a academia dos humildes e ignorantes (1758 – 1770): as letras e

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Pedro F. Catarino Luís A Academia dos Humildes e Ignorantes (1758 – 1770): as letras e as luzes para o homem comum. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 2009

Author: vutuong

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  • Pedro F. Catarino Lus

    A Academia dos Humildes e Ignorantes (1758 1770): as letras e as luzes para o homem comum.

    Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 2009

  • 2

    Autor: Pedro F. Catarino Lus.

    Ttulo: A Academia dos Humildes e Ignorantes (1758 1770): as letras e as luzes para o

    homem comum.

    Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2009.

    Dissertao de Mestrado em Histria Moderna: Poderes, Ideias e Instituies, apresentada

    Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sob a orientao da Professora Doutora

    Isabel Ferreira da Mota.

  • 3

    NDICE

    1. Introduo ....

    5

    2. Academias imaginrias e sociabilidade intelectual ficcionada na literatura setecentista

    7

    3. A Academia dos Humildes e Ignorantes ..

    16

    3.1. As conferncias da academia: temas e fontes ...

    20

    3.2. Do aplauso crtica: a opinio pblica e o bem comum ..

    55

    3.3. Do anonimato para a luz: Frei Joaquim de Santa Rita ......

    61

    3.4. Impresso e Publicao: o negcio de um sucesso literrio .

    70

    4. Consideraes finais ....

    79

    5. Fontes e Bibliografia .....

    84

    Anexos .....

    92

  • 4

    Abreviaturas Utilizadas

    AHI Academia dos Humildes e Ignorantes

    ANTT Arquivos Nacionais / Torre do Tombo

    BGUC Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

    BNL Biblioteca Nacional de Lisboa

    Nota sobre metodologia utilizada em transcries: normalizou-se a escrita para a linguagem

    contempornea, mantendo-se nalguns casos os nomes ou ttulos conforme o original.

    Todas as citaes, transcries ou referncias obra Academida dos Humildes e Ignorantes

    de Joaquim de Santa Rita, seguem a terminologia [AHI, T_, C_, p._]: AHI Academia dos

    Humildes e Ignorantes; T N do Tomo, C N da Conferncia; p. pgina. Para uma

    relao entre o ano exacto de publicao de cada conferncia ou transcrio consultar tabela

    em anexo relativa s datas de impresso da obra.

  • 5

    1. Introduo

    IGNORANTE. Falto de cincia. Que no tem letras.1

    O universo literrio do sculo XVIII deixou-nos relquias e tesouros do imaginrio

    humano, que impressos pelo vapor tipogrfico do sculo, alimentando vidos comerciantes de

    livros indiferentes aos valores contidos nas mercadorias que vendiam, permitem-nos hoje

    olhar para um magnfico espao de ideias representativas de uma sociedade que escreveu o

    prefcio dos tempos modernos. algures nesse espao de ideias que a presente dissertao

    encontrou as suas musas, pretendendo aqui inaugurar dois temas no campo da Histria das

    Ideias e da Cultura. Por um lado mostrar um campo da literatura portuguesa setecentista que

    transportou a sociabilidade intelectual da poca para a fico. Por outro, trazer luz os

    resultados de um processo de investigao que teve como objecto de estudo um dos expoentes

    mximos dessa fico literria, a Academia dos Humildes e Ignorantes.

    Seria impossvel desassociar estes temas a duas matrias amplamente estudadas no

    campo historiogrfico, o movimento filosfico das luzes ou Iluminismo, e a Repblica das

    Letras, sobretudo porque o que ir aqui ser tratado apresenta-se como uma materializao

    prtica desse iderio filosfico. Enquadrado tambm na temtica da Histria do livro, das

    impresses e do negcio livreiro, da crtica e da opinio pblica, e da Histria das academias

    literrias e cientficas que comearam a surgir por toda Europa desde a segunda metade do

    sculo XVI.

    Para aqueles que colocam o movimento das luzes em Portugal como um produto de

    estrangeirados, para aqueles que o criticam por ter sido um reservado movimento de elites,

    para aqueles que o catalogam depreciando-o e tambm para os que se preocupam em ter um

    iluminismo portugus, prope-se aqui uma expresso de um de iluminismo popular, assente

    na obra de um homem que decidiu criar uma academia fictcia, recorrendo ao engenho

    literrio. Numa poca em que as academias estavam em voga, renascendo em nome da

    Histria ou da Literatura, so inmeros os nomes das novas academias de eruditos do sculo

    XVIII. Mas todas elas com uma particularidade, as suas portas apenas se abriram para uma

    estrita elite social de uma sociedade de classes, que mergulhada num certo elitismo intelectual

    traiu um dos objectivos da filosofia do esclarecimento, o de levar as luzes da razo a todos.

    nessa particularidade que a Academia dos Humildes e Ignorantes se distingue de todas as

    outras, pois era dedicada a um pblico muito especial, a uma outra classe, mais inferior, mas

    muito maior. Para os humildes e ignorantes, para os pobres e iletrados, para os trabalhadores,

    1 BLUTEAU, Raphael, Vocabulrio Portuguez e Latino, Tomo IV, 1713, p. 43.

  • 6

    abrem-se as portas do saber ao homem comum. Frei Joaquim de Santa Rita fundou assim a

    sua academia para o povo.

    Uma obra literria setecentista com o objectivo de compendiar o conhecimento, e

    oferecer uma histria universal, inserida num movimento literrio bastante comum na poca,

    inspirado pelos enciclopedistas, num exerccio de divulgao de conhecimentos e sobretudo

    da nova Filosofia Natural, onde livros e peridicos transformaram-se em canais de

    transmisso e sobretudo de vulgarizao de ideias. Ideias tocadas pelos ideais dos homens das

    luzes, que ao mesmo tempo alimentaram um negcio bastante lucrativo.

    O objectivo central deste trabalho ser assim o de revelar uma Academia dos

    Humildes e Ignorantes, enquanto obra literria portuguesa polmica do sculo XVIII.

    Procurando sobretudo trazer novas luzes sobre os seus contedos, e sobre o seu ignorado mas

    erudito e informado autor. Neste sentido a obra ser analisada como uma materializao do

    esprito das luzes, enquanto compndio do saber oferecido invulgarmente ao homem comum.

    Esta obra, atravs da representao sociolgica de uma academia imaginria, com o objectivo

    enciclopdico de deter nas suas pginas os mais diversos temas, foi alvo de crticas, discusso

    pblica, polmicas, intrigas, e interesses econmicos. O que ampliou este estudo para uma

    perspectivao da obra enquanto produto de um mercado livreiro em forte desenvolvimento,

    atravs da anlise de dados relativos sua publicao, impresso e comercializao, que

    adiantando algumas concluses parece ter sido um sucesso literrio, no s pelas suas

    inmeras reedies, como tambm pelo nmero de coleces que sobreviveram at hoje.

  • 7

    2. Academias imaginrias e sociabilidade intelectual ficcionada na literatura

    setecentista

    Academia nome, que geralmente se d ao lugar, em que florescem as cincias, ou artes,

    e a todo o ajuntamento de homens doutos, que especulam, ensinam, e adiantam as mesmas

    artes ou cincias. Os Gregos foram os primeiros inventores delas, e causa de que os

    Romanos, que foram seus discpulos, fundassem depois muitas, a que tambm na Europa

    chamaram Universidades, deixando o nome Academia como prprio s para as Juntas dos

    homens doutos, que no ensinam discpulos, e s cuidam no adiantamento das cincias,

    artes, ou verdade das histrias com os estudos, e escritos. 1

    O charme literrio e cientfico do sculo XVIII ficou registado nas memrias do tempo

    pelas inmeras obras e escritos, frutos de um gnio criador, do homem das letras inspirado

    pelas luzes. Desde os finais do sculo XVII comeam a proliferar diversas academias de

    intelectuais e diletantes, das artes e das letras, e mais tarde da cincia. A estas academias

    podemos ver sempre associado o nome de ilustres eruditos, personagens carismticas,

    reunidas por uma paixo comum: o amor ao conhecimento, s letras e s artes. Unidos pela

    curiosidade, pela vontade de resolver os mistrios da vida e do mundo, do universo e da

    humanidade, mistrios esses que desde os princpios dos tempos assombram a mente do

    homem. Inspiradas pela Academia de Plato, onde um membro poderia seguir qualquer

    caminho do conhecimento no lhe sendo imposto nenhum programa fixo de aprendizagem,

    vemos nascer agora grupos de intelectuais, que juntos por essa vontade de partilha de ideias e

    de discusso de temas, como que se de nada servisse a erudio no havendo com quem a

    partilhar, deram origem a um interessante fenmeno de sociabilidade intelectual, que assumiu

    diversos contornos e grandezas. Tertlias, sales de leitura, botequins, livrarias, bibliotecas,

    universidades, academias, ou lojas manicas, todos jardins do conhecimento, mais ou menos

    institucionalizados, mais ou menos discretos, mais ou menos privados, tiveram em comum

    serem um espao dimensional de relacionamento de indivduos e de consubstanciao de

    ideias que firmaram uma crescente crena ideolgica da primazia da razo. Esta proliferao

    de espaos de interaco intelectual, trouxe uma nova consciencializao cientfica e o

    desabrochar de uma nova filosofia natural, a constante e inquieta curiosidade humana por

    desvendar o universo, por via de um racionalismo inerente ou de uma mera paixo pela arte, a

    elevao do conhecimento a uma nova divindade, uma luz exaltada para fulminar as trevas

    1 [AHI, T7, C16, p. 191].

  • 8

    que mergulharam o mundo num negro lago de mitos e medos, criaram um novo campo de

    ideias durante o sculo das luzes.

    Surge assim representada em diversas obras, uma sociabilidade intelectual da poca,

    imaginada e recriada pelo artfice literrio, colocando as novas correntes de um pensamento

    iluminado no papel de personagens intelectuais interagindo em espaos sociais. Estas obras

    unem-se curiosamente por um sentido prtico das luzes atravs de uma tentativa sempre

    presente de compilao do conhecimento, com a aspirao de contribuir para a compreenso

    do mundo, da vida e do universo, elevando a Histria e a Filosofia Natural a um novo

    patamar. atravs da representao cnica de dilogos entre eruditos, palestras, conferncias

    ou aulas que podemos observar um conjunto de obras de autores portugueses a dar vida s

    letras e s luzes. Desde a Academia dos Humildes e Ignorantes1 de Joaquim de Santa Rita,

    tema central deste estudo, aos Estrangeiros no Lima2 de Manuel Gomes de Lima Bezerra de

    1785 e 1791, Academia Singular e Universal do Frei Jos de Jesus Maria de 1737, passando

    pela Palestra Admirvel3 de Jos ngelo de Morais, que iniciou a sua publicao em 1759, ou

    a sublime Recreao Filosfica4 do erudito Padre Teodoro de Almeida, cujo primeiro tomo

    foi publicado em 1751. Estas obras unem-se tambm por encarnarem um esprito de partilha

    de ideias e de democratizao do conhecimento, pretendendo fazer chegar a sua obra a

    todos, forma tambm de educao do povo, combate ociosidade e em ltima instncia

    desenvolvimento da nao. Em conjunto representam um movimento de vulgarizao do

    saber, atravs de uma divulgao sistemtica de todo o tipo de assuntos.

    1 Ttulos completos: Academia dos humildes, e ignorantes: dialogo entre hum theologo, hum philosopho, um

    ermito, e hum soldado, no sitio de Nossa Senhora da Consolao: obra utilissma para todas as pessoas

    ecclesiasticas e seculares que no tem livrarias suas, nem tempo para se aproveitar das pblicas...., Tomos I a

    VI, Lisboa de 1760 a 1762; Academia dos humildes, e ignorantes: no sitio de Nossa Senhora da Consolao

    sua protectora, dialogo entre hum theologo, hum letrado, um filosofo, hum ermito, hum estudante, e hum

    soldado, Tomos VII e VIII, Lisboa, 1765 e 1770. 2 BEZERRA, Manuel Gomes de Lima, Os Estrangeiros no Lima: ou conversaoens eruditas sobre varios pontos

    de Historia Ecclesiastica, Civil, Litteraria, Natural, Genealgica, Antiguidades, Geographia, Agricultura,

    Commercio Artes, e Sciencias Real Oficina da Universidade, Coimbra, Tomo I 1785 e Tomo II 1791. 3 MORAIS, Jos ngelo de, (pseud. Joz Maregelo de Osan), Palestra Admirvel, Conversao Proveitosa, E

    noticia universal do Mundo. Distribuda por nmeros e semanas. Para emprego da ociosidade, desterro da

    melancolia, e lio para recrear, e instruir a todo o estado de pessoas, impresso na Oficina de Francisco Borges

    de Sousa, n I ao n XII, Lisboa, 1759; n XIV ao n XVIII, Lisboa, 1760. 4 ALMEIDA, Teodoro de, Recreaso Filozofica, ou dialogo sobre a Filozofia Natural, para instruo de

    pessoas curiozas, que no frequentaram as aulas, 10 Tomos, Lisboa, [1751- 1752; 1757; 1761-1762; 1785;

    1792-1793; 1800].

  • 9

    A Palestra Admirvel, Conversao Proveitosa, e Notcia Universal do Mundo,

    prope ser uma obra para emprego da ociosidade, desterro da melancolia, e lio para recrear

    e instruir todo o estado de pessoas. Impressa em folhetos de 8 pginas, sai o primeiro nmero

    impresso em 1759, um ano aps o lanamento da AHI e na mesma oficina de Francisco

    Borges de Sousa. Os seus folhetos eram todos paginados de 1 a 8, sem uma paginao

    contnua que seria o normal neste tipo de obras para se compilarem os diversos folhetos em

    tomos. Teve uma vida curta, terminando a sua impresso no nmero 18 em 1760. Apesar de o

    ttulo da obra apresentar alguns objectivos universalistas como os acima mencionados, o seu

    contedo fica muito aqum do proposto. As palestras vo ganhando voz de uma personagem

    de nome Camilo, que era um homem nobre de sangue, erudito, perito no estudo das letras e

    possuidor de uma abastada fortuna. Um nobre que gostava mais da vida ociosa e descansada

    do que empregar o seu tempo em algo de til, passando os seus dias em jogos, banquetes,

    bailes e outros divertimentos. Mas como era inclinado aos livros, no se esquecia totalmente

    da sua lio1 at que um certo dia ao ler um livro descobriu que a ociosidade era algo de

    demonaco, e inspirado por um certo homem, decidiu largar a Corte e ir passar o resto da sua

    vida num retiro humilde, na Vila de Serpa no Alentejo. Foi assim que nos seus passeios pelo

    rio Guadiana comeou a passar as tardes com quem com ele quisesse aprender e partilhar

    conhecimentos. Estas tardes transformam-se em palestras que se vo assim desdobrando na

    voz deste Camilo e dos seus ouvintes, onde o tema dominante a cidade e imprio de Roma,

    apresentando Ovdio, Homero e Virglio como as suas principais fontes. No obstante o

    limitado contedo e curta existncia destas palestras admirveis, a crtica ociosidade e aos

    vcios da nobreza est bem presente.

    O autor Jos ngelo de Morais2 escreveu tambm outras duas obras, igualmente

    impressos em folhetos de 8, de carcter semelhante, mas sem essa componente de

    1 MORAIS, Jos ngelo de, Palestra Admirvel, Conversao Proveitosa, E noticia universal do Mundo (),

    Lisboa, 1759, N1, Semana 1, p.2. 2 Assinava as suas obras com o pseudnimo Joz Maregelo de Osan, anagrama do seu nome verdadeiro,

    ANDRADE, Adriano da Guerra, Dicionrio de Pseudnimos e Iniciais de Escritores Portugueses, Coleco BN,

    1999, p. 154. Alm das obras mencionadas foi tambm autor de: Despertador de Marte, instrues militares aos

    portuguezes, Lisboa 1760; Semanas proveitosas ao vivente racional, ou modos para curar a alma enferma, e

    adquirir sciencia dos segredos da natureza repartido em trinta semanas, Lisboa 1760 (que segundo o Catlogo

    de Miscelneas da BGUC no passava de um ttulo); Eccos que o clarim da fama d: Postilho de Apolo,

    montado no pegazoLisboa, 1761-1762, 2 vols; in FONSECA, Martinho da, Subsdios para um diccionrio de

    pseudonymos, iniciaes e obras de escriptores portuguezes, Typ. Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1895,

    p.48.

  • 10

    sociabilidade ficcionada que aqui se pretende ilustrar. Foram elas os Mdicos Perfeitos1, e o

    Discpulo Instrudo2, ambas obras com o propsito de educar e instruir o leitor. Pela anlise

    das datas de impresso desta ltima e comparando-as com os folhetos da Palestra Admirvel,

    fica a ideia de que ambas tero sido impressas e publicadas simultaneamente.

    Foi consultado tambm um outro folheto intitulado O Occulto Instrudo3, de autor

    annimo. Este apresenta-se como um objecto de divertimento, reduzindo em breve espao e

    limitado volume as mais celebres histrias e factos, que seja mais fcil a todos alcana-las4.

    O autor deste ttulo faz um apelo crtica inteligente e temperada, alertando para a

    necessidade e importncia dos folhetos annimos darem fora e verdade a essa voz crtica. No

    seu primeiro nmero refere que recorrer sempre que necessrio ao dilogo, pois este era o

    mtodo seguido por homens de grande literatura:

    Muitas vezes por se fazer mais fcil a percepo se escrever em forma de Dialogo, isto

    principalmente ter lugar na Matemtica, e Fsica, conforme a matria o pedir. Este mtodo

    seguido de homens de grande literatura. O infatigvel Athanasio Kirker seguiu este estilo

    em algumas das suas excelentes obras, e nas lies Fsicas do Abbade Nollet (alm de

    outros) temos este exemplo; nem isto novo na Lngua Portuguesa, porque na estimadssima

    Recreao Filosfica se observa o mesmo que referimos.5

    Passemos ento a essa obra mencionada no Oculto Instrudo, a Recreao Filosfica

    do padre Teodoro de Almeida. Em 1751 lanado o primeiro volume desta enigmtica obra,

    iniciado com um discurso preliminar sobre a Histria da Filosofia, onde o autor tece uma

    explicao sucinta das 5 primeiras academias que tero existido. A obra dividida em Tardes

    de recreao, que se iam passando numa casa com vistas para o mar, entre as conversas de

    Teodsio e Eugnio, eruditas personagens. O objectivo proposto por Teodoro de Almeida

    1 MORAIS, Jos ngelo de, (pseud. Joz Maregelo de Osan), Os Mdicos Perfeitos: ou Novo Methodo de Curar

    todas as enfermidades, descoberto, e explicado pelos Mestres de mais subtil engenho, e applicado aos

    enfermos, pelos Doutores mais sbios., Impresso na Oficina de Francisco Borges de Sousa, N VI, Lisboa, 1759. 2 MORAIS, Jos ngelo de, (pseud. Joz Maregelo de Osan), O Discpulo Instrudo pelos Mestres mais Sbios

    nos segredos Natureaes das Sciencias, distribudo por semanas, em perguntas, e respostas, nas quaes ters,

    curioso leytor, no s lio, que te recree o animo, mas tambem (com pouco trabalho) adquirirs huma cabal

    noticia dos naturaes segredos, que com tanto desvelo, e estudo procuraro indagar os antigos, e modernos

    Escritores., Impresso na Oficina de Francisco Borges de Sousa, Semana Sexta, Lisboa, 1759. 3 [Annimo], O Occulto Instrudo, que para licito divertimento e honesta recreao se h de publicar dividido

    em diferentes partes, 18 Nmeros, na Oficina de Domingos Rodrigues, Lisboa, 1756-1757. 4 Ibidem, N1, p.1. 5 Ibidem, N1, p.7.

  • 11

    tambm a divulgao de conhecimentos teis a todas as classes de indivduos e ser dentro da

    esfera de anlise deste estudo o exemplo mais prximo da AHI e muito provavelmente uma

    das suas principais fontes de inspirao.1

    Assiste-se assim a um tratamento eloquente entre as personagens, carregadas de uma

    erudio intelectual, interessadas em todos os assuntos, das novidades da corte, do estado da

    nao, da poltica, das notcias do estrangeiro, da sociedade em geral, descendo sempre aos

    grandes assuntos da filosofia, da Histria e da cincia. O autor, sempre atento aos progressos

    cientficos soube habilmente criar um espao de aprendizagem no universo literrio, com a

    constante preocupao de tornar o saber acessvel e fcil. Expresso por exemplo na sua crtica

    ao recurso da lngua latina por parte dos eruditos para discutir as matrias da cincia,

    dificultando o acesso ao conhecimento a todos os que no dominavam o latim, parecendo que

    esses mesmos intelectuais faziam de propsito para ocultar as verdades. A queda do latim

    sem dvida uma preocupao das luzes, pois representava um passo importante para tornar a

    cincia e a filosofia acessvel a todos. Sobre a utilizao do latim nas aulas o autor escreveu:

    mais serviam de confundir, que de instruir, mais de escurecer a verdade, que de a dar a

    conhecer. 2

    A Escola da Doutrina Crist3 do padre jesuta Joo da Fonseca, obra impressa em

    vora no ano de 1688, reeditada mais tarde em 1750, apresenta-se como uma recriao

    literria de uma escola, onde o autor recorrendo forma dialogstica, sobretudo em perguntas

    e repostas, coloca em cena quatro personagens: Marcelino um filsofo, Diodoro um telogo e

    dois estudantes supostamente a assistir aos dilogos desses dois eruditos. A obra tem

    essencialmente um carcter religioso e cumpre um programa de ensinamento cristo4.

    1 () cria uma espcie de matriz alternativa ao esprito enciclopdico, condensando um vasto leque de

    saberes, tcnicas e ensinamentos filosficos expurgados dos perigos ideolgicos do projecto francs e expostos

    por meio de uma engenhosa fabricao de situaes de aprendizagem ilustrativas e ldicas in ARAJO,

    Ana Cristina, A Cultura das Luzes em Portugal Temas e Problemas, Livros Horizonte, 2003, p. 16. 2 ALMEIDA, Teodoro de, Recreaso Filozofica, ou dialogo sobre a Filozofia Natural, para instruo de

    pessoas curiozas, que no frequentaram as aulas, Tarde Primeira, tomo I, 1751, p.3. 3 FONSECA, Joo da, Escola da Doutrina Christam, em que se ensina o que he o obrigado a saber o Christam.

    Ordenada por modo de Dialogo entre dous Estudantes hum Filozofo, por nome Marcelino, & outro Theologo,

    por nome Diodoro. Com exemplos accomodados s materias, que se tratam..., Oficina da Universidade, vora,

    1688, obra tambm reeditada em 1750. 4 Esta obra foi analisada luz da conceptualizao do conceito de pobreza nos finais do sc. XVII e incios do

    sc. XVIII, com referncia ao conceito de bem-aventuranas dado por Joo da Fonseca no sentido de

    desprendimento das riquezas materiais como forma de elevao espiritual, na obra: LOPES, Maria Antnia,

    Pobreza, Assistncia e Controlo Social. Coimbra (1750 1850), Viseu, 2000, Vol.1, p.49.

  • 12

    Outro exemplo o Governo do Mundo em Seco1 obra impressa em Lisboa no ano de

    1748, da autoria de Manuel Jos de Paiva (1706 - ?), onde tambm este recorre ao dilogo de

    personagens eruditas, nomeadamente um Letrado, o seu Escrevente, e as mais pessoas que se

    propuserem. O seu autor fala nos perigos da riqueza e na condenao dos que procuram

    enriquecer, louvando a maior segurana dos que vivem remediados e na pobreza.2

    A Academia Singular e Universal3 do Frei Jos de Jesus Maria de 1737, poder

    tambm ser includa nesta abordagem, pois apesar do seu carcter religioso, no deixa de se

    apresentar como um projecto de uma Academia Universal, inspirada na Academia de Plato,

    com intenes de compreender todos os estados, operaes e modos de vida humanos,

    cincia, poltica e Histria. No entanto recorre essencialmente aos textos bblicos e a fontes

    teolgicas ficando muito aqum do projecto que prenuncia.

    Incluiremos tambm neste grupo de academias imaginrias, outras duas academias

    referidas no estudo de Joo Palma Ferreira como pardias acadmicas. A saber, a Academia

    dos Sovelantes4 e a Academia dos Fleumticos. Esta ltima surge na publicao Folheto de

    ambas Lisboas, de 1730, onde se simulava em estilo de pardia uma academia na rua do

    Correo5. Merece tambm meno a obra Corte na Aldeia e Noites de Inverno, de 1619 de

    1 PAIVA, Manuel Jos de, (Pseud. Silvestre Silverio da Silveira Silva), Governo do Mundo em Seco, palavras

    embrulhadas em papis, ou escritorio da razam, exposto no progresso de hum Dialogo, em que so

    interlocutores hum Letrado, o seu Escrevente, e as mais pessoas que se propuzerem., Oficina de Francisco Luiz

    Ameno, Impressor da Congregao Cameraria da S. Igreja de Lisboa, Lisboa, 1748. 2 Sobre este assunto ver LOPES, Maria Antnia, Pobreza, Assistncia e Controlo Social. Coimbra (1750

    1850), Viseu, 2000, Vol.1, p.88. 3 MARIA, Jos de Jesus, Academia Singular, e Universal, Histrica, Moral e Politica, Eclesistica, Scientifica,

    e Chronologica, Tomo nico, Oficina de Pedro Ferreiro, Impressor da Augustissima Rainha N. Senhora,

    Lisboa, 1737. 4 Sobre esta Academia nada se adianta alm do referido no estudo mencionado. Ter sido uma pardia moda

    das academias que surge referida num documento manuscrito do sculo XVI. Ver: FERREIRA, Joo Palma,

    Academias Literrias dos Sculos XVII e XVIII, Lisboa, 1982, pp. 113 114. 5 Folheto de Ambas [Gravura contendo ao centro, numa circunferncia, a mo direita com um compasso,

    ladeado por instrumentos msicos] Lisboas. o n1 de uma publicao peridica que teve 26 nmeros, nem

    todos com o mesmo ttulo, e de que foi autor Jernimo Tavares Mascarenhas de Tvora, alguns da autoria do P.

    Victorino Jos da Costa. Seguem-se alguns nmeros: () Certame (Aqui e comea a ler o titulo desta obra.)

    que celebraram os Acadmicos fleumticos da rua do Caldeira, no territrio da Cotovia () Ano 1731()

    Oposies da Academia fleumtica, quando vagou a Cadeira de Retrica por falecimento de Joo de Almeida,

    Careca das Cozinhas.() in ALMEIDA, M. Lopes de (Dir.), Catlogo da Coleco de Miscelneas (Vols.

    CCLXXXI a CCCLXXV), Publicaes da Biblioteca Geral da Universidade, Coimbra, 1970, pp.142-143. Da

    autoria de Vitorino Jos da Costa: Apresentao de Joze Rato na Academia Fleumtica, Lisb. 1731 in

    Summario da Bibliotheca Lusitana, Oficina da Academia Real das Cincias, Lisboa, 1787, Tomo 3, p.371. Sobre

  • 13

    Francisco Rodrigues Lobo que em forma de dilogo colocou as suas eruditas personagens a

    tratar de matrias proveitosas, polticas e engraadas, como que em forma de tertlia: So

    interlocutores principais Leonardo, um antigo corteso, outrora frequentador da casa dos Reis,

    agora retirado no remanso da aldeia; o Dr. Lvio, letrado douto e prudente que antes exercera

    honrados cargos de governo da justia; um jovem fidalgo, D. Jlio, afeioado caa e

    leitura da histria ptria; Pndaro, estudante de bom engenho, dedicado poesia; e Solino,

    velho de boa criao e inteligncia viva, que se faz notar pela agudeza e graa dos seus

    ditos. A estes, que regularmente se renem nos seres de inverno em casa do primeiro, se vm

    depois juntar outros: o licenciado Feliciano, amigo de Pndaro; o Prior de uma igreja vizinha,

    que antes dos hbitos eclesisticos que agora usa, envergava num tempo o trajo da Corte; e

    um soldado, seu irmo, de nome Alberto.1

    Passaremos agora a uma outra obra j dos finais da segunda metade do sculo XVIII,

    de grande interesse para este ponto, pois alm de se englobar em pleno neste conjunto aqui

    definido, um exemplo mais polido e j fruto de um perodo de maior avano das letras e das

    luzes em Portugal. Os dilogos dos Estrangeiros no Lima, obra escrita pelo erudito mdico

    Manuel Gomes de Lima Bezerra, que junta cinco homens eruditos, todos oriundos de pases

    distintos e com diferentes ofcios, a saber: Raulin o filsofo francs; Clarck o comerciante

    ingls encarregado pela Sociedade Real de Londres de observar a Histria Natural de

    Portugal, o estado da sua agricultura e do seu comrcio, as suas raridades e a corografia das

    suas provncias e cidades; Jlio o viageiro italiano; D. Hugo o genealgico espanhol; e Lami

    o mdico portugus. Esta obra, tal como o seu autor pelo interessante percurso de vida que

    teve, foi estudada sob diversas perspectivas por vrios autores2. O esprito dos Estrangeiros

    no Lima vai ao encontro da AHI, sem a vertente popular desta e sem o seu carcter anti-

    elitista, no entanto apresentando outras componentes inovadoras. Lima Bezerra concebeu

    igualmente um espao cnico ficcionado de sociabilidade intelectual, colocando cinco

    eruditos a trocar ideias e a discutir assuntos com o objectivo final de estudarem a regio de

    Ponte de Lima, para que pudessem contribuir para o seu desenvolvimento3. A obra os

    esta academia ver tambm: FERREIRA, Joo Palma, Academias Literrias dos Sculos XVII e XVIII, Lisboa,

    1982, p. 114. 1 CARVALHO, Jos G. Herculano de, Um Tipo Literrio e Humano do Barroco: O Corteso Discreto,

    Separata do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol.26, Coimbra, 1963, pp. 11-12. 2 Ver os diversos estudos no volume suplementar de: BEZERRA, Manuel Gomes de Lima, Os Estrangeiros no

    Lima, Edio fac-similada da 1 com um volume suplementar de estudos, 3 Volumes, Cmara Municipal de

    Viana do Castelo, Viana do Castelo, 1992. 3 AMZALAK, Moses Bensabat, Os estudos econmicos de Manuel Gomes de Lima Bezerra, Instituto Superior

    de Cincias Econmicas e Financeiras, Lisboa, 1959.

  • 14

    Estrangeiros no Lima apresenta-se assim com um carcter de estudo econmico e social de

    uma regio, elemento extremamente inovador, onde o seu autor em esprito de tertlia coloca

    personagens com nacionalidades diferentes unidas pelo mesmo objectivo. O carcter de unio

    internacional destes eruditos extremamente interessante, e nico neste grupo de obras que

    tm sido aqui referidas.

    Seja esta uma das vezes, em que um Francs com um Ingls, e um Castelhano com um

    Portugus falem como sbios, e livres das preocupaes vulgares e nacionais. Os homens de

    letras reconhecem por ptria o mundo inteiro. 1

    Estas frases carregadas de simbolismo conferem um certo esprito manico a estas

    reunies em Ponte de Lima, esse sentido de pertena a uma ptria universal, e essa expresso

    de fraternidade que Lima Bezerra quis conferir s personagens, aproximam-se bastante do

    ambiente vivido nas lojas manicas da poca. Esta obra est tambm inevitavelmente ligada

    Sociedade dos Bons Compatriotas Amigos do Bem Publico fundada em Ponte de Lima,

    mais conhecida como Sociedade Econmica de Ponte de Lima, que tinha na poca potenciais

    ligaes Maonaria2. Ora neste esprito de fraternidade universal que se prope dar incio

    aos dilogos e conferncias deste grupo de homens de letras que se vo prolongando por

    diversos assuntos com especial destaque para questes econmicas e comerciais.3 Importa

    tambm referir que Lima Bezerra foi scio fundador e secretrio de duas academias cirrgicas

    no Porto, e correspondente da Academia Real das Cincias de Lisboa, nascido em Ponte de

    Lima, em 1727, formou-se em Medicina, exercendo a clnica na cidade do Porto, at falecer

    1 BEZERRA, Manuel Gomes de Lima, Os Estrangeiros no Lima: ou conversaoens eruditas sobre varios pontos

    de Historia Ecclesiastica, Civil, Litteraria, Natural, Genealgica, Antiguidades, Geographia, Agricultura,

    Commercio Artes, e Sciencias Real Oficina da Universidade, Coimbra, Tomo I 1785, p.2. 2 Sobre a hipottica ligao Maonaria da Sociedade Econmica dos Bons Compatriotas, Amigos do Bem

    Pblico, de Ponte Lima, como sendo um instituio paramanica, hiptese suscitada pelo emblema da mesma

    que contm simbologia declaradamente manica (3 colunas, esquadro e compasso): MARQUES, A. H. de

    Oliveira, Histria da Maonaria Portuguesa, Volume 1, Das origens ao triunfo, Lisboa, 1990, p.308. Entre os

    fundadores desta sociedade esteve o Conde da Barca, Antnio de Arajo de Azevedo, tambm ele provvel

    maon. Ver tambm: MALAFAIA, Eurico Brando de Atade, Antnio de Arajo de Azevedo. Conde da Barca:

    diplomata e estadista 1787-1817. Subsdios documentais sobre a poca e personalidade, Arquivo Distrital de

    Braga, Universidade do Minho, Braga, 2004. 3 Referncia obra como uma expresso do pensamento econmico da poca, e contempornea das Memrias

    Acadmicas da Academia das Cincias. Ver: CALAFATE, Pedro, Histria do Pensamento Filosfico

    Portugus, Volume III, As Luzes, Lisboa 2001, p. 95.

  • 15

    no ano de 1806. Foi autor de diversas obras e artigos cientficos incluindo duas Memrias

    publicadas no Jornal Enciclopdico, publicadas em 1789 e 1790.1

    Antes de encerrar este captulo, resta incluir neste grupo de obras a Academia dos

    Humildes e Ignorantes que por ser o tema central deste estudo ser analisada com outra

    profundidade nos captulos seguintes. Nesta academia imaginria, do autor Joaquim de Santa

    Rita, que transporta o esprito da partilha de conhecimentos e da erudio das academias

    institucionais da poca para o campo literrio, podemos assistir a quatro personagens eruditas

    a interagirem em Conferncias, s quais assistiam peregrinos e romeiros e todos aqueles que

    nelas quisessem participar. Esse sbio quarteto era composto por: um Telogo representante

    do conhecimento religioso, dos dogmas e de toda a Histria Sagrada e Eclesistica; um

    Filsofo, que alm de ser o moderador das conferncias era a voz das cincias modernas ou

    Filosofia Natural; um Soldado, conhecedor do mundo, das guerras e da histria secular,

    militar e herldica; um Ermito, homem religioso e conhecedor dos quatro cantos do mundo

    por onde missionou durante toda a sua vida. Mais tarde, juntaram-se a estes outros dois

    acadmicos: um Letrado, homem de letras e um Estudante, curioso aprendiz. Finalizaremos

    com uma ltima meno a uma outra hipottica academia fictcia que surgiu em resposta

    AHI, onde reunidos numa botica de Lisboa um Jarra da Corte chamado Diogo Belo, um

    Cirurgio e o Boticrio decidiram tambm formar uma academia para supervisionar essas

    outras academias que sapateiros, alfaiates, ferreiros e tanoeiros tanto procuravam

    ansiosamente e gastavam o seu dinheiro para lerem as suas apetecidas conferncias.

    O que une todas estas obras referidas o seu objectivo de compilao do

    conhecimento, em estilo enciclopdico, numa tentativa de explicar o mundo, o universo e a

    vida. Elegem a Histria e a Filosofia Natural ou Cincia como os dois grandes pilares do

    saber, a desenvolver e a partilhar, num esforo comum contnuo em que todos podiam

    participar. Um movimento de divulgao e vulgarizao do saber num espao universal das

    letras com a caracterstica especial de os seus autores terem transportado regras de

    sociabilidade e padres de comportamento para as suas obras, recorrendo quase sempre ao

    dilogo erudito.

    1 SILVA, Inocncio Francisco da, e ARANHA, P. V. Brito, Dicionrio Bibliogrfico Portugus(..), Tomo 16,

    pp. 444-445. Sobre o autor Lima Bezerra ver tambm: ARAJO, Ana Cristina, A Cultura das Luzes em Portugal

    Temas e Problemas, 2003, p.74 e p.83.

  • 16

    3. A Academia dos Humildes e Ignorantes

    Prope-se aqui abrir as portas de uma academia especial, onde a inspirao literria

    transportou os cdigos da sociabilidade intelectual para um espao materializado no mundo

    imaginrio do orbe das letras. Arquitectando, neste caso particular, uma academia quimrica,

    especialmente dedicada instruo dos desfavorecidos, utilidade pblica e em ltima

    instncia felicidade do povo, representao fictcia de um espao social e intelectual da sua

    poca.

    O sbio e o pblico, o autor e o leitor, a ideia materializada na escrita e a sua

    interiorizao atravs da leitura. nesta dualidade, possibilitada pela existncia de uma

    linguagem escrita, que as ideias e o conhecimento se espalharam ao longo da histria pelas

    mentes mais atentas. O sculo XVIII assistiu a uma revoluo intelectual que perdurou at aos

    dias de hoje, numa escala pequena, o discurso do homem ilustrado percorreu as mentes dos

    homens, mesmo a dos menos letrados, pois se as taxas de analfabetismo eram enormes nesta

    poca, a capacidade de falar e a partilha de ideias por via oral ter sido um poderoso veculo

    de informao. A leitura de um folheto num local pblico aniquilaria a incapacidade de

    adquirir conhecimentos por parte de um pblico iletrado, eliminando assim a certeza

    defendida por alguns autores de que os ideais iluministas apenas circulavam num restrito

    grupo de intelectuais1.

    O sculo das luzes em Portugal, ao ritmo da Europa, foi palco de uma proliferao de

    ttulos, sobretudo com o desenvolvimento do conhecimento cientfico e a respectiva

    fragmentao dos diversos ramos do saber, que tornou os contedos literrios cada vez mais

    especializados em detrimento de assuntos genricos. Este fenmeno deve ser enquadrado no

    movimento filosfico das luzes e na afirmao da Repblica das Letras, que despertou um

    certo esprito intelectual da poca, expresso num desenfreado amor pelo conhecimento, pelas

    letras e pelas artes, que inspirou o uso da pena e nos deixou os mais diversos registos do gnio

    humano.

    Ao estudarmos a histria intelectual portuguesa do sculo XVIII, vemos uma histria

    tendencialmente direccionada para personagens pertencentes a um grupo social especfico,

    como que se o intelecto humano fosse um exclusivo das classes favorecidas ou andasse

    1 Esta leitura nas ruas era algo comum na poca e contribuiu fortemente para a divulgao das ideias escritas.

    Ea de Queirs, ponderando a questo da leitura no sculo XVIII, falou no desaparecimento do leitor, enquanto

    indivduo; e em lugar dele, acrescentou Ea, o homem de letras viu diante de si a turba que se chama o

    pblico, que l alto e pressa no rumor das ruas. DOMINGOS, Manuela, Livreiros de Setecentos, Biblioteca

    Nacional de Lisboa, Lisboa, 2000, p.9.

  • 17

    sempre aliado riqueza patrimonial. A imagem que se vai passando aquela de eruditos

    aristocratas, nobres ou abastados burgueses, homens do clero ou da corte, como nicos

    depositrios da erudio, protagonistas de uma aliana elitista entre o poder e o saber. Mas

    margem destas elites sabemos que viveram eruditos entre o povo, que subtilmente nos

    deixaram as suas obras nas sombras das grandes modas, ao vapor das tipografias menores, na

    corrente da revoluo tipogrfica e livreira, vendo as suas ideias ganharem forma, veiculando

    as suas interpretaes da sociedade, do conhecimento e da poca. nesse mar de letras que

    podemos encontrar as mais curiosas obras, de autores que por se terem escondido atrs de

    pseudnimos, por anonimato premeditado, ou porque nunca tiveram o apangio da fama

    foram abraados pelo esquecimento.

    O estudo desta obra tem um duplo interesse, por um lado d-nos a conhecer uma

    academia fictcia dentro do esprito da poca, uma representao sociolgica literria de um

    grupo de intelectuais que atravs do dilogo partilham ideias com um outro grupo sociolgico

    composto por homens incultos, iletrados, humildes e ignorantes. Por outro lado a AHI afirma-

    se como um compndio do saber, assumindo uma forma enciclopdica pretende nas suas

    pginas encarcerar todo o conhecimento.

    A obra desenhando assim a sua uma academia imaginria, numa encenao fictcia vai

    revelando esses eruditos acadmicos que nas suas conversas partilham ideias, ensinam as

    matrias fundamentais, contam histrias de viagens longnquas, falam dos encontros que

    tiveram com outros eruditos estrangeiros. Esses dilogos preenchiam assim as conferncias da

    academia, conferncias essas que ocorriam de porta aberta para todos, mas sobretudo para o

    homem inculto, para o trabalhador, para os modestos e para os ignorantes que procuravam

    ilustrar-se. A ingenuidade desta oferta gratuita de conhecimento, pode levar a reflectir sobre o

    interesse comercial de vender essas ideias. necessrio compreender que a pertena a uma

    academia, tem uma importncia muito especial para a poca, representando um claro sinal de

    estatuto social, ora a AHI, por um lado oferecia esse status a todos, mas por outro tenta

    tambm banalizar o que na poca era visto como algo apenas acessvel a uma pequena elite

    ilustrada.

    A pedra angular de toda a investigao e pesquisa realizada assentou no texto da obra,

    que abriu caminhos para decifrar diversas pistas sobre a origem da academia, sobre o seu

    autor e sobre as suas fontes. O que possibilitou um enquadramento da obra num espao e

    tempo especficos. Durante o processo de investigao foi encontrado um documento de

    crtica directa AHI, impresso em 1758, que deu uma nova dimenso obra e trouxe

    informaes de sublime interesse para o seu estudo, desde o preo a que os seus folhetos eram

    vendidos ao seu sucesso comercial entre o pblico. Foi tambm este documento que obrigou o

  • 18

    autor a sair do anonimato em defesa da veracidade das suas palavras, permitindo igualmente

    aprofundar o seu trao biogrfico.

    Independentemente do carcter ficcional da obra, este estudo ser iniciado com uma

    breve apresentao da sua academia, dos seus objectivos, dos seus membros, das suas regras,

    do funcionamento e dos contedos das suas conferncias. Posteriormente, ser realizada uma

    anlise da obra em concreto, da sua estruturao, do seu contedo literrio, histrico e

    cientfico, da sua evoluo ao longo do tempo, da sua publicao e impresso. Dividindo o

    seu percurso em dois momentos claramente distintos, o antes e o depois do anonimato do

    autor. Em seguida, investir-se- na difcil tarefa de conhecer as entidades envolvidas na

    produo da obra, com base em algumas pistas espalhadas, sero apresentados nomes que de

    uma forma directa ou indirecta estiveram associados AHI, desde potenciais membros da

    academia ao enigmtico Frei Joaquim de Santa Rita, nico autor conhecido. De destacar que

    existem diversas referncias AHI como sendo uma academia que existiu verdadeiramente.

    O terramoto de 1755 tambm abalou os pilares do conhecimento e as fundaes da

    Repblica das Letras, inmeras bibliotecas ficaram perdidas para sempre, e as tipografias de

    Lisboa pararam. Curiosamente aps esta calamidade que aparecem em Portugal diversas

    obras deste carcter de compilao do conhecimento, como que tentando salvaguardar numa

    s obra todo o conhecimento, toda a histria e cincia conhecidas. Pedro Norberto de Aucourt

    e Padilha, escrivo na Mesa do Desembargo durante o reinado de D. Jos, descreve-nos este

    sentimento no prologo da sua obra intitulada Raridades da Natureza e da Arte divididas

    pelos quatro elementos publicada em Lisboa no ano de 1759:

    Se Ccero chamou morte do homem ociosidade, tambm com mxima Catlica se pode

    chamar remdio da vida o emprego literrio, porque a recreao dos livros uma poltica

    crist para a conformidade dos males, e toler-los com semblante alegre, herica indstria

    para ser feliz, sem depender da fortuna. O Terramoto, que me arruinou os bens, no s

    sepultou muitas vidas, mas tambm as oficinas da sabedoria: dificultou com a perda das

    Bibliotecas os meios para a lio, e no moderou nos nimos o dio para a mordacidade; no

    que novamente fica confirmado ser filha da ignorncia.

    Nestas palavras podemos ver reflectido o esprito que movia os homens de letras da

    poca, apelando aco da escrita contra o cio e contra o mal, mantendo sempre o nimo

    mesmo nos momentos tenebrosos, criticando a mordacidade dos que se movem contra a

    Repblica da Letras. A ttulo de curiosidade Santa Rita conhecia as obras de Aucourt Padilha,

    ao qual faz referncia.

  • 19

    importante perceber que o iluminismo se foi construindo sobre uma rede de

    contactos internacionais, trocas de correspondncias, circulao de publicaes, livros e

    folhetos, viagens e encontros pessoais entre intelectuais. Sem cair nas discusses

    historiogrficas sobre o movimento das luzes na Europa e fora dela, sobre a justificao ou

    no de diversos tipos de iluminismo, de um iluminismo catlico, ibrico ou portugus,

    pretende-se apenas deixar claro que a Academia dos Humildes e Ignorantes uma obra

    iniciada em 1758 recheada de preceitos e ideias das luzes, no porque o seu autor dissertou

    sobre os princpios desse pensamento mas porque os meteu em prtica. Poderamos quase

    afirmar que a sua obra um caso prtico de iluminismo, uma materializao dessas ideias,

    audaz e mordaz, brutal e singela. A cultura do seu autor inegvel, no s conhecia autores e

    obras estrangeiras, como as Mmoires de Trvoux, ou o Journal des Savants, como a obra de

    intelectuais portugueses como Jacob de Castro Sarmento. Contudo necessrio olhar para

    obra luz da sua poca, o autor afirma-se aristotlico, tece crticas ao povo Judeu, e alimenta

    algumas crenas populares sobretudo sobre bruxarias e monstruosidades da natureza, contudo

    e ao mesmo tempo, tece elogios ao uso da razo, demonstrando a um forte entusiasmo pelos

    avanos da moderna filosofia natural, e sobretudo pretende compilar todo o conhecimento

    oferecendo-o a uma classe desfavorecida.

    No nos interessar neste estudo cair nas discusses sobre a origem e geografia do

    Iluminismo, se este teve origem na Inglaterra de Newton, Bacon ou Locke ou nos filsofos

    franceses fundadores da Republica das Letras, apenas nos interessa o carcter internacional do

    movimento das luzes, sabendo que diversos pensadores para ele contriburam, de diversas

    formas e em diversos locais, e todas essas contribuies tiveram efeitos localizados e muitas

    vezes divergentes. Sabemos tambm que o iderio das luzes teve as mais diversas

    manifestaes, especificidades regionais e temporais, o que torna extremamente complexa a

    compreenso dos seus verdadeiros impactos nos diversos contextos polticos e sociais.

  • 20

    3.1. As conferncias da academia: temas e fontes

    Aps o terramoto de 17551 que abalou a capital do reino portugus, durante o reinado

    de D. Jos I, assistiu-se, no ano de 1758, ao nascimento da Academia dos Humildes e

    Ignorantes2. Uma academia de homens que se consideravam eruditos mas tambm modestos e

    ignorantes, que durante as suas conferncias e reunies mantinham a porta aberta para todos

    aqueles que sendo tambm humildes, pobres e iletrados, os quisessem ouvir e com eles

    aprender. S pelo nome da AHI podemos antever algum atrevimento por parte do seu criador,

    em pleno sculo das Luzes, sculo de intelectuais iluminados, de elites sociais, de academias

    eruditas e altamente patrocinadas, apareceu uma academia do povo, dirigida aos mais

    desfavorecidos, que apesar de tambm desejarem participar na grande viagem do

    conhecimento no possuam meios para tal proeza. Foi assim criada uma obra para aqueles

    que no possuam bibliotecas privadas, nem tempo para usufrurem das pblicas,

    condicionadas pelas suas obrigaes laborais ao contrrio de certas elites. Uma obra que

    pretendia encerrar em si uma smula do saber dedicada ao homem comum, num verdadeiro

    esprito do Iluminismo, encarna um papel de laicizao do conhecimento. luz da razo,

    todos os homens seriam iguais, a sua condio social, o seu credo, sexo, ou raa, no

    poderiam ser indicadores da sua motivao de aprender. luz dessa mesma razo qualquer

    esprito poderia ser iluminado. Esta ideia de democratizao do saber aliada s noes de

    igualdade, dilui-se num certo elitismo existente nas academias que proliferaram durante o

    sculo XVIII por toda a Europa. Com o desenvolvimento da cincia e do conhecimento, os

    mtodos e disciplinas racionalistas tornaram-se cada vez mais exigentes, excluindo aqueles

    que partida no teriam condies para serem iluminados. Esta proposta de levar um resumo

    do conhecimento a todos, e principalmente aos mais desfavorecidos, atravs da criao 1 A aluso ao terramoto de 1755 como a causa da criao da academia refora a ideia fantstica de que depois de

    uma catstrofe nascera, como que por vontade divina, aquele encontro de eruditos, do caos nascera a luz. 2 A Academia dos Humildes e Ignorantes encabea o ttulo de uma obra onde quatro personagens eruditas, a

    saber um telogo, um filsofo, um ermito e um soldado, que se reuniam para partilharem os seus

    conhecimentos com os romeiros e carenciados que por ali passavam. A academia comea por apresentar a sua

    obra como sendo utilssima para todas as pessoas eclesisticas e seculares que no tivessem bibliotecas prprias,

    nem tempo para frequentarem as pblicas, uma Suma Excelente de toda a Teologia Moral, Filosofia Antiga e

    Moderna, Matemtica, Direito Civil e Cannico, de todas as Cincias, Artes Liberais e Mecnicas. Seria assim

    um compndio brevssimo de todas as notcias do mundo, das suas partes, imprios e reinos, cidades e vilas,

    castelos e fbricas notveis, costumes, ritos e leis. Da vida de Cristo, de todos os Santos e Santas e venerveis

    mais conhecidos. De todos os Papas, imperadores, reis e prncipes, desde o princpio do mundo at ao presente.

    De toda a Histria Sagrada, eclesistica e secular. De todos os sucessos admirveis e esquisitos, de todos os

    artefactos, mecanismos antigos e modernos. Enfim uma ode ao saber e a todo o conhecimento.

  • 21

    fictcia de uma academia, d-nos uma primeira ideia do mago fantstico desta obra e do

    intuito do seu autor, que colocando personagens a dialogar, bem ao estilo platnico, concebeu

    um ambiente de sociabilidade intelectual simulado.

    A primeira conferncia da AHI, revela claras referncias cnicas quanto ao local, data

    e personagens envolvidas na aco, iniciada com as seguintes palavras:

    No stio de Nossa Senhora da Consolao, recreio delicioso entre a Lourinh, e Peniche, se

    juntaram no dia 20 de Setembro, entre muitas pessoas, um Telogo, um Filosofo, um

    Ermito, e um Soldado1.

    () depois de praticarem nos graves danos da murmurao, e a necessidade da Eutraplia

    nos que viviam (como eles) solitrios naquele sitio desde o terramoto, assentaram que, para

    evitar aquele dano, e poderem mutuamente instruir-se no miservel estado, em que estavam,

    se juntassem com os romeiros, que ali fossem, uma vez cada semana, e cada um dissesse o

    que sabia na matria, que primeiro ocorre na Conferencia, e os mais que tivessem com ela

    semelhana.2

    Existe uma clara inteno por parte do autor em enquadrar no espao e no tempo a

    origem da academia, encaixando-a num cenrio real e actual da poca. Existe de facto um

    local chamado monte da Nossa Senhora da Consolao, junto actual praia da Consolao na

    zona de Peniche, onde est edificado o Forte da Consolao, forte esse que foi construdo em

    1641 como parte integrante de um projecto de proteco das linhas costeiras do reino no

    perodo da Restaurao.3 De facto existem ao longo da obra diversas referncias ao Forte

    como local das conferncias dos nossos acadmicos, na Conferncia 28 do tomo I podemos

    ler: Na manh do dia treze, juntos no Forte com muitos Romeiros, que chegaram na noite

    antecedente, continuou o Soldado a vida de D. Fernando ()4. E ficamos tambm a saber

    que o Forte onde se reunia a academia tinha vistas para o mar:

    No dia dois de Novembro, convidados os Acadmicos da excelente temperie do ar e sol,

    antes da hora costumada foram gozar-se de uma e outra coisa no Forte, donde descobriram

    trs navios com as bandeiras largas, e ao longe cinco. Com um culo intentaram conhecer de

    que nao eram e seguiu-se a disputa sobre as bandeiras, que insensivelmente deu princpio

    1 [AHI, T1, C1, p.1]. 2 Idem. 3 In site oficial da Cmara Municipal do Concelho de Peniche: http://www.cm-peniche.pt. 4 [AHI, T1, C28, p.217]. Ver tambm na conferncia 34 do mesmo tomo: Depois de cearem, se juntaram no

    Fortep.265.

  • 22

    Conferncia ().1

    () porque bem pode uma trovoada como a de dia de Nossa Senhora das Neves no ano de

    1759 estar sobre Lisboa lanando coriscos, como aquele o fez no stio de Penha de Frana, e

    serem os troves imediatos aos relmpagos neste stio da Consolao, como ento os vimos,

    no obstante distarmos de Lisboa onze lguas (...). 2

    O terramoto de 17553 enquanto motivo para o estado de desgraa em que todos se

    encontravam ali refugiados naquele stio, serve tambm para dar actualidade Academia, que

    a poucos anos da sua ocorrncia os seus efeitos ainda estavam bem presentes. O terramoto

    um assunto recorrente nas conferncias da academia ao longo de toda a obra. Sabe-se que

    aps o terramoto de 1755, que arrasou a cidade de Lisboa, milhares de pessoas procuraram

    refgio nos arredores da capital, tendo sido acolhidas por conventos, mosteiros, e edifcios

    militares. Vemos ento os nossos eruditos que naquela situao de misria causada pelo

    terramoto, decidiram fundar uma academia para aquelas gentes infelizes e solitrias, com o

    objectivo de discutir e avaliar o estado da situao em que se encontravam, de sorte, que os

    humildes, e ignorantes que os ouvissem, ficassem instrudos por este fcil meio; e com

    notcias para comunicarem a seus filhos, aos quais, por humildes, e pobres, no podiam

    aplicar aos estudos.4 As primeiras conferncias focam-se exactamente em tentar explicar a

    origem e funcionamento do planeta, partindo de uma perspectiva bblica passando para uma

    viso mais cientfica sobre o seu funcionamento e complexa composio geolgica

    procurando elucidar as causas dos terramotos.

    Os membros da academia eram inicialmente quatro homens eruditos, a saber um

    Telogo, um Filsofo, um Ermito e um Soldado. Quatro alter-egos do autor, que dado o

    vasto leque de temticas abordadas, bem poderiam ter sido personagens dirigidas

    independentemente por diferentes autores. Cada personagem assumia a direco de uma rea

    do saber, mas a participao na academia no se esgotava nestes quatro ilustrados, pois a sua

    porta aberta a todos os que nela queriam participar, deram lugar participao de diversos

    curiosos e romeiros, que partilhavam tambm as suas experincias, intervindo nas

    conferncias de forma pertinente e com total liberdade para colocar questes e apresentar

    1 [AHI, T3, C36, p.281]. 2 [AHI, T4, C4, p.27]. 3 Sobre o terramoto de 1755 ver a obra: ARAJO, Ana Cristina, O Terramoto de 1755: Lisboa e a Europa,

    Clube do Coleccionador dos Correios, 2005. 4 [AHI, T1, C1, pp.1-2].

  • 23

    problemas. Numa segunda fase da obra, juntam-se aos quatro eruditos dois novos membros,

    um Letrado, e um Estudante.

    As leis pelas quais se rege a academia, so enunciadas logo na primeira conferncia

    pelo ilustre Filsofo:

    Basta, disse o Filsofo, observemos as leis desta Academia: v.m.[referindo-se ao Telogo]

    s diga o que pertence Teologia, que podem, e devem saber todos; eu a Filosofia, que

    pertence aos mesmos, o nosso Ermito, que tem visto o mundo, o que viu nele, e o Senhor

    Soldado as guerras de todas as Monarquias.1

    O princpio regulador do funcionamento da academia ento este, que cada um trate

    apenas das matrias que domina enquanto autoridade do saber na sua rea. Ocasionalmente,

    no decorrer das conferncias acadmicas instauram-se consensualmente novas regras, que

    nascem dos dilogos e discusses dos nossos eruditos, como aconteceu por exemplo na quarta

    conferncia, que pela extenso do discurso do Ermito que impossibilitava a participao dos

    outros, ficou decidido que:

    () fique sendo lei desde hoje, que no princpio de cada Conferncia, dareis conta de

    uma parte do mundo [dirigindo-se ao Ermito], ou do que nela vos falta por dizer, para

    assim poderem os mais contar o que tem sucedido em todo o mundo, e ficar sendo mais doce

    esta pratica.2

    A AHI apresenta-se assim com uma caracterstica fundamental que a distingue das

    outras da sua poca, era uma academia dirigida por eruditos mas que mantinha a porta aberta,

    deixando que romeiros e homens humildes participassem nas suas conferncias. Afasta-se de

    certa forma da sociabilidade intelectual elitista caracterstica da poca, em oposio s

    academias de homens nobres e aristocratas, esta era uma academia para homens humildes e

    pobres, para o homem comum, o que com um certo toque de crtica social, revela um carcter

    inovador e bastante arrojado para poca.3 Talvez por isso o autor tenha optado pelo anonimato

    1 [AHI, T1, C1, p.4]. 2 [AHI, T1, C4, p.28]. 3 Note-se no entanto que para se ser um acadmico, por exemplo da Academia Real da Histria, no era

    obrigatrio pertencer alta nobreza, entre os membros desta academia encontravam-se indivduos pertencentes

    nobreza, ao clero e tambm ao terceiro estado. A ideia que aqui se pretende passar que o acesso a estas

    academias era extremamente reservado. Sobre a estratificao social da Academia Real da Histria ver: MOTA,

  • 24

    anonimato durante os primeiros tomos da obra. Mas o proposto pela academia vai ainda mais

    longe, pois as suas conferncias ambicionam edificar um verdadeiro compndio de todo o

    saber, da Histria Arte, da Cincia Teologia, do Direito Cultura dos povos, do Mundo e

    da Natureza. De inspirao enciclopdica, bem inerente ao esprito do Iluminismo, pretendia

    igualmente ser uma obra de fcil leitura, permitindo que todos a pudessem compreender,

    assumindo assim um papel educativo do povo, de ilustrao da nao, mxima dos homens

    das luzes. Contudo, deve ser realada a forte presena de um esprito eclesistico em toda a

    obra, conjuntamente com uma certa ligao Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho,

    possivelmente incutida pelo percurso pessoal do autor.

    tambm importante referir a permanente preocupao do autor em tornar o texto

    didctico e interessante. Existiu um certo cuidado na fidelizao dos leitores, os temas eram

    deixados em suspense de uma conferncia para a outra, abrindo o apetite para descobrir o

    desenlace das histrias que eram contadas. Um outro detalhe igualmente interessante, presente

    ao longo da obra, o facto de que sempre que o autor transcreveu um texto em latim, teve a

    preocupao de logo de seguida o traduzir literalmente para portugus, ou de o explicar

    integralmente. Esta no era uma prtica comum entre os autores da poca, so inmeras as

    obras que usam o latim como se fosse compreendido por todos, passando deste para o

    portugus e vice-versa sem qualquer inquietao de esprito, limitando assim o acesso

    essncia dos seus textos pelo comum dos mortais, pois se na poca a capacidade de ler era

    diminuta entre a populao, a capacidade de ler em latim o seria muito mais. Esta

    simplificao erudita do conhecimento demonstra uma perfeita sintonia, por parte do autor,

    com a filosofia do esclarecimento, demonstrando a sua preocupao em no criar entraves

    compreenso do seu texto.

    A publicao dos tomos da AHI, divide-se em duas fases distintas, a 1 fase

    constituda pelos seis primeiros tomos, de autor incgnito, apenas identificado pelas iniciais

    D. F. J. C. D. S. R. B. H., que tero sido impressos entre 1758 e 1762, nas oficinas de Incio

    Nogueira Xisto e de Francisco Borges de Sousa. Tambm na oficina de Incio Nogueira

    Xisto, foi impresso em 1764 o ndex das Coisas mais Notveis de que tratam os Seis Tomos

    das Academias dos Humildes, e Ignorantes, que consiste basicamente numa compilao,

    publicada em separado, de todos os ndices constantes naqueles tomos. Os dois ltimos

    tomos, VII e VIII, representam a 2 fase da obra, de autoria declarada de Frei Joaquim de

    Santa Rita, impressos entre 1763 e 1770, pelo impressor do Santo Ofcio Miguel Manescal da

    Costa. Do tomo I ao VI, temos 52 conferncias por tomo, de oito pginas cada, impressas Isabel Ferreira da, A Academia Real da Histria: os intelectuais, o poder cultural e o poder monrquico no sc.

    XVIII, Coimbra, 2003, pp. 106-111.

  • 25

    separadamente. Nos dois ltimos volumes, o nmero de conferncias por tomo passa a ser de

    40, com 12 folhas cada, cada conferncia tambm impressa separadamente, e no final de cada

    tomo um ndice alfabtico, de dimenso inferior relativamente aos impressos em 1764 para os

    tomos anteriores.

    A diviso da obra em duas partes justifica-se por diversas razes, alm de uma

    mudana na organizao e estrutura dos tomos, ocorreu uma sbita reivindicao da autoria

    da obra, uma subtil alterao do ttulo, uma mudana de impressor juntamente com uma

    exclusividade de impresso, e por fim uma total mudana no estilo da escrita, presente na

    organizao e desenvolvimento dos temas abordados. O autor ao sair do anonimato parece

    agora naturalmente mais preocupado com a qualidade da sua obra e dos temas abordados,

    patente no notvel aumento da qualidade da escrita e tratamento dos temas. Os dois ltimos

    tomos so agora mais bem elaborados, de certa forma mais eruditos, onde so feitas mais

    referncias a autores e outros intelectuais da poca. A componente dialogstica sempre

    mantida ao longo de toda, com alguns momentos de menor participao das personagens

    quando o autor trata de temas mais longos e complexos. No ltimo tomo, de realar que as

    personagens comeam mesmo a falar de aspectos da sua vida pessoal, referindo nomes de

    pessoas com as quais tero convivido e partilhado experincias, o que abriu tambm caminho

    para estudar uma possvel rede social do autor, sabendo que este era o interlocutor de todas as

    personagens, e partindo da ideia de que muitas das histrias que relata possam ter sido

    baseadas na sua vida pessoal ou nas experincias pessoais de outros com quem ter partilhado

    ideias, as diversas referncias permitem estabelecer hipotticos relacionamentos pessoais.

    O vasto leque de temas abordados ao longo dos seus 8 volumes publicados, com cerca

    de 460 pginas cada um, permitiu a realizao de uma anlise exaustiva do seu contedo, e

    das suas fontes e referncias. No entanto pela dimenso enciclopdica da obra, e pela

    imensido de temas e assuntos abordados, decidiu-se trazer para aqui apenas os que numa

    primeira anlise ilustram melhor o gnio literrio do seu autor. tambm importante referir,

    que no foi possvel identificar ou conhecer a origem de muitas das referncias e pistas

    suscitadas pelo texto da obra, no obstante sero aqui mencionadas como fonte de informao

    para outros estudos futuros.

    O primeiro tomo, comea por tratar de uma autntica miscelnea de temas, desde a

    gnese bblica do mundo at ao funcionamento do sistema solar e da teorias de Coprnico,

    passamos por experincias agrcolas, pela geologia da terra, pelo funcionamento do meio

    ambiente natural. So contadas histrias de lugares remotos do mundo, da ndia frica,

    chegam-nos notcias dos seus costumes e hbitos alimentares. contada a histria das

    civilizaes antigas, do Egipto ao grande imprio Romano. So explicadas as diversas formas

  • 26

    de governo dos reinos, da monarquia democracia, dando exemplos do seu funcionamento e

    enunciando os diversos sistemas implementados nos pases europeus. A meio do primeiro

    tomo comea-se j a notar uma certa tendncia para contar a Histria eclesistica e secular de

    Portugal, tendncia essa que monopoliza cerca de metade da obra, sobretudo a partir do tomo

    III at meio do tomo VII. Cabe aqui realar que os estudos de Manuel de Faria e Sousa1 e do

    Conde de Ericeira so as duas fontes histricas principais usadas por Santa Rita, como o

    prprio o afirma, fazendo-lhes inmeras menes ao longo das suas dissertaes sobre a

    Histria do reino e da Europa. Sobre o primeiro diz por exemplo:

    Vs fundado no grande Historiador Manuel de Faria e Sousa no contastes o que ele

    encobriu, por que escreveu em Castela no tempo de Filipe III de Portugal; e no justo que

    uns ignorantes, e humildes, como somos, ignorem as verdadeiras mais constantes.2

    No entanto Santa Rita elege o segundo como a sua principal fonte de Histria de

    Portugal, o Conde de Ericeira Historiador nico da nossa Monarquia3. So feitas inmeras

    referncias a este Conde durante toda a obra, nunca no entanto sendo possvel perceber

    claramente a qual dos Condes de Ericeira se referia, mas que pela referncia feita ao primeiro

    tomo da obra sobre Histria de Portugal desse conde4 podemos apontar para o 3 Conde de

    Ericeira D. Lus de Menezes autor da obra Portugal Restaurado.5

    Ainda sobre as suas fontes histricas, Santa Rita traduziu um excerto da obra do

    excelente Historiador D. Jos Martines de la Puente no Prologo do seu Compndio de las

    1 Ver por exemplo: [AHI, T2, C1, p.1] ou [AHI, T2, C2, p.9]; sobre Manuel de Faria e Sousa: poeta, historiador

    e fillogo portugus, n. em Pombeiro, m. em Madrid (1590-1649); autor de Comentrios dOs Lusadas; Europa

    Portuguesa; sia Portuguesa; Eptome das Histrias Portuguesas; Fuente de Aganipe (em verso). In Lello

    Universal, Dicionrio Enciclopdico Luso-Brasileiro, Lello&Irmo Editores, Porto, 1986, Vol.2, p. 939.

    2 [AHI, T2, C1, p.1]. 3 [AHI, T2, C1, p.2]. 4 [AHI, T2, C2, p.10]. 5 Sobre os diversos Condes de Ericeira: D. Fernando, 2 Conde de Ericeira, guerreiro e historiador portugus, n.

    em Lisboa; autor de Vida e Aces de El-Rei D. Joo I (1677) e Histria de Tnger (1614-1699); D. Lus, 3

    Conde da Ericeira, guerreiro e escritor portugus, n. em Lisboa; autor de Portugal Restaurado (1632-1690); D.

    Francisco, 4 Conde de Ericeira, guerreiro e erudito portugus, n. em Lisboa (1673-1743); D. Lus , 5 Conde da

    Ericeira, 1 Marqus de Lourial, vice-rei da ndia, n. em Lisboa em 1689 m. em Goa em 1742. Autor de:

    Complemento ao Vocabulrio do Padre D. Rafael Bluteau; Suplemento ao Dicionrio Histrico de Moreri.

    Traduziu a Histria de Carlos XII, de Voltaire. In Lello Universal, Dicionrio Enciclopdico Luso-Brasileiro,

    Lello&Irmo Editores, Porto, 1986, Vol.1, p.857.

  • 27

    historias, e descubrimentos de la ndia Oriental, etc. hasta Filipe Segundo de Portugal1

    onde no final da transcrio enuncia todas as fontes histricas que utilizou nas conferncias:

    Isto sobeja aos que leram pouco para lhes excitar a curiosidade, e ateno; e eu para no

    errar, quando me possvel vos contarei sumariamente o que escreveram Barros, Diogo de

    Couto, Gomes Banhes, Ferno Lopes, Luiz Coelho de Barbuda, Fr. Antnio de S. Romo

    Monge Benedictino, Bernardino de Escalante, Fr. Gaspar da Cruz da Ordem dos

    Pregadores, o M. Fr. Jeronymo Roman, Eremita de meu Pai Santo Agostinho, Marco Paulo

    Veneto, Mizer Pogio, Micer Luiz de Parthema, o Licenciado Manuel Correa comentador de

    Cames, Pedro Ordonhez de Zevalos na Viagem do mundo, o Tito Lvio Lusitano Manuel de

    Faria e Sousa, Mariz, e D. Joseph Martines de la Puente, que por estranho, e amigo

    reconciliado merece o maior crdito de verdadeiro e desinteressado. 2

    Esta Histria que Santa Rita trouxe para as conferncias da sua academia sobretudo a

    Histria do Reino de Portugal baseada na vida dos Reis, com algumas incurses nos

    descobrimentos portugueses. A ttulo de curiosidade faz referncia s aventuras de Preste Joo

    e Pero da Covilh famosos espies portugueses. Conta tambm a Histria do Reino de

    Espanha, a Histria do imprio romano e toda a histria mitolgica. Numa outra vertente de

    cariz mais religioso conta a Histria Bblica, Sagra e Religiosa, apoiada nos textos bblicos ou

    em estudos de teolgicos. Conta tambm a Histria da vidas dos Papas, e dos Santos.

    Alm da Histria, e da Teologia, outro tema central presente um pouco por toda a obra

    a Cincia, ou Filosofia Natural como era conhecida na poca. O autor refere-se tambm a

    esta como Filosofia Moderna a nobilssima cincia, fazendo inmeras referncias aos mais

    diversos assuntos cientficos, mas tambm reflectindo sobre o que era esta nova filosofia e

    sobre a condio de ser filsofo.

    Tambm vos advirto que ser Filsofo moderno no ser Cartesiano; Renato Descartes foi

    um grande Filsofo moderno, porm disse e escreveu muitas coisas, que nem pelo

    pensamento nos passa segui-las: os modernos no seguem autor, nem escola alguma;

    veneram a todas e a todos, e em todas e todos vo buscar a verdade se l a acham, e

    instrumentos ou graves demonstraes com que a mostrar, de sorte que o Filsofo moderno

    Aristotlico, Cartesiano, Neutonista, etc., Tomista, Scotista, Edigiano, Mdio, e nada

    disto , porque a nenhum destes defende nem segue.3

    1 [AHI, T8, C12, p. 140]. 2 [AHI, T8, C12, p. 141]. 3 [AHI, T3, C18, p. 143].

  • 28

    tambm neste ponto que podemos ver que Santa Rita no era apenas um ingnuo

    curioso, defendo que o verdadeiro filsofo estuda e reflecte as diversas teorias e doutrinas e

    nunca se tornando num seguidor ou defensor delas, porque o objectivo ltimo sempre a

    procura da verdade e esta no escrava de nenhuma escola de pensamento. Continua este

    ponto advertindo para a dificuldade de compreender os princpios fundamentais da cincia,

    que inicialmente at poderiam parecer enfadonhos, mas a sua aprendizagem era fundamental

    para mais tarde se abrirem as portas para aquilo que era a coisa mais til, agradvel, divertida

    e extremamente necessria. Traando assim o esprito iluminista da sua obra, em nome da luz

    e da razo, da verdade, estes humildes e ignorantes atravs do ensino da academia iriam ser

    iluminados e salvos da cegueira em que viviam.

    Advirto-vos que agora no princpio no haveis de achar tanto gosto no que ouvireis,

    porque, ainda que sejam coisas palpveis e claras, so princpios, sobre os quais assentam

    depois as mais gostosas, divertidas, e pasmosas experincias, e notcias; por isso vos

    recomendo tomeis com gosto grande as primeiras lies, porque todas depois vos ho de

    servir para entenderes bem o que toda a vida vos h-de alegrar o corao, de sorte que

    sempre confessareis que nunca empregastes o tempo em coisa to til, gostosa, divertida, e

    sumamente necessria; em fim direis que viveste sempre cegos, e que s este ensino vos abriu

    os olhos do corpo, e do entendimento. 1

    Santa Rita revela que tudo o que ensinar na AHI ser fiel s doutrinas ensinadas pelos

    padres da Congregao do Oratrio. Apela necessidade de adquirir instrumentos e

    equipamentos para a realizao de experincias fundamentais para a compreenso da natureza

    e avano do conhecimento, referindo por exemplo os investimentos realizados pela

    Universidade de Bolonha em mquinas necessrias para a realizao dessas experincias.2 Em

    Portugal diz que os padres da Congregao do Oratrio, os Clrigos Regulares, os Cnegos

    Regrantes, e o Colgio dos Ingleses todos se dedicavam ao estudo e ensino desta nova

    filosofia. Referindo tambm que o rei D. Joo V mandou vir de Frana e Inglaterra preciosas

    mquinas para instruo da Corte3, oferecendo-as ao Colgio de Nossa Senhora das

    Necessidades de Lisboa, frequentado por fidalgos, nobres e outros os curiosos que

    frequentavam estas aulas todas as semanas para recrearem-se no incomparvel divertimento 1 [AHI, T3, C18, p. 144]. 2 [AHI, T3, C18, p.138]. 3 Banha Andrade no seu estudo A Reforma Pombalina dos estudos secundrios (1759 1771), faz tambm

    referncia a este facto, citando esta mesma conferncia: [AHI, T3, C18, p.138].

  • 29

    que eram as experincias cientficas.

    Faz uma interessante apreciao do estado da cincia na Europa, e a adeso do povo a

    esta nova cincia. Dizendo que em Frana no existia um prncipe, fidalgo, nobre, mecnico,

    plebeu, mulher, nem mancebo de qualquer estado, que no fosse um bom filsofo.

    E quase o mesmo se passava em Inglaterra, e tambm em Itlia e Alemanha. Em Espanha

    estava a comear mas com grande fora, no entanto, refere o autor com agravo, em Portugal

    s na Corte se verificava essa adeso ao conhecimento, fora dela s por especial fortuna,

    fortuna essa que tambm eles tinham na AHI onde quis Deus com o terramoto trazer-nos

    este insigne Filosofo, que aprendeu em Frana, Itlia, e ultimamente, por ocupar bem o

    tempo, na Congregao do Oratrio de Lisboa, onde (diz ele) ouvira a melhor Filosofia

    moderna Cptica, isto , que s busca a verdade sem paixo por autor, nem sistema algum

    ()1 Preocupa-se em dizer que a Igreja Catlica de Roma em nada se ope a esta cincia,

    muito pelo contrrio, e que a Fsica e Metafsica de Aristteles, so as origens da Cincia, e

    que apesar de terem sido proibidas no sculo XIII pela Igreja, isso eram coisas do passado.

    Assume tambm uma posio de homem religioso perante a Cincia, onde esta ltima seria

    sempre um olhar para a obra de Deus, uma procura pelos segredos que com o tempo foram

    esquecidos pelo homem. Faz referncia s experincias da Academia Real das Cincias de

    Paris e s suas memrias publicadas no ano de 1713, prosseguindo com uma interessante

    definio do que era a Fsica:

    Fsica ou Filosofia Natural (disse o Filosofo) uma cincia que trata de todas as coisas

    naturais, dando a razo e apontando a causa de todos os efeitos ordinrios e extraordinrios

    que vemos com os nossos olhos. Trata dos cus, dos astros e dos meteoros, declara qual seja

    a causa das chuvas e dos ventos, a origem das mars e das fontes. Trata de cada hum dos

    elementos e das suas propriedades. Enfim, tudo quanto temos na terra objecto desta

    curiosssima e admirvel cincia, merecendo-lhe especial ateno as plantas, os brutos, e o

    homem com tudo o que serve aos seus sentidos, como so a luz que nos alumia, as cores que

    nos alegram, os sons que nos divertem, o cheiro e sabores que nos recreiam, e o movimento

    de muitas coisas que nos admiram. Isto suposto, para se reconhecer qualquer coisa o melhor

    meio examinar, e conhecer as partes de que constam todas as coisas constam de duas

    partes, a que os Filsofos chamam Princpios, que vem a ser Matria e Forma. ()2

    No tratamento destes assuntos, Santa Rita demonstra ser um erudito conhecedor do

    estado da Cincia e atento aos seus avanos, principalmente em Frana, conhecedor, como j 1 [AHI, T3, C18, p.139]. 2 [AHI, t3, c19, p.145].

  • 30

    referido, das memrias da Academia Real de Cincias de Paris, mas tambm de obras como o

    Journal de Savants s quais se refere como sua fonte1 ou s Mmoires de Trevoux2.

    (...) eu tenho lido as obras da Academia Real das Cincias, as memrias de Trevoux, e

    quase todos os livros de Filosofia natural, chamada moderna(...)3

    Mas atento tambm ao que se escrevia em Portugal, e sobre estes assuntos da cincia

    faz diversas referncias Recreao Filosfica de Teodoro de Almeida, obra contempornea

    e de mbito semelhante AHI. Por exemplo falando novamente sobre mquinas e

    instrumentos de experincias refere que estampas delas trazem muitos livros Franceses e a

    Recreao Filosfica4, lamentando o facto de a AHI no possuir nenhumas mquinas5 para

    realizar experincias e nem estampas para mostrar, podendo apenas recorrer-se das palavras

    para descreve-las.

    Tratou tambm de um problema bastante actual para na poca inerente aos

    desenvolvimentos que se assistiam no campo cientfico. A problemtica da nomenclatura

    cientfica, como o autor o afirma, que pela novidade das contastes descobertas existiam

    muitas palavras e nomes novos, muitos deles no existentes em Portugus, aos quais eram

    dados diminutivos, mas que muitos modernos abominavam optando pelo latim.

    Transportando esse problema para a sua academia, decidiu resolv-lo simplificando o

    conhecimento de forma a torn-lo mais acessvel por todos, que mais uma vez expressa o seu

    sentido crtico desmarcando-se do elitismo erudito:

    () ns porm que somos uns ignorantes, e no temos, como tais, que temer censuras de

    pouco polidos para melhor nos explicarmos e percebermos, chamamos ar ao ar grosso, e ao

    1 Referncia ao Le Journal des Savans, posteriormente intitulado Journal des Savants, como fonte do estava a

    escrever: [AHI, T3, C20, p.165]. 2 A respeito de uma dissertao sobre os efeitos das pedras gatas na sade termina com a opinio dos filsofos

    modernos sobre o assunto referenciando nas Mmoires de Trvoux: O Reverendssimo Padre D.Thomaz

    Mangeart Monge de S. Bento da Congregao de S. Vannes, e Antiqurio do Duque imprimiu em Bruxelas no

    ano de 1753 uma doutssima dissertao a respeito deste fenmeno, que muitos louvam os padres de Trvoux

    nas memrias do mesmo ano. [AHI, T7, C31, p. 368]. 3 [AHI, T4, C3, p.17] 4 [AHI, T3, C49, p.389]. 5 Ainda sobre mquinas, e na mesma conferncia referenciada acima, faz referncia aos artfices portugueses

    Bento de Moura e Manuel ngelo Vila que reduziram a mquina pneumtica e melhoraram o seu funcionamento

    e facilidade de utilizao, tendo com isso sido bastante reconhecidos nos reinos estrangeiros.

  • 31

    ar subtilssimo chamamos arzinho.1

    Santa Rita conferiu obra um carcter internacional, ou universal, sempre presente,

    expresso pelas inmeras referncias tanto a entidades estrangeiras, como aos mais diversos

    lugares do mundo. Compreender e dar a conhecer este mundo era fundamental, e tambm um

    dos temas que mais curiosidade despertava nos leitores, vidos em ouvir essas histrias de

    lugares longnquos ou de saber o que se passava nos outros reinos da Europa. E Santa Rita

    alimenta esse ensejo, principalmente com histrias do Oriente, sobretudo da ndia e China,

    mas tambm das Amricas, sobretudo do Brasil, e dos territrios portugueses da frica,

    Moambique e Angola. Pelas palavras dos diversos eruditos da sua Academia, d a entender

    que possua conhecimentos profundos e actuais, talvez fundados na experincia pessoal, e

    troca de impresses com missionrios destacados, sobretudo da sia Portuguesa. Os temas e

    histrias so inmeros e ilustraremos aqui algumas que parecem interessantes no esprito da

    obra. Um dos problemas que um homem do mundo, viajante e aventureiro, teria que enfrentar

    nesses lugares remotos era o da comunicao. Sobre Goa, exemplifica, ora da voz prprio

    Ermito, ora dizendo as ter ouvido de outros membros religiosos de Santo Agostinho, que nas

    misses religiosas os problemas lingusticos, das tradues da sagrada escritura para os

    dialectos e lnguas das colnias, era um verdadeiro entrave. Referindo tambm as dificuldades

    de pronunciao do Portugus em Goa e em Bengala. Elevando as especificidades da lngua

    portuguesa, traduzidas por exemplo no significado da palavra saudade:

    A lngua Castelhana excelente e abundantssima de palavras, porm falta-lhe uma para

    expressar e dizer de uma vez aquela aflio que padece uma pessoa quando est ausente de

    outra, a quem ama, a que no nosso Portugus se explica admiravelmente com a palavra

    saudade.2

    Entre as diversas incurses pelo mundo, Santa Rita dedica largas pginas China,

    colocando todas as personagens da academia a contar as suas experincias passadas nesse

    Imprio. Ser possvel que o autor tenha participado em misses religiosas ou diplomticas

    neste pas, ou que pelo menos tenha tido contacto com pessoas que o fizeram. Talvez tambm

    tenha tido acesso a documentos relacionados com as aces diplomticas da Corte Portuguesa

    na China ocorridas durante os incios do sculo XVIII, nomeadamente da misso diplomtica

    1 [AHI, T3, C49, p.390]. 2 [AHI, T3, C33, p. 261].

  • 32

    do embaixador Alexandre Metlo de Sousa Menezes ordenada por D.JooV para negociar com

    o Imperador da China. Participaram nesta misso diversos religiosos, missionrios, e

    soldados, que no dia 12 de Agosto de 1725 partiram na fragata de Nossa Senhora da Oliveira

    em direco a Macau.1

    H muito tempo, (disse o Telogo), desejamos saber nesta Academia notcias especiais do

    Imprio da China, e agora se excita mais o nosso desejo, ouvindo a felicssima notcia de

    inumerveis pessoas que no dito Imprio abraaram a nossa F Catlica, fruto do zelo dos

    exemplarssimos Religiosos da Ordem dos Pregadores, que com a converso de um Eunuco,

    dizem, conseguiram a converso do Imperador. A notcia to feliz que eu duvido dela, no

    obstante escrever-me de Manilhas meu irmo, que repetidas vezes entra no Imprio. ()

    O senhor Ermito, que tantos anos habitou naquele Imprio, podia agora dar-nos notcia de

    todo, e o mesmo podiam fazer os nossos companheiros que o viram. Eu direi, (respondeu o

    Soldado), porque vim de l h menos tempo, e para evitar confuso, primeiro tratarei do

    Imprio, isto das suas provncias, terras e frutos, depois da gente, letras e costumes, e

    ultimamente do princpio da sua Cristandade e progressos dela, at o tempo, em que vim

    para Portugal.2

    () porque estes (os europeus) no podem entrar no Imprio, seno como eu, e outros na

    famlia de algum Embaixador, ou por companheiro de Missionrio, s com o seu fato, sem

    coisa de comrcio. Assim entrei a primeira vez com o Reverendssimo Padre Mestre Fr. Joo

    Salzedo, da Ordem dos Pregadores, de Manilas; e segunda, com o Excelentssimo e

    Reverendssimo Senhor D. Fr. Francisco da Purificao, Bispo de Pequim, da Ordem de

    Santo Agostinho; e o nosso irmo Ermito com o Embaixador Alexandre Metlo de Sousa

    Menezes.3

    Se o autor da AHI participou pessoalmente nessa misso diplomtica no sabemos,

    contudo as suas personagens nela participaram, e fica claro que o prprio possua profundos 1 O relato desta misso encontra-se detalhadamente descrito na Abreviada Relao da Embaixada, que a

    Serenssima Majestade do Senhor D. Joo V Rei de Portugal, mandou ao Imperador da China, e Tartaria Yum

    Chim, pelo seu Embaixador Alexandre Metello de Souza Menezes () in MIRANDA, Francisco de S e,

    Coleo e Escolha de Bons Ditos, e Pensamentos Moraes, Politicos, e Graciozos., Oficina de Francisco Borges

    de Souza, Lisboa, 1779, pp.127-178. Contudo no foi possvel apurar os nomes dos frades e religiosos que

    participaram nesta viagem, onde se poderia encontrar o autor Frei Joaquim de Santa Rita. Entre diversas

    referncias possveis: () quando porm me preparava para vir de todo para este Reino na Nau que foi buscar

    o nosso Embaixador () [AHI, T4, C42, p.334]. 2 [AHI, T4, C21, p.161]. 3 [AHI, T4, C24, pp.185-186].

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    conhecimentos sobre a cultura e hbitos da China1. So tambm relatadas imensas histrias e

    pormenores dessa embaixada que no vm descritos no documento acima citado em nota de

    rodap. Com fico ou no, Santa Rita deixa-nos uma singular viso setecentista de um

    Imprio e de uma Cultura remota e nica. Faz uma interessante referncia s elites eruditas da

    China e forma como hierarquizavam os seus graus de conhecimento e a um tipo de

    academias que costumavam formar entre si.

    Nas casas dos poderosos so Mestres os Bacharis, e tambm h muitos estudos

    particulares. Depois que alcanam o grau, ainda que seja o primeiro de Bacharel, no

    reconhecem Mestre, mas sim formam entre si uma Academias, nas quais se juntam algumas

    vezes em cada ms, um deles abre um livro, e d o ponto, sobre o qual todos compem, e

    depois conferem as composies. 2

    Como filsofo e homem erudito, no poderia falar da China e do Oriente sem

    mencionar o memorvel Confcio tecendo-lhe enormes elogios:

    () floresceu neste Imprio o memorvel Filsofo Confcio, ou Confuso, homem

    sapientssimo e do melhor gnio e bondade de que h tradio no Oriente, nascido para bem

    das Republicas de todo; porque a todos os Reinos, e Imprios intentou reformar com

    admirveis Leis, para observncia da natural; teve muitos e admirveis discpulos; governou

    muitos e muitos Reinos com especial pacincia para tolerar a resistncia dos brbaros (...)3

    O tema da China parecia ser de extrema importncia e interesse para o pas, no s

    pelos esforos diplomticos que estavam a ser feitos durante a governao de D. Joo V,

    como pela presena portuguesa em Macau e o comrcio com o Oriente. Santa Rita dedica

    tambm longas pginas a Macau iniciando o tema com as palavras: Falta dar-vos noticia,

    (disse o Ermito) da Ilha e cidade de Macau, porta singular por onde a nao Portuguesa

    introduziu a F Catlica na China (...). 4 Relatando que a situao naquele territrio no era

    a melhor, o comrcio e as relaes com os chineses estavam deteriorados:

    1 Nessa sua erudio alicerada sobre o imprio chins, chega mesmo a corrigir a obra do historiador Manuel de

    Faria e Sousa. como erradamente imprimiram os que deram ao prelo a historia da China do grande Manuel de

    Faria e Sousa. [AHI, T4, C37, p.302]. 2 [AHI, T4, C25, p.197]. 3 [AHI, T4, C27, p.212]. 4 [AHI, T4, C42, p.329].

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    H poucos anos ouo queixarem-se os que l vivem, de que o comrcio est diminuto, a

    fidelidade nos Chinas extinta, e que s a pobreza cresce cada dia, e consolando eu a todos,

    os que me escreviam estas notcias tristes, outro amigo de toda a verdade, compadecido de

    que eu gastasse o tempo e papel de balde, me mandou dizer que a Cidade cada vez est mais

    rica e aumentada, e s era a verdade menos, nos que me escreviam, os quais para evitarem

    mimos, se fingiam alcanados.1

    O carcter internacional e universal da obra contudo no se limita China, como

    referido anteriormente tambm as ndias e sobretudo Goa assunto recorrente ao longo de

    toda a obra. Os eruditos da AHI, todos homens viajados, vo relatando as suas histrias um

    pouco por todas as colnias portuguesas, fazendo referncias tambm aos pases vizinhos

    dessas, e outras histrias chegavam tambm academia atravs de conversas com outros.2

    Uma dessas histrias contada na primeira pessoa por um Romeiro chamado Joo de Cristo,

    que pedindo licena para participar na Conferncia partilha na AHI as suas aventuras pela

    Tartria no Oriente.

    Concorrem este ano mais que nunca os Romeiros a este delicioso stio, e entre eles muitos

    que fazem vid