB foi o aliado principal pra garantir a to almejada governabili-dade no Congresso Nacional. Pese o fato de que a presidncia da Repblica vem sendo ocupada h 15 anos ora pelo PT, ora pelo PSDB, o PMDB , ainda, o principal partido do pas. o fiel da balana no parlamento e o que possui o maior nmero de pre-feituras pelo pas. Portanto, a aproximao com um dos seus principais caciques era fundamental.

    Desse modo, seis anos e meio aps virar gover-no, a opo por preservar a aliana com o PMDB para garantir a eleio da atual ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, em 2010, levou o PT e o presidente Lula a apoiarem o fim das investigaes contra o senador do Amap.

    Portanto, a opo por defender Sarney, na opi-nio do professor Chico de Oliveira, puro oportu-nismo. Para armar um palanque para Dilma, vale tudo, at defender o Sarney hoje e amanh jog-lo s traas, avalia.

    Durante a sesso do Conselho de tica do Sena-do que anulou as denncias contra Sarney, o PT di-vulgou uma nota em que orientava seus senadores a votarem pelo arquivamento do processo no Senado. No texto, o presidente do partido, Ricardo Berzoini, pedia a apurao das irregularidades pelo Minist-rio Pblico e pela Polcia Federal, e atribua a cri-se em torno de Sarney a uma disputa poltica rela-cionada s eleies de 2010.

    O lder da bancada, Aloizio Mercadante (SP), que j havia sinalizado estar disposto a desarquivar pelo menos uma acusao contra Sarney, se recusou a ler a carta. Aps a votao, Mercadante chegou a anunciar que deixaria a liderana. Porm, aps ser enquadrado por Lula, o senador petista recuou e disse que ficaria no cargo a pedido do presidente. Mais uma vez no tenho como dizer no ao pre-sidente Lula. Meu governo errou, o partido errou e eu errei. Eu peo desculpas, mas, pela minha hist-

    Para armar um palanque para Dilma, vale tudo, at defender o Sarney hoje e amanh jog-lo s traas,

    avalia o socilogo Chico de Oliveira.

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  • 19setembro 2009 caros amigos

    ria com o Lula, no posso dizer no, afirmou. Mer-cadante tambm defendeu a manuteno da aliana pela governabilidade com o PMDB e afirmou que a crise no s de Sarney, devendo ser compartilha-da por todos os 81 senadores da Casa.

    De acordo com Waldemar Rossi, da Pastoral Ope-rria, o PT vem demonstrando estar numa encruzi-lhada, porque sempre fez tudo o que Lula mandou. Seus dirigentes e parlamentares so sempre subser-vientes ao Lula, defendendo-o contra a prpria ra-zo e o bom senso. No devemos nos esquecer que Lula bancou o Sarney para a presidncia do Senado por puro fisiologismo, cooptando o PMDB, que tem estado ao seu lado para o que der e vier, at mesmo para a aprovao de mudanas na Constituio que vm prejudicando os trabalhadores. Alis, o Lula est redimindo o prprio Collor!, indigna-se.

    Joo Pedro Stedile, assim como Chico de Olivei-ra, avalia a defesa de Sarney pelo PT como prag-matismo: A prioridade nmero um eleger Dilma, e eles fazem o clculo de que precisam da alian-a com PMDB (mas c entre ns, poderiam esco-lher uma ala melhor da federao peemedebista). Por conta disso, taparam o nariz, os olhos..., criti-ca. Em alguns Estados, a justificativa para apoiar candidatos a governador do PMDB se d na mes-ma base ou pior, como aconteceu no Maranho, ao apoiar o golpe que o Sarney deu no Jackson Lago, para dep-lo no tapeto e repor sua filhota [Rose-ana Sarney], agora no PMDB. Em troca, eles ga-nharam duas secretarias estaduais. Espero que o PT e o governo se deem conta de que no precisam se abaixar tanto para elegerem a Dilma.

    No caso da cassao do governador Jackson Lago, qual Stedile se refere, Lula e o PT nacional fingiram-se de mortos. Desde a eleio de Lago, em 2006, o presidente nunca havia ido ao Maranho.

    velhO OligArcASarney um dos remanescentes das antigas oli-

    garquias que participaram, por muito tempo, do co-mando do Estado brasileiro. No Maranho, onde foi governador nos anos 60, ele, sua famlia e seus aliados so, na prtica, o Estado. Conhecido como o coronel local, h dcadas Sarney manda prender e manda soltar. As instituies pblicas, o Judici-rio, a mdia, todas esto sob seu controle.

    Sarney aderiu ao regime militar e foi lder do diretrio nacional da Arena. Governador do Mara-nho nos anos 60, tornou-se, em 1985, candidato a vice-presidente de Tancredo Neves, durante a tran-sio do Brasil para a democracia. Com a morte do presidente eleito, antes mesmo de sua posse, Sar-ney assumiu o cargo.

    s voltas com graves crises econmicas e sociais, Sarney articulou o aumento do seu mandato, de qua-tro para cinco anos. Para ganhar o apoio dos con-gressistas, presenteou-os com concesses de rdio e TV, poltica executada por seu ministro das Comuni-caes da poca, Antonio Carlos Magalhes.

    Desde o fim do seu mandato presidencial, em 1990, ele tem sido eleito senador. Com um deta-lhe curioso: pelo Estado do Amap, onde nunca vi-veu. Anos depois, aps o impeachment do presi-dente Fernando Collor de Mello, Sarney aliou-se a seu sucessor, Itamar Franco. Posteriormente, foi da

    base de sustentao do presidente Fernando Hen-rique Cardoso, elegendo-se presidente do Senado com seu apoio. Hoje, aliado do presidente Luiz Incio Lula da Silva.

    bicAmerAl Ou unicAmerAl?Os escndalos recentes tm motivado discusses

    acerca das funes do Senado Federal e da possvel adoo do sistema unicameral. Criado juntamente com a primeira Constituio do Imprio, em 1824, a instituio foi in